sábado, agosto 14, 2004

Afinal, o que é que se passa?

Confesso que, talvez ingenuamente, acreditei (ou quis acreditar) no correcto funcionamento da Justiça. Referindo-me especificamente ao caso Casa Pia, senti mesmo algum contentamento por ver figuras aparentemente poderosas serem detidas, no que acreditei ser um sinal de que o sistema judicial se emancipara e fazia chegar o seu braço justiceiro onde quer que ele fosse necessário. Naturalmente, também estranhei a forma como informações relativas ao processo e que estariam sob segredo de justiça faziam repetidamente manchetes de jornais, mas (e nisto também eu sou culpado) não me preocupei em demasia com isso. Pelo contrário, também eu devorei essas notícias, ávido de saber em que escândalos andavam metidos esses «malandros». Depois, à medida que foram surgindo informações contraditórias, como a notícia da revista francesa Le Point, que apontava para o envolvimento de dois ministros do anterior governo (a qual nunca mereceu por parte do PGR qualquer crédito), ou a falibilidade de alguns dos testemunhos (o caso paradigmático é a acusação a Herman José de ter praticado actos homossexuais com um jovem em Portugal, num momento em que o apresentador estava no Brasil), comecei a ter dúvidas e a não saber em quem acreditar. Comecei também eu a pôr a hipótese de o processo estar, de facto, inquinado, pela intromissão de elementos que visavam a sua deturpação. Embora não faça parte dos «milhares (!) de pessoas que compõem o 'inner circle' do poder em Portugal» (Inês Serra Lopes, O Independente, 13/08/04), pareceu-me que começava a transpirar para fora desse círculo uma guerra entre forças do mesmo. Uma guerra que um cidadão comum como eu não pode senão imaginar... A recente publicação de parte das conversas que um jornalista manteve com Adelino Salvado e Sara Pina pel' O Independente só veio confirmar essas suspeitas. Algo de muito grave se passa nos círculos de poder em Portugal e o facto de essa suposta guerra ter atingido o poder judicial aumenta exponencialmente a gravidade da situação. Porque põe em causa o Estado de Direito e a qualidade da própria democracia. Que cada vez menos são os cidadãos comuns que acreditam na classe política é um dado adquirido (por muito que doa à própria). Agora, que o poder judicial (nas suas mais altas esferas) também possa ser corrompido por interesses não se sabe de quem e em quê, é um dado novo a que não estávamos habituados. Ou, pelo menos, no qual ainda nos recusávamos a acreditar. Afinal, talvez não seja a Justiça que anda à caça dos poderosos que cometem crimes, mas os poderosos que andam à caça uns dos outros, por razões que eles lá saberão. Resta saber se os crimes que terão realmente sido cometidos, vitimando crianças à guarda do Estado, serão alguma vez comprovados e os seus culpados condenados.