terça-feira, setembro 28, 2004

O sonho manipulado

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O IndieLisboa, fruto da perserverança da associação Zero em Comportamento em vencer as inúmeras dificuldades com que, normalmente, se depara quem procura desenvolver eventos culturais que escapem à lógica do grande mercado, é, seguramente, um dos mais importantes eventos do ano. Vou ainda mais longe. O IndieLisboa é uma das poucas formas visíveis de resistência à mediocridade que se tem apoderado de Portugal, com especial incidência nos últimos anos.

Mediocridade que não tem (pelo menos, à superfície) grandes segredos. As suas causas identificáveis são, por um lado, a falta de valores e de qualidades na generalidade das lideranças políticas (aspecto em que a ascensão de Santana Lopes a primeiro-ministro não é senão a sua expressão caricatural – embora, infelizmente, real), e, por outro, a emergência da doutrina neo-liberal ao estatuto de política (semi-)oficial do Estado, por intermédio da coligação governante.

Ora, a primeira coisa que o IndieLisboa prova é que o seguidismo cego da lógica do mercado é um factor de pobreza cultural que vai contra a vontade dos próprios cidadãos. Bastava ver a fila que ontem, às 18.15, se formara na bilheteira do Cinema S. Jorge, para perceber como há tanta gente ansiosa por ver o cinema que se faz por esse mundo fora e que escapa à máquina mercantilista que explora as salas de cinema portuguesas.

Uma das razões para tal enchente, era seguramente a segunda exibição do filme Czech Dream, dos finalistas da escola de cinema checa, Vit Klusák e Filip Remunda, o qual tive também oportunidade de ver. E em boa hora, diga-se. O filme é excelente.

Eu não sou crítico de cinema nem tenho pretensões a sê-lo. Não só porque não me julgo com talento para tal, mas também porque sempre tive maior propensão para actividades criativas do que para a crítica dessas actividades, quando desenvolvidas por outros. Daí que me seja particularmente difícil elaborar aquelas intrincadas linhas de raciocínio que levam os críticos a dizer que o filme x é bom, o filme y é sofrível ou que o o filme z é uma nódoa. (Podia ser mauzinho e dizer que só eles próprios percebem o que escrevem, mas não. Não vou dizer isso.)

Como tal, humildemente, com pouco mais posso justificar a excelência de Czech Dream do que com o facto de eu ter gostado tanto dele. E o pouco mais anda à volta disto: os seus autores, dois jovens finalistas de cinema, conseguem desmontar a lógica consumista do mundo em que vivemos, logrando manipular milhares de pessoas através de uma campanha publicitária a um hipermercado que não existe.

O filme tem um registo divertido, mas o que ele representa é muito sério e dá muito que pensar. Porque se é possível convencer dois milhares de pessoas a reunirem-se para a inauguração de um hipermercado que não existe (o que existe é apenas a sua fachada, ou seja, uma estrutura metálica oculta por um gigantesco outdoor), então tudo é possível. Ou seja, tudo o que é vendido pode não ter conteúdo para lá da fachada ou da embalagem. E isto aplica-se não só aos produtos comerciais, mas também aos produtos políticos. É sintomático que uma das pessoas que caíram no engodo, depois de se ter apercebido do logro, tenha revelado a sua decisão de votar contra a integração da República Checa na União Europeia. Ou, como é dito num debate televisivo por um jovem ao primeiro-ministro checo, a campanha de marketing implementada pelo governo apelando ao voto positivo no referendo sobre a integração europeia, pode perfeitamente não passar da fachada.

O que, de imediato, nos remete para a integração portuguesa na UE. Quantas dúvidas houve (e há ainda) sobre o processo de integração europeia. Não é que se questione o facto de lá estarmos. Parece-me pacífico para a maioria de nós que não havia outra escolha possível. A questão está em sabermos qual é o nosso papel na Europa e o que é que se espera que sejamos dentro dela. Afinal, estamos na Europa porque não havia outra alternativa, ou porque era a opção certa para o nosso desenvolvimento? Somos europeus participativos e empenhados na construção da União, ou estamos apenas agarrados à última carruagem para não ficarmos apeados da História?

