domingo, outubro 31, 2004

Pequeno delírio sobre as diferenças entre a esquerda e a direita

Como sempre, chego atrasado à discussão. Para piorar as coisas, não faço qualquer esforço para dar uma imagem de rigor à minha análise, citando blogonautas ilustres com links para as afirmações que pretendo contestar. Até porque não pretendo contestar ninguém. Pelo contrário, apraz-me ler as mais diversas opiniões que se publicam na blogosfera, sem dúvida o espaço mais democrático de Portugal, e até as que se publicam nos jornais, com ou sem contraditório. De qualquer modo, mesmo que quisesse, não poderia nunca dotar a minha análise de fundamentos rigorosos, em primeiro lugar, porque ela não os tem e, em segundo lugar, porque ela não é uma análise. É apenas uma observação, um achismo delirante. Porque o que se passa é que eu acho que, grosso modo, a dicotomia esquerda/direita é a transposição para a idade adulta da dicotomia beto/dread dos liceus. Com as suas nuances e excepções, os betos tendem para a direita, os dreads para a esquerda. Pense-se nos irmãos Portas. Qual seria o beto e qual seria o dread? Qual é que gostava de ir para a rua fumar uns charros com o pessoal e qual é que gostava mais de ficar em casa a brincar (ou a conspirar, ou a transpirar) com amigos do mesmo género? Qual é que frequentava o Bairro Alto e qual é que gostava mais de ir para a 24 de Julho? Qual é que usava uns chanatos quaisquer e qual é que só calçava sapatos de marca? Está-se mesmo a ver. Porque é que a direita é dada ao autoritarismo? Porque nunca suportaram aqueles putos rebeldes que se portam mal nas aulas e depois conquistam as gajas mais giras. Porque é que a esquerda é dada ao colectivismo? Porque enquanto eles passam a juventude a descobrir a poesia da vida, os outros obtêm as melhores notas e as melhores colocações. A dicotomia está em que, chegados à vida adulta, continuam a não suportar-se mutuamente, mais ou menos pelas mesmas razões. A esquerda inveja a direita porque esta é mais rica. A direita inveja a esquerda porque esta tem mais pinta. O grande problema desta inovadora teoria política está em saber como é que educamos os nossos filhos, evitando os perigos de se transformarem em junkies pobretanas ou em fascizóides de sucesso como o Luís Delgado.

É evidente que há alguns estudos de caso que não encontram paralelo nesta teoria. Por exemplo, consta que Santana foi (é?) um grande conquistador. Para isso tenho uma outra teoria, que consiste no instinto de defesa da casta. Explicando melhor este conceito, o que se passa é que as pessoas dos grupos com um nível socio-económico mais elevado tendem a atrair-se por pessoas do mesmo grupo, como defesa à infiltração do grupo por membros da classe média. E quando a pressão exterior é demasiado forte, a tendência é para se apropriarem de determinados ícones das classes inferiores, de forma a desviarem as atenções das potenciais conquistas para si próprios. Um claro exemplo deste processo é o ar apalhaçado de Santana com aquele lenço na cabeça a fazer lembrar o guitarrista do Bruce Springsteen. Ao apropriar-se de uma imagem do universo contestatário do rock n'roll, Santana acaba por desviar para si a atenção das futuras tias, sem desvirtuar a sua proverbial betice (não me foi possível confirmar esta informação, mas desconfio que, por esses dias, Santana não dispensasse os paradigmáticos sapatos de vela). Outro sinal desta forma de defesa é o modo como Santana inclina a cabeça para um dos lados. Também este tique aparentemente inócuo é revelador de grande sageza por parte de Santana (sem dúvida, um primus inter pares da alta sociedade - a propósito de primus, sobre os efeitos da consanguinidade neste grupo social falarei mais tarde). Onde é que já se viu um verdadeiro dread de cabeça perfeitamente perpendicular aos ombros? O verdadeiro estiloso é aquele que inclina levemente a cabeça, ao jeito de um James Dean. Mas, o que é realmente extraordinário na postura física de Santana é o seu alcance. Com Santana, a apropriação de elementos imagéticos da esquerda não se esgota no efeito de conquista sobre o sexo oposto (e não, não me estou a referir à conquista sobre sujeitos do mesmo sexo). A grande jogada de Santana está em aplicar essa postura para efeitos políticos, nomeadamente o de tentar conquistar eleitorado ao centro e mesmo à esquerda. Estou mesmo certo de que o grande desafio de José Sócrates, enquanto líder do PS, está em convencer o eleitorado de que é mais dread (ou menos beto) do que Santana. O que, convenhamos, não é nada fácil.

