quarta-feira, setembro 01, 2004

Sobre esquerdas e direitas

O reacender da polémica à volta da interrupção voluntária da gravidez volta a trazer à liça algumas das diferenças fundamentais entre a esquerda e a direita. A saber (e o veredicto assenta na minha falível opinião pessoal): A esquerda é mais progressista, mais inovadora, mais aberta. A direita é mais conservadora, mais tradicionalista, mais hermética.

Isto não quer dizer que em dados momentos não possa suceder o inverso. No fundo quem constitui uma e outra são pessoas e as pessoas são tudo menos lineares. É evidente que alguns de nós são mais evoluídos que outros. Tanto à direita como à esquerda há gente de vistas curtas e gente com maior capacidade de discernimento. Há pessoas brilhantes à direita e pessoas ineptas à esquerda e vice-versa.

Mas, para além das diferenças entre cada indivíduo, independentemente do seu posicionamento político, há ainda a duplicidade de cada um. Salvo casos patológicos que, por insuficiência de conhecimentos técnicos me escuso a comentar, todos somos progressistas e conservadores. Seja em áreas específicas da nossa vida ou da nossa intervenção na vida dos outros, seja em diferentes momentos do nosso percurso pessoal, cada um de nós adopta posições ora conservadoras, ora progressistas. E quantas vezes não caímos ainda no pecado maior de sermos mesmo retrógados?

Não corresponderá então a divisão da sociedade entre esquerda e direita a um equilíbrio de forças entre ambas as pulsões dentro de cada um de nós? Não será esta divisão uma forma inconsciente de o colectivo sobreviver? Talvez sim, talvez não, talvez nim.

O que me parece evidente é que a esquerda é a força temerária que puxa a sociedade para o futuro, e a direita a força temerosa que se agarra ao presente, quando não ao passado. Às vezes sucede que a esquerda se engana e conduz a sociedade para um futuro errado e, então, cabe à direita apontar-lhe os erros e voltar a puxar a sociedade para o passo anterior. Outras vezes é a direita que impede o desenvolvimento social e, então, compete à esquerda libertar a sociedade das grilhetas que a manietam.

Não é por acaso que a descriminalização da interrupção voluntária da gravidez é uma das grandes bandeiras da esquerda (e espera-se que da «esquerda moderna» também). Mais uma vez é a esquerda que, olhando para os problemas presentes, procura progredir para soluções que os resolvam, enquanto a direita se agarra ao conservadorismo da moral judaico-cristã para tapar os ouvidos e não ouvir a gritante injustiça social e os inúmeros dramas pessoais subjacentes à actual lei.

A direita tem horror à mudança. A esquerda vive para mudar. Cabe agora à sociedade escolher o que fazer neste caso específico. Mudamos ou ficamos na mesma? O importante é que, seja qual for a nossa decisão, não a troquemos por um dia de praia. Devemos isso às nossas mulheres. E devemos isso a nós próprios.