Ora, eu julgo que a maioria dos portugueses faz ainda uma ideia muito vaga do que seja a Europa e ainda mais vaga do que será suposto Portugal ser no âmbito da União Europeia. E interrogo-me porque é que a Europa continua a chegar ao cidadão comum, mais pelos atractivos méritos da sua fachada do que pelos seus conteúdos, esses que de cimeira em cimeira se vão desenhando, perante o alheamento da generalidade das populações.

Czech Dream promete polémica (quanto mais não seja pelo facto de esta experimentação manipuladora ter sido feita às custas do Estado), mas enquanto objecto artístico já é um vencedor. Porque questiona a humanidade. Porque nos abre os olhos para as evidências que não queremos ver. Porque revela o que sabemos, mas que preferimos ignorar. Que somos manipulados.

sexta-feira, setembro 24, 2004

Nostradamus

Há quem a ache desbocada e demasiado emocional. Eu acho que ela é uma mulher de garra e de convicções fortes. Para a história vão, provavelmente, ficar as declarações que proferiu depois da decisão do avô Sampaio de não convocar eleições e de convidar Santana a formar governo. Toda a gente (leia-se, as figuras notáveis do PS) a criticou. Mas quantos dos que a criticaram não pensavam o mesmo? A questão é que raramente os políticos têm a frontalidade que Ana Gomes é capaz de ter. E é isso que a difere de muitos dos seus camaradas de partido. E é isso também que faz dela uma das principais mais-valias do PS para combater a reinante mediocridade da política. Isso e a lucidez com que observa a realidade política internacional. Se, daqui a dois anos, Sócrates não a convidar para assumir a pasta dos Negócios Estrangeiros, cometerá uma grande injustiça. Não com ela, mas com todos nós.

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E assim, para a posteridade, ficam dois vaticínios. Um verificar-se-á já amanhã. O outro, daqui a dois anos... Ou talvez mais cedo. Quem sou eu para tentar adivinhar o que irá na cabeça do vovô?

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quinta-feira, setembro 23, 2004

E agora o desporto

Esclarecimento oficial

Tendo verificado a ocorrência de várias visitas ao meu blog resultantes da pesquisa adelino+salvado+cassetes+processo+casa pia (ou qualquer coisa semelhante) no Google, venho por este meio esclarecer que não é aqui que vão encontrar as tais gravações. Quero ainda deixar bem claro que não tenho nem nunca tive nada a ver com tais gravações. (Não vá o diabo tecê-las).
Finalmente, não quero deixar de aproveitar esta comunicação formal para desejar a todos os investigadores boa sorte na sua pesquisa.
(E, se as encontrarem, mandem-me o URL, está bem?)

If Bush was a girl

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Vade Retro, Santanás!!

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Que Santana não tem legitimidade ética para ser primeiro-ministro, já toda a gente está careca de saber (até o Jorge, outrora ruivo, está cada vez mais calvo). Mas que ele tenha chegado à Câmara de Lisboa também sem qualquer legitimidade, isso já seria uma novidade.
Eu espero sinceramente que não. Que não tenha havido fraude eleitoral. Que possamos continuar a acreditar na democracia. Porque isto é muito sério. Demasiado sério para se poder sequer brincar com o assunto.
Uma coisa é termos uma espécie de República das Bananas na Madeira. Outra é termos uma espécie de Estados Unidos da América em Lisboa.

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Lembram-se do 25 de Abril de 74?

quarta-feira, setembro 22, 2004

Colocação manual

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Portugal continua na berra. Depois da oportuna intervenção da marinha, que, com galhardia, defendeu as costas portuguesas da invasão holandesa, eis que mais uma vez o nosso país se destaca no mundo pela sua extraordinária criatividade. Consciente da importância estratégica que o turismo tem para um país como o nosso, o governo de Santanás decidiu promover o artesanato ao estatuto de actividade privilegiada da economia portuguesa. O brilhantismo desta decisão, porém, não está tanto na ideia propriamente dita, mas na sua implementação. Assim, contrariando o habitual faz-desfaz da política portuguesa, onde a alternância do governo tantas vezes tem por consequência a reforma da reforma anterior, o executivo optou por colocar o artesanato no cerne da sua política educativa. É que, segundo fonte da central de comunicações do governo, «introduzindo subliminarmente esse conceito na mente dos portugueses, através da escola, dificultará a vida a qualquer governo que no futuro queira pôr em causa a nossa política de trabalhos manuais».
Apesar dos esforços desenvolvidos para ouvir a Ministra da Educação, A Nódoa esbarrou sempre com a indisponibilidade da mesma para falar, aparentemente por ter a agenda totalmente preenchida por um curso intensivo de linguagem gestual.