É evidente que estas teorias deixam ainda muito por explicar. Nomeadamente, o rosto de raposa debochada de Paulo Portas, a aparência de dislexia funcional da ministra da educação, o ar aparvalhado de Santana ou o ar aparvalhado ao cubo de Gomes da Silva. Mas são esses o grande desafio e a única certeza da ciência. A certeza de que, por muitas teorias que se desenvolvam, muitos serão ainda os fenómenos por investigar. O desafio de no turbulento delírio de uma mera constipação, conseguir encontrar explicações lógicas para realidades tão esquizóides como a de viver num país governado por Santana.

Um dos problemas do Outono

é a desfaçatez da meteorologia. Para que me servem agora os óculos escuros?

Um dia soalheiro

Estou com os azeites. Tenho os olhos enevoados, o nariz em rotura e, pior, os cigarros não me sabem bem. Estou constipado. Como não gosto de ir ao médico, fui à farmácia. Um antigripe, pedi. A farmacêutica fez o papel de médico e fez-me levar vitaminas para tomar depois do almoço, gotas para o nariz e aspegic para tomar três vezes ao dia durante três dias. Passaram três dias. Continuo constipado. Mas não faz mal, porque agora tenho um problema muito maior. O disco rígido do meu computador morreu. O médico das máquinas (o meu amigo Marco) que veio cá ao domicílio, ainda tentou algumas terapias extremas, mas, no fim, mais não pôde fazer do que confirmar o óbito. Arranjou-me outro disco mais pequenito para me desenrascar e lamentou que eu tivesse perdido praticamente tudo o que tinha. Não fazes backups? Não. Raramente. Sou mesmo parvo. Paciência.

Quem me conhece bem sabe que eu me irrito muito com as pequenas coisas que não correm bem. Por exemplo, querer sair de casa num dia de sol e não encontrar os óculos escuros. E estas pequenas coisas são na minha vida muito comuns, pelo simples facto de eu não ser uma pessoa muito organizada com as pequenas coisas. Como é que eu hei-de saber onde pus os óculos se não descobri ainda onde está o sentido da vida? É uma questão de prioridades. Como é que eu consigo compreender os mecanismos que me levam a poisar os óculos num determinado local, se não compreendo os mecanismos que levam ao poder homens como o W. ou o «nosso» S.?

Ora, pensando assim não faz muito sentido que me irrite com as pequenas coisas. Afinal se não são elas que me ocupam o pensamento habitualmente, porque me hei-de irritar tanto quando elas correm mal? A resposta é simples. Irrito-me porque, no momento em que elas não estão asseguradas, passam a ocupar-me o pensamento. E a roubar-me parte da memória que devia estar ocupada com coisas realmente importantes. Os óculos escuros são um não-assunto para mim enquanto estão à mão. Só me apercebo da sua importância quando não os encontro. E irrito-me pela importância que, de repente, passam a ter.

Mas, se é verdade que as pequenas coisas me pôem os piores palavrões na boca, não é menos verdade que os acontecimentos mais graves me despertam reacções muito calmas. Um exemplo é o fim do meu disco rígido (quero dizer, o do meu computador). Pensando em tudo o que lá tinha (fotos, contactos, música, poesia, prosa poética, narrativa, guiões, um arremedo de teatro, outro de humor, textos jornalísticos, textos dispersos, o meu CV e algumas ideias a desenvolver, fora tudo o que não me lembro), a minha reacção poderia perfeitamente raiar o desespero. Mas não. Estranhamente reagi muito calmamente. Foi-se? Paciência.

