quarta-feira, agosto 25, 2004

Insulto justificado

O caso noticiado pela SIC dos 50 automóveis requeridos por diversos ministros e (felizmente) negados pelo Ministério das Finanças demonstra bem o que é a cultura de poder em Portugal. É escandalosa. Inaceitável. Num momento em que o défice público real andará pelos 6%, apesar do «rigor» orçamental que tem depauperado a economia nacional, em que o que se cortou no investimento se gasta na segurança social para o pagamento de subsídios de desmprego. Num momento em que cada vez mais famílias portuguesas se debatem com grandes dificuldades para manterem um nível de vida acima do limiar da pobreza. Num momento em que muitas delas não o conseguem, de facto. Porque não há trabalho, porque as empresas despedem empregados que não podem sustentar e muitos dos que ainda sustentam é à custa de baixos salários. Quando há tanto ainda para fazer em matérias como a qualificação profissional, o desenvolvimento tecnológico, a melhoria dos cuidados de saúde, o desenvolvimento qualitativo da educação, o incentivo ao investimento, a redução da despesa pública, cortando nos gastos verdadeiramente dispensáveis, eis que os ministros escolhidos a dedo por Santana e Portas põem no rol das suas exigências para (supostamente) bem executarem os altos cargos para que foram nomeados, a substituição das frotas automóveis ao serviço dos seus ministérios (onde se incluem os automóveis para seu uso pessoal), os quais terão nada mais nada menos do que 2 anos de vida! É extraordinário! Eu diria mesmo que é incompreensível que isto suceda num país da União Europeia. Mas não digo. Não digo, porque estamos em Portugal. E este nosso Portugal, por alguma razão, por muito ou pouco que mudem os governos, acaba sempre governado por esta gentalha carreirista que acima do interesse comum põe sempre o seu interesse pessoal. O seu desejo de grandeza. Porque é isso que interessa aos nossos políticos, não se duvide. O que lhes agrada é aparecerem na fotografia. É serem importantes. E é serem tratados como tal. Quanto maiores forem as mordomias, melhor se sentirão. Para um dia poderem dizer aos netinhos “Eu servi Portugal”, quando na realidade deveriam dizer “Eu servi-me de Portugal”. Cabrões!