Plano Nacional de Planeamento Familiar

Soubemos, no entanto, junto de fonte do Ministério da Defesa, que a colocação manual é um procedimento a integrar no Plano Nacional de Planeamento Familiar (PNPF), o qual será apresentado oportunamente pelo Ministro do Mar. Este documento pretende, de uma vez por todas, resolver os problemas que enfermam o planeamento familiar em Portugal, nomeadamente a questão do aborto. A mesma fonte revelou ainda que, para além da colocação manual, será dado o devido destaque a outras opções para evitar uma gravidez indesejada, como a colocação oral e a colocação anal. Na secretária do Ministro está também uma proposta arrojada, que visa promover a homossexualidade ao estatuto de tendência sexual oficial de Portugal. Contudo, não foi possível obter junto do gabinete do referido ministério qualquer confirmação sobre a possibilidade de esta proposta vir a ser integrada no PNPF.

domingo, setembro 19, 2004

Jogo limpo

Depois de alguns indivíduos, «alegadamente ligados à claque» do Boavista, agredirem a soco, a pontapé e à pedrada jornalistas da SIC e da RTP, atitude justificada pelos agressores «pela suposta associação que a comunicação social faz entre o Boavista e um estilo de jogo duro e feio» (!?), a direcção do Boavista, condenando os incidentes, não deixou de os justificar. Afinal, «quer a centenária instituição Boavista FC, quer os seus responsáveis, profissionais e adeptos têm sido sucessiva e incompreensivelmente maltratados por alguns 'comentadores' e 'colunistas'». Ou seja: Ou dizem bem de nós, ou levam nos cornos!

quarta-feira, setembro 15, 2004

Para que conste

Skip não é o detergente que se gasta cá em casa.

As nódoas

Hoje fritei frango para o jantar... sem avental.

Não fui eu que inventei isto

Desde o seu lançamento, com o aparecimento das máquinas de lavar roupa, Skip acredita que a inovação tecnológica e os detergentes, em particular, podem ser uma fonte de libertação para as pessoas - no sentido em que lhes permitem viver melhor o seu dia-a-dia, sem se preocuparem com a lavagem da roupa.
Hoje esta preocupação de Skip mantém-se, o importante é que as pessoas vivam a sua vida normalmente e de uma forma "livre" . A sujidade não é um problema em si mesmo, é algo que faz parte integrante da vida e do nosso desenvolvimento como pessoas e, especialmente, enquanto crianças.
Para viver por vezes temos de nos sujar, e é por isso que Skip está cada vez mais eficaz, pois Skip acredita que: "é com as nódoas que nós aprendemos a viver".
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Gosto particularmente da parte que diz: «Para viver por vezes temos que nos sujar».

Finalmente, duas boas ideias

Hoje, fruto de uma iniciativa conjunta da Câmara Municipal de Bragança e das Direcções-Gerais das Florestas e dos Serviços Prisionais, vários reclusos de Bragança e de Izeda sairam das prisões para limpar as matas. A RTP esteve lá e entrevistou alguns reclusos que pareciam bastante satisfeitos por estarem a trabalhar (e a receberem o salário mínimo nacional pago pela Câmara de Bragança). Segundo a notícia da RTP, este projecto expandir-se-á para o resto do país. É bom saber que nem tudo vai mal no reino do Santanás.

terça-feira, setembro 14, 2004

Contra o Bagão...

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Eu dou-te o arroz...