Porquê? Não sei ao certo. Mas posso especular. Por um lado, porque se calhar estava mesmo a precisar de uma limpeza na minha vida. Perder uma série de ficheiros que julgava importantes, é um óptimo incentivo para recomeçar qualquer coisa que, aparentemente, estava a chegar a um beco sem saída. Por outro, porque o desafio de recomeçar quase do zero é muito mais estimulante do que encontrar os óculos escuros. E abre muitas possibilidades novas. Finalmente, porque, contrariamente às pequenas coisas, é com estas que vale a pena usar o tempo. Até porque têm o dom de nos despertar da dormência que as certezas imprimem ao cérebro. Uma prova disto é que hoje, embora constipado, embora com os azeites, me sinto mais lúcido do que antes. Outra é que consegui lembrar-me de onde tinha posto os óculos.

quarta-feira, outubro 27, 2004

A voz

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Os americanos tiveram Sinatra. Nós temos Manuel Cruz.
E estamos muito melhor.

terça-feira, outubro 26, 2004

A idade da inocência

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quarta-feira, outubro 20, 2004

Silogismo ou A Angústia de Um Homem Dividido

O preço do barril de petróleo em Nova Iorque já está acima dos 55 dólares. Não tendo Hugo Chavez as costas tão largas como isso, presume-se que a escalada do preço do petróleo é indissociável da instabilidade que reina no Médio Oriente, nomeadamente do que se passa no Iraque. Ou seja, da política de Bush para o Médio Oriente.

O orçamento de Estado para 2005, apresentado por Bagão Félix, aponta para um valor médio do barril de crude de 38 dólares.

Logo, o Governo de Santana Lopes espera que Kerry vença as eleições norte-americanas.

Perante isto, devo dizer que quase que tenho pena do Luís Delgado.


O processo

Por outro lado, há uma expressão neste caso que me deixa particularmente intrigado. Será que o processo em causa é mesmo o da pedofilia, ou estaremos perante uma abordagem encapotada ao processo Apito Dourado? Essa tal "luz favorável" não terá nada a ver com o Olegário Benquerença e o Futebol Clube do Porto? Senão, vejamos: Thomas Mann e André Gide. Serão estes nomes referências codificadas ao ex-jogador do Benfica, Thomas, e ao treinador-adjunto do FC Porto, André? Será que não se pode ler no nome Possidónio Cachapa uma referência criptada a Passo idóneo sobre o capacho, o que, de alguma forma, descreveria a forma airosa como Benquerença se passeou sobre o relvado da Luz, sem consequências de maior para a sua carreira na arbitragem? E que dizer da similitude entre os nomes Possidónio e Olegário? Dois nomes incomuns, com o mesmo número de sílabas e que quase rimam... Até pode parecer que conexão seja forçada, mas eu não me convenço de que ela seja totalmente estrambótica (esta palavra é uma das minhas preferidas desde que escanifobético caiu em desuso). É que isto do mundo dos agentes secretos é uma coisa muito complexa. Muitas vezes nada é o que parece. E às vezes não é mesmo nada que interesse.

Nota final: atendendo à propensão dos agentes secretos para nomes de código e mensagens criptadas, temo que o Possidónio esteja a ser prejudicado pelo seu nome. A semelhança entre Cachapa e cachopa é notável. Mas, pensando bem, é demasiado óbvia. Agente secreto que seguisse esta pista seria rapidamente despedido por falta de imaginação.

Deixai vir a mim as crianças

Neste país nada funciona como deve ser. Seja pelos cortes orçamentais, seja pelo que for. Nem os serviços de informação estão bem informados. Considerar que Thomas Mann, André Gide e Possidónio Cachapa são escritores que "apresentam a pedofilia a uma luz favorável" peca por defeito e revela insuficiência na investigação literária. Então e Nabokov? E São Marcos?

