domingo, setembro 05, 2004

Ideias feitas

«A palavra kitsch designa a atitude daquele que quer agradar a qualquer preço e à maioria. Para agradar é necessário confirmar aquilo que toda a gente quer ouvir, estar ao serviço das ideias feitas. O kitsch é a tradução da tontice das ideias feitas para a linguagem da beleza e da emoção. Arranca-nos lágrimas de ternura por nós próprios, pelas banalidades que pensamos e sentimos. (...) [Hoje] Dada a necessidade imperativa de agradar e de obter assim a atenção da maioria, a estética dos mass-media é inevitavelmente a do kitsch; e à medida que os mass-media abarcam e infiltram toda a nossa vida, o kitsch transforma-se na nossa estética e na nossa moral quotidianas. Até uma época recente, o modernismo significava uma revolta não conformista contra as ideias feitas e o kitsch. Hoje, a modernidade confunde-se com a imensa vitalidade mass-mediática, e ser moderno significa um esforço desenfreado para se estar em dia, ser conforme, ser ainda mais conforme que os mais conformes. A modernidade revestiu-se da roupagem do kitsch».

(Milan Kundera, A Arte do Romance, 1987)