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Mais de dois milhões de portugueses «está em risco de pobreza ou vive com um salário que equivale a menos de 60 por cento da média nacional de rendimentos», segundo a ONU. Fazendo fé nos números de Daniel Oliveira, isto significa que essas tantas pessoas sobrevivem com menos de 400 euros mensais. Perante esta realidade (e que foi hoje amplamente noticiada pelos media), não seria oportuno o Sr. Ministro das Finanças, como bom católico que é, fazer o seu acto de contrição pelo atentado que ontem perpetrou contra a dignidade intelectual e moral dos portugueses? Se precisa de dinheiro para o seu orçamento, Sr. Ministro (e acredito que precise), vá buscá-lo onde há! Vá cobrar os impostos a quem não os paga, a quem enriquece sem dar um tostão ao Estado! A primeira regra para a boa gestão do «orçamento familiar», caro Ministro, está na justa contribuição de todos, à qual se segue a distribuição equitativa e racional dos recursos existentes. Está em cobrar aos que se enchem de bagões e não aos que matam a fome com baguinhos.

Alternadeiros

Se nas empresas privadas, quando as coisas correm mal, a culpa normalmente é dos gestores, porque é que na administração pública a culpa dos problemas é invariavelmente dos trabalhadores? Porque é que nunca se aponta o dedo aos boys que, consoante o resultado das eleições, alternam na chefia dos serviços sem que os consigam racionalizar?

segunda-feira, setembro 13, 2004

Heróis do fumo

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O ministro da saúde não nos quer nos locais públicos. O das finanças, por outro lado, quer que sustentemos os vícios do orçamento. Para piorar tudo, se formos trabalhadores por conta de outrém, o primeiro-ministro força-nos a pagar mais para tratar dos malefícios que o fumo nos causa. Com tanto sacrifício pelo bem comum, não se poderá, pelo menos, equiparar os fumadores aos ex-combatentes, contemplando-nos também com uma pensão por serviços prestados à pátria?

O último a saber

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Agora percebo os resultados das sondagens. Se até este caiu no engodo...


Agora, se depois disto as sondagens não mudam, é que eu já não percebo nada outra vez.

domingo, setembro 12, 2004

A democracia no cu da Europa

Vereadores do PS processados por difamação. É este o título desta notícia da TSF Online, a qual, no seu corpo, felizmente, contém uma sub-notícia muito mais interessante e que de imediato nos faz esquecer a primeira. E é tão simples quanto isto. Em 2003 foi vendido em hasta pública um terreno, pertencente ao município da Figueira da Foz, «ao Grupo Amorim que, no mesmo dia da escritura (...) o revendeu a uma sociedade construtora, actual proprietária, logrando mais valias de 229 mil contos». O resto resume-se em poucas palavras. O então vice-presidente da Câmara da Figueira da Foz e actual membro do governo (!), Paulo Pereira Coelho, processou, por difamação, dois vereadores socialistas da autarquia, por alegadas declarações proferidas pelos mesmos durante uma sessão camarária, as quais terão incluído termos como «eventual gestão danosa» e «mau negócio»... Para o quadro estar completo, só falta conhecer a cor política do juíz que apreciará o caso.


quinta-feira, setembro 09, 2004

Vacation!! Portuguese Spoken!

Aqui.

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quarta-feira, setembro 08, 2004

Deformação profissional

Soube hoje que um dos centros de emprego de Lisboa está a oferecer cursos de Web Designer e de Criação e Gestão de Micro-Empresas, entre outros. Muito bem. O problema é que para ter acesso a qualquer desses cursos, é obrigatório ser-se licenciado ou bacharel. E isto, independentemente da área de estudo de cada um. Daqui se conclui que alguém que seja, por exemplo, desenhador e que tenha razoáveis conhecimentos de informática, mas não tenha nenhum grau académico, não pode frequentar o curso de Web Designer, enquanto que, também por exemplo, um diplomado em enfermagem sem qualquer queda para as artes visuais pode. Claro que há alternativas. O desenhador poderá, por exemplo, optar por um curso de auxiliar de acção médica...

terça-feira, setembro 07, 2004

Lucidez

No meio de tanto dislate que se ouve ou lê nos mais diversos media, é bom ler isto.