Isto anda mesmo esquisito

Primeiro veio um ministro queixar-se de um comentador político de uma estação de televisão privada. Depois esse comentador, que havia prometido responder às queixas na próxima emissão, acaba por abandonar a sua rubrica no seguimento de uma conversa com o patrão, a pedido deste, deixando claro que as condições de liberdade com que sempre trabalhara deixaram de existir. O governo nega ter feito pressões, mas o dito ministro reafirma que há uma cabala, parece que «subjectiva» (o que quer que isto queira dizer é, certamente, pior do que uma cabala não adjectivada), orquestrada pelos jornais Expresso e Público e por Marcelo Rebelo de Sousa, a qual, maleficamente, é desempenhada apenas ao fim de semana, momento em que, como se sabe, o povo está mais desocupado (com excepção dos 600 mil mandriões que não trabalham, aparentemente porque estão desempregados), e portanto mais disponível para ouvir aquilo que o presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira descreveria como os «disparates» da comunicação social de Lisboa. Posto o assunto em pratos limpos, surge então um segundo ministro (e parece que só não foi o primeiro-ministro porque, nesse momento, se encontrava a dormir uma merecida sesta), a defender que deve haver limites à independência dos operadores públicos de televisão. Por outras palavras, deve ser o governo a definir o modelo de programação e informação da televisão pública, alegadamente porque nas eleições serão os responsáveis políticos a responder perante o povo por aquilo que, durante o seu mandato, a televisão emitiu. E o melhor, portanto, é responder por, sei lá, inaugurações de troços de estrada, redução de impostos e aumento de pensões, do que, por exemplo, pelo agravamento do défice, o aumento do desemprego ou a corrupção na administração pública. Está bonito, está!

Mas há mais. Senão veja-se o seguinte. O escritor Possidónio Cachapa queixa-se de ter recebido um telefonema do jornal «O Crime» para o interrogarem a propósito de um relatório do SIS a que a dita publicação teve acesso, no qual ele era referido, a par de Thomas Mann e de André Gide, como um dos escritores que escreveram livros que "apresentam a pedofilia a uma luz favorável". O livro onde Cachapa terá cometido tal «crime» é o seu primeiro romance «A Materna Doçura». Isto, antes de mais nada, levanta-me uma questão: Ou os agentes do SIS não leram o livro ou leram-no e não o perceberam. Seja qual for a hipótese correcta, não há aqui grande espanto. Já os agentes da PIDE, parece que não eram de grandes leituras e ainda menos de grandes percepções literárias. Será, porventura, uma deformação de base desta classe profissional. O problema maior não é este, já que não se pode exigir a uma qualquer criatura da polícia que seja barra em estudos de literatura portuguesa. O problema está em eles, aparentemente, andarem a investigar os escritores por eventuais delitos de opinião (ou outros delitos, porque mesmo que, por hipótese, um autor decida escrever uma obra de ficção sobre um pedófilo, em que o ponto de vista apresentado é, exclusiva ou maioritariamente, o do protagonista, ainda que o autor discorde frontalmente da posição deste, não deixa de ser visto como um apologista do que descreve). E isto é estranho. O que é que virá a seguir? O escultor Cutileiro ser apontado como «um dos artistas que apresenta o órgão sexual masculino a uma luz favorável»? Será dado algum destaque à coincidência de uma das suas esculturas mais significativas estar colocada no alto do Parque Eduardo VII? Será o título «A Nódoa» alguma referência subliminar a manchas como a que conspurcou para a eternidade o vestido de Mónica Lewinsky? Será que aquele lencinho que o primeiro-ministro levava na cabeça para as festas quando era gaiato era um indício de algum apego à pirataria? Estará Santana Lopes envolvido nos negócios obscuros do download ilegal de audio-visuais? O que se esconderá debaixo do capachinho de Fernando Gomes? E porque é que o cabelo de Paulo Portas está sempre penteado da mesma maneira? Senhores inspectores do SIS, senhores jornalistas do Crime, por favor, esclareçam-nos estas dúvidas. Porque isto, de facto, anda tudo muito esquisito.

terça-feira, outubro 19, 2004

Petição (assunto sério)

«Nós, cidadãos portugueses e eleitores em pleno uso das nossas faculdades, solicitamos à Assembleia da República Portuguesa que, em sede de revisão constitucional, conceda ao povo madeirense o direito a exercer livremente o seu inalienável direito à auto-determinação e independência«.

