sábado, outubro 09, 2004

A ineficácia da soberania popular (ou a indolência de um povo)

O JAM, no comentário a um post do Barnabé diz isto:

«O único líder com possibilidades de salvar o PCP de um fim inevitável e inglório teria que ser alguém capaz de organizar uma mega-manifestação nacional do Terreiro do Paço ao Parque Eduardo VII para exigir a demissão do governo PPD/CDS e a realização de eleições antecipadas. Uma espécie de 1°. de Maio antecipado.»

Devo dizer que, descartando da responsabilidade dessa iniciativa o PCP e substituindo este por um movimento espontâneo da sociedade civil, ainda que com o apoio dos partidos da oposição, a ideia agrada-me. Passo a explicar porque sim e também porque não acredito que isso seja possível:

Está à vista de todos o desnorte que vai neste país. O episódio Marcelo não é senão mais um da triste desventura deste governo sem legitimidade política. Do mesmo modo, também é cada mais indisfarçável a incomodidade do Governo para lidar com a situação, bem como a crescente insatisfação dos portugueses com o poder executivo, revelada pelas sondagens.

Nuestros hermanos conseguiram mobilizar-se numa mega-manifestação com convocatórias por e-mail e sms e mostrar ao poder aznarento que já não o queria. É evidente que a motivação, na sequência do 11 de Março, era muito maior. Mas nós também temos um ponto a nosso favor. É que, enquanto eles tinham, de facto, eleito Aznar, nós NÃO ELEGEMOS SANTANA. Não fomos tidos nem achados. E aquilo que foi decidido pelo Presidente da República à revelia da vontade popular está, aos olhos de todos, a revelar-se com o pior caso de incompetência governativa de que há memória no Portugal democrático. Ora, perante isto, pergunto: porque não manifestamos de forma inequívoca a nossa condenação ao actual governo? Porque nos contentamos em lançar farpas nos nossos blogues, em vez de, realmente, tomarmos uma atitude e mostrarmos ao Presidente que não apoiámos e, principalmente, que NÃO APOIAMOS agora a sua decisão. E que sabemos que ele próprio já não quer este governo. E que sabemos que ele sabe que sabemos.

O que espera Sampaio? Que Sócrates se habitue à cadeira de secretário-geral do PS? Que o eleitorado se habitue a vê-lo lá para, na hora da verdade, não ter dúvidas no voto? É essa a jogada de Sampaio? Estará o Presidente apenas a esperar friamente a erosão do governo até um ponto em que não tenha quaisquer hipóteses de recuperar nas próximas eleições? Está a dar tempo aos novos Estados Gerais ou Novas Fronteiras ou o raio que lhes queiram chamar, para congregar uma dinâmica de vitória em redor do PS? Se está, está agora, ou já estava no momento em que tomou a decisão de convidar Santana a formar governo?

São as respostas a tudo isto que temos o direito de conhecer, porque, se é verdade que Sampaio tomou a decisão que tomou no âmbito do legítimo exercício dos seus poderes, também é verdade que esses poderes foram-lhe atribuídos por nós. Temos o direito de saber porque adia Sampaio o inevitável. Ou porque evita o inadiável. Se ele nada nos diz, devemos nós dizer-lhe o que pensamos.

Pena é que esta nossa poética alma lusitana seja mais dada a contemplações melancólicas (às vezes irónicas) da realidade do que a acções decisivas. Pena é que seja mais fácil pendurar bandeiras nas janelas por uma equipa de futebol, do que vir para a rua reclamar a nossa soberania sobre o nosso próprio país. Mas é assim que nós somos. Achamos sempre que não vale a pena. Assim como assim fica tudo na mesma. Só mudam as moscas, dizemos, e deixamo-las mudarem. Mas limpar a merda que as atrai é que é coisa que não há maneira de fazermos.