Leis e leis

«A lei é a lei», terá dito Portas esta tarde, em conferência de imprensa a propósito do caso («assunto encerrado» há uma semana) do barco da WoW. Espera-se agora também a tomada de posição da sua colega de Governo sobre essa coisa das leis.

segunda-feira, setembro 06, 2004

Tradução simultânea

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A letã do nosso contentamento. Não se pode contratá-la para os próximos jogos da selecção?

domingo, setembro 05, 2004

Ideias feitas

«A palavra kitsch designa a atitude daquele que quer agradar a qualquer preço e à maioria. Para agradar é necessário confirmar aquilo que toda a gente quer ouvir, estar ao serviço das ideias feitas. O kitsch é a tradução da tontice das ideias feitas para a linguagem da beleza e da emoção. Arranca-nos lágrimas de ternura por nós próprios, pelas banalidades que pensamos e sentimos. (...) [Hoje] Dada a necessidade imperativa de agradar e de obter assim a atenção da maioria, a estética dos mass-media é inevitavelmente a do kitsch; e à medida que os mass-media abarcam e infiltram toda a nossa vida, o kitsch transforma-se na nossa estética e na nossa moral quotidianas. Até uma época recente, o modernismo significava uma revolta não conformista contra as ideias feitas e o kitsch. Hoje, a modernidade confunde-se com a imensa vitalidade mass-mediática, e ser moderno significa um esforço desenfreado para se estar em dia, ser conforme, ser ainda mais conforme que os mais conformes. A modernidade revestiu-se da roupagem do kitsch».

(Milan Kundera, A Arte do Romance, 1987)

sexta-feira, setembro 03, 2004

Do sentido da vida

Se outro não houver, que seja o de não tolerarmos, e tudo fazermos para que não se repita, o que hoje aconteceu numa escola da Ossétia do Norte...

do absurdo da vida

por mais que tente evitá-los, é-me impossível não ter momentos como este.
interrogo-me sobre o sentido de tudo, sobre o sentido de vivermos, de aqui estarmos lutando por «ganhar a vida». a própria expressão «ganhar a vida» é absurda. afinal, não a ganhamos quando nascemos. temos que continuamente ganhá-la. temos que continuamente procurar-lhe um sentido e esforçarmo-nos por o seguir. mas, e se descobrirmos que o sentido da vida é ela não ter sentido nenhum, o que fazemos? saltamos da janela? partimo-nos contra o fundo de um copo que o não tem?
tão misteriosa a vida que nunca nos deixa realmente conhecê-la...

quarta-feira, setembro 01, 2004

Ainda o aborto

Com a ajuda do Fernando Gouveia, cheguei a este desassombrado texto de Mary Ann Warren sobre a ética do aborto.
A título de exemplo, deixo aqui alguns excertos, que de modo nenhum dispensam a leitura integral do artigo:

«Alguns filósofos defendem que a senciência é o critério primordial no que se refere à atribuição de estatuto moral. A senciência é a capacidade de ter experiências — por exemplo, experiências visuais, auditivas, olfactivas, ou outras experiências perceptivas. (...)

O critério da senciência sugere que, em igualdade de circunstâncias, é moralmente pior matar um organismo senciente que um organismo não senciente. A morte de um ser senciente, mesmo quando indolor, priva-o de quaisquer experiências agradáveis que pudesse vir a disfrutar no futuro. Assim, a morte é tida como um infortúnio maior para esse ser do que para um ser não senciente. (...)

Mas como podemos saber quais são os organismos vivos sencientes? Bem, quanto a isso, como podemos saber que os seres não vivos, tais como as rochas ou os rios, não são sencientes? Se esse conhecimento requer a absoluta impossibilidade de erro, então provavelmente nunca saberemos a resposta. Mas aquilo que de facto sabemos indica claramente que a senciência requer um sistema nervoso central funcional — que está ausente nas rochas, nas plantas e nos microorganismos simples.