Lançada pelo BRITEIROS, pode ser lida na íntegra aqui. Eu já assinei.

segunda-feira, outubro 18, 2004

Comédia

Está explicado o post abaixo. É que hoje arranca a SIC Comédia.

Brados de burro não chegam ao céu

Esgoto hertziano

Ao fim de onze minutos de emissão, o Jornal da Tarde da SIC ainda não tinha abordado nenhum outro assunto para além do jogo de futebol entre o Benfica e o FC Porto e as incidências à volta do mesmo. Não sei por quanto mais tempo ocupou este tema o noticiário da SIC porque, nesse momento, mudei de canal. Mas sei que ontem houve eleições regionais nos Açores e na Madeira, e pude, portanto, verificar que este tema, aparentemente, se reveste de menor importância para as chefias editoriais da SIC do que a inenarrável peixeirada entre os dirigentes dos dois clubes de futebol. Parece que já nem o Alberto João se safa com tão feroz concorrência nos tempos de antena televisivos.

Uma pergunta simples

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Quando é que, neste Estado de direito, assistiremos à criminalização de indivíduos que instigam o ódio e a violência de uns cidadãos contra outros?

Nota: Foto tirada do Tugir. Aproveito para sugerir a leitura do post «Aonde pára a Polícia?».

domingo, outubro 17, 2004

Paradoxo

Eu gosto de ruído. Ajuda-me a perceber que existe mundo para além de mim. E isso reconforta-me.

Ironia

É espantoso que Manuela Ferreira Leite seja impedida de ser delegada ao congresso do PSD por um motivo tão fútil quanto uma quota mensal em atraso. Por aqui se vê o alcance da batalha contra o ruído...

Por outro lado, não deixa de ser irónico que a ex-ministra das contas certas seja castigada por não ter as suas contas em dia. Quem com ferro mata...

quinta-feira, outubro 14, 2004

Vão-se f...!

...Disse Scolari aos jornalistas.: Exactamente. Não foi o Alberto João Jardim, foi aquele senhor (habitualmente) simpático que é o responsável técnico pela selecção nacional de futebol. O mesmo que pediu aos portugueses para manterem as bandeiras nas janelas no fim do Euro. O mesmo que havia conseguido conquistar um enorme capital de simpatia junto dos portugueses, mesmo depois das muitas polémicas com os jogadores que entendia não convocar por razões que nunca fundamentou seriamente. O mesmo que, segundo se escreveu, fez mais pela diplomacia luso-brasileira que muitas cimeiras entre os responsáveis políticos dos países irmãos. Vão-se f...!, disse ele. Como se fosse uma espécie de Rui Gomes da Silva do futebol. Só falta os patrões dos jornalistas mandados f... pedirem a estes que tenham mais recato nas suas críticas à selecção para o decalque estar completo.

Dar a volta por cima

Da depressão à euforia. Ainda não é desta que nos livramos das bandeiras.

sábado, outubro 09, 2004

Futebol e política de novo juntos

A ineficácia da soberania popular (ou a indolência de um povo)

O JAM, no comentário a um post do Barnabé diz isto:

«O único líder com possibilidades de salvar o PCP de um fim inevitável e inglório teria que ser alguém capaz de organizar uma mega-manifestação nacional do Terreiro do Paço ao Parque Eduardo VII para exigir a demissão do governo PPD/CDS e a realização de eleições antecipadas. Uma espécie de 1°. de Maio antecipado.»

Devo dizer que, descartando da responsabilidade dessa iniciativa o PCP e substituindo este por um movimento espontâneo da sociedade civil, ainda que com o apoio dos partidos da oposição, a ideia agrada-me. Passo a explicar porque sim e também porque não acredito que isso seja possível:

Está à vista de todos o desnorte que vai neste país. O episódio Marcelo não é senão mais um da triste desventura deste governo sem legitimidade política. Do mesmo modo, também é cada mais indisfarçável a incomodidade do Governo para lidar com a situação, bem como a crescente insatisfação dos portugueses com o poder executivo, revelada pelas sondagens.

Nuestros hermanos conseguiram mobilizar-se numa mega-manifestação com convocatórias por e-mail e sms e mostrar ao poder aznarento que já não o queria. É evidente que a motivação, na sequência do 11 de Março, era muito maior. Mas nós também temos um ponto a nosso favor. É que, enquanto eles tinham, de facto, eleito Aznar, nós NÃO ELEGEMOS SANTANA. Não fomos tidos nem achados. E aquilo que foi decidido pelo Presidente da República à revelia da vontade popular está, aos olhos de todos, a revelar-se com o pior caso de incompetência governativa de que há memória no Portugal democrático. Ora, perante isto, pergunto: porque não manifestamos de forma inequívoca a nossa condenação ao actual governo? Porque nos contentamos em lançar farpas nos nossos blogues, em vez de, realmente, tomarmos uma atitude e mostrarmos ao Presidente que não apoiámos e, principalmente, que NÃO APOIAMOS agora a sua decisão. E que sabemos que ele próprio já não quer este governo. E que sabemos que ele sabe que sabemos.

O que espera Sampaio? Que Sócrates se habitue à cadeira de secretário-geral do PS? Que o eleitorado se habitue a vê-lo lá para, na hora da verdade, não ter dúvidas no voto? É essa a jogada de Sampaio? Estará o Presidente apenas a esperar friamente a erosão do governo até um ponto em que não tenha quaisquer hipóteses de recuperar nas próximas eleições? Está a dar tempo aos novos Estados Gerais ou Novas Fronteiras ou o raio que lhes queiram chamar, para congregar uma dinâmica de vitória em redor do PS? Se está, está agora, ou já estava no momento em que tomou a decisão de convidar Santana a formar governo?

São as respostas a tudo isto que temos o direito de conhecer, porque, se é verdade que Sampaio tomou a decisão que tomou no âmbito do legítimo exercício dos seus poderes, também é verdade que esses poderes foram-lhe atribuídos por nós. Temos o direito de saber porque adia Sampaio o inevitável. Ou porque evita o inadiável. Se ele nada nos diz, devemos nós dizer-lhe o que pensamos.

Pena é que esta nossa poética alma lusitana seja mais dada a contemplações melancólicas (às vezes irónicas) da realidade do que a acções decisivas. Pena é que seja mais fácil pendurar bandeiras nas janelas por uma equipa de futebol, do que vir para a rua reclamar a nossa soberania sobre o nosso próprio país. Mas é assim que nós somos. Achamos sempre que não vale a pena. Assim como assim fica tudo na mesma. Só mudam as moscas, dizemos, e deixamo-las mudarem. Mas limpar a merda que as atrai é que é coisa que não há maneira de fazermos.

sexta-feira, outubro 08, 2004

A puta da situação

quinta-feira, outubro 07, 2004

Assassinos

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Um soldado israelita matou uma menina de 12 anos na Faixa de Gaza, alvejando-a por 20 vezes na cabeça, no peito e nas pernas. Segundo fonte do exército israelita, a menina, que envergava o uniforme escolar, terá penetrado, juntamente com duas colegas, numa zona fechada, pelo que «teve que ser abatida».
Desde que a operação «Os Dias da Penitência» teve início, há uma semana, como resposta a um ataque do Hamas, o exército israelita já matou 25 crianças palestinianas. Os EUA, por sua vez, inviabilizaram a aprovação de qualquer moção condenatória a esta acção israelita.