Esse sistema nervoso central também está ausente nos fetos com poucas semanas. Muitos neurofisiologistas acreditam que os fetos humanos normais começam a ter uma certa senciência rudimentar pelo segundo trimestre da gravidez. Antes dessa fase, os seus cérebros e órgãos sensoriais estão demasiado subdesenvolvidos para permitirem a ocorrência de sensações. As provas comportamentais apontam na mesma direcção. No fim do primeiro trimestre o feto pode já ter alguns reflexos inconscientes, mas ainda não responde ao seu ambiente de uma forma que sugira sensibilidade. No entanto, no terceiro trimestre algumas partes do cérebro do feto estão já funcionais e o feto pode reagir a barulhos, luz, pressão, movimento e outros estímulos sensíveis».

Só por si, este argumento já é quase imbatível. Mas há mais. Leia-se e eleve-se a discussão pública a um nível mais sério que «a morte do zezinho».

Atraso civilizacional

Ainda a propósito da lei do aborto, veja-se como estamos tão mais perto da Ásia, da América Latina e de África do que da Europa a que pertencemos ou da América do Norte, com a qual tão orgulhosamente nos aliamos.

A propósito de casos patológicos...

Na sequência do post anterior e tendo em conta o comportamento do responsável pelos assuntos marítimos (e não falo apenas das decisões mais recentes, falo de todo o seu percurso público - público, note-se, não se trata aqui do privado), não seria aconselhável, a bem da saúde pública, que o ministro da saúde lhe metesse uma cunha para um rápido atendimento no Hospital Miguel Bombarda?

Sobre esquerdas e direitas

O reacender da polémica à volta da interrupção voluntária da gravidez volta a trazer à liça algumas das diferenças fundamentais entre a esquerda e a direita. A saber (e o veredicto assenta na minha falível opinião pessoal): A esquerda é mais progressista, mais inovadora, mais aberta. A direita é mais conservadora, mais tradicionalista, mais hermética.

Isto não quer dizer que em dados momentos não possa suceder o inverso. No fundo quem constitui uma e outra são pessoas e as pessoas são tudo menos lineares. É evidente que alguns de nós são mais evoluídos que outros. Tanto à direita como à esquerda há gente de vistas curtas e gente com maior capacidade de discernimento. Há pessoas brilhantes à direita e pessoas ineptas à esquerda e vice-versa.

Mas, para além das diferenças entre cada indivíduo, independentemente do seu posicionamento político, há ainda a duplicidade de cada um. Salvo casos patológicos que, por insuficiência de conhecimentos técnicos me escuso a comentar, todos somos progressistas e conservadores. Seja em áreas específicas da nossa vida ou da nossa intervenção na vida dos outros, seja em diferentes momentos do nosso percurso pessoal, cada um de nós adopta posições ora conservadoras, ora progressistas. E quantas vezes não caímos ainda no pecado maior de sermos mesmo retrógados?

Não corresponderá então a divisão da sociedade entre esquerda e direita a um equilíbrio de forças entre ambas as pulsões dentro de cada um de nós? Não será esta divisão uma forma inconsciente de o colectivo sobreviver? Talvez sim, talvez não, talvez nim.

O que me parece evidente é que a esquerda é a força temerária que puxa a sociedade para o futuro, e a direita a força temerosa que se agarra ao presente, quando não ao passado. Às vezes sucede que a esquerda se engana e conduz a sociedade para um futuro errado e, então, cabe à direita apontar-lhe os erros e voltar a puxar a sociedade para o passo anterior. Outras vezes é a direita que impede o desenvolvimento social e, então, compete à esquerda libertar a sociedade das grilhetas que a manietam.

Não é por acaso que a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez é uma das grandes bandeiras da esquerda (e espera-se que da «esquerda moderna» também). Mais uma vez é a esquerda que, olhando para os problemas presentes, procura progredir para soluções que os resolvam, enquanto a direita se agarra ao conservadorismo da moral judaico-cristã para tapar os ouvidos e não ouvir a gritante injustiça social e os inúmeros dramas pessoais subjacentes à actual lei.

A direita tem horror à mudança. A esquerda vive para mudar. Cabe agora à sociedade escolher o que fazer neste caso específico. Mudamos ou ficamos na mesma? O importante é que, seja qual for a nossa decisão, não a troquemos por um dia de praia. Devemos isso às nossas mulheres. E devemos isso a nós próprios.