Ao contrário do que aconteceu em Beslan, a chacina das crianças palestinianas desperta pouca compaixão por parte da opinião pública ocidental. Não merecem notícias de capa nos jornais nem de abertura nos noticiários televisivos. Aparentemente, as crianças muçulmanas têm menos direito à vida do que as outras. Depois espantamo-nos e indignamo-nos com os atentados terroristas perpetrados por fundamentalistas islâmicos contra o ocidente. Esquecemo-nos que são actos como este (mais próprios das ditaduras do século passado do que das democracias modernas) que fomentam o ódio à nossa civilização (dita «avançada») e semeiam o radicalismo junto das populações árabes e/ou islâmicas.

A cegueira tem um preço elevado. O terrorismo não será vencido sem que se combatam as suas causas. Homens como os da fotografia não podem ficar impunes. Eles são os rostos do crime. E nós, todos nós, todos os que assistem impávidos à escalada da violência, somos seus cúmplices por omissão.

A Gin, referindo-se à questão do Iraque, pergunta «se não seria possível um grupo de cidadãos levar ao Tribunal Internacional uma queixa contra os responsáveis dos países da coligação que procederam à invasão de um país soberano». Como ela, também não sei. Principalmente, porque, como se sabe, os EUA colocam-se acima de quaisquer convenções internacionais. Mas não tenho dúvidas de que a consumação dessa hipótese se traduziria num salto civilizacional extraordinário para a humanidade. O dia em que conseguirmos sentar na barra do tribunal os homens mais poderosos do mundo, por crimes contra a humanidade, será o primeiro dia de verdadeira democracia no mundo. Até lá, continuaremos a ser governados por assassinos.

Eu não sou indiferente. E o Jorge, é?

"Na crise de valores que marca o nosso tempo, nada é mais preocupante do que a indiferença dos cidadãos perante a liberdade, as regras da liberdade e o regime da liberdade."

(Jorge Sampaio, 5-10-2004)

quarta-feira, outubro 06, 2004

O gosto dos outros

São Jorge nas mãos dos infiéis

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A partir de 1 de Novembro, quem não for residente em qualquer freguesia de Lisboa, ou não tiver mais de 65 ou menos de 10 anos, tem de pagar 3 euros para entrar no Castelo de São Jorge. A EGEAC, a empresa camarária responsável pelos equipamentos culturais do município lisboeta, é a responsável pela proposta de exigir aos portugueses (quer vivam no Porto ou em Odivelas) que paguem para visitar um dos seus locais mais simbólicos. A mesma EGEAC que, apesar dos mais de 11 mil espectadores que passaram pelo Cinema São Jorge para assistirem às diversas sessões do IndieLisboa , reitera que a viabilidade financeira deste equipamento exige o desenvolvimento de outro tipo de iniciativas, que não o cinema. Agora resta-nos esperar para saber em que consistem essas iniciativas. Casamentos? Baptizados? Festas de aniversário? A festa de Natal dos trabalhadores da CML? Ou eventos promovidos por alguma seita religiosa? Não haverá um Pedro Abrunhosa lisboeta que se acorrente ao São Jorge?

terça-feira, outubro 05, 2004

As maravilhas do marketing político

Antes

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Depois

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Space: the final frontier

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Santana pediu algum tempo de estado de graça. E depois deu-nos uma ponte.
Santana é um homem engraçado. Do ponto de vista humorístico, entenda-se. Seria uma óptima personagem para a quinta das celebridades. Ou um razoável stand-up comediant (desde que os textos lhe fossem escritos por algum ficionista tão talentoso como o Luís Delgado). A desgraça está em ele não ser um mero cromo televisivo, mas o primeiro-ministro de Portugal. O que é estranho. Muito estranho. Muito estranho mesmo. Tão estranho, que há dias em que acordo e penso que se terá dado uma qualquer transmutação da realidade. Como se de repente tivessemos sido todos metidos dentro de uma sit-com. Ou pior, dentro de um reality show da TVI.

É claro que, vivendo numa democracia (enfim, à parte este interregno presenteado pelo vovô sampaio), temos sempre alternativas. E, afinal, é tão fácil como mudar de canal. Se os animalejos do national geographic nos desagradam, mudemo-nos para a ficção científica, onde em nada esquina há novas fronteiras à espera de serem desbravadas.

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