quarta-feira, outubro 20, 2004

Isto anda mesmo esquisito

Primeiro veio um ministro queixar-se de um comentador político de uma estação de televisão privada. Depois esse comentador, que havia prometido responder às queixas na próxima emissão, acaba por abandonar a sua rubrica no seguimento de uma conversa com o patrão, a pedido deste, deixando claro que as condições de liberdade com que sempre trabalhara deixaram de existir. O governo nega ter feito pressões, mas o dito ministro reafirma que há uma cabala, parece que «subjectiva» (o que quer que isto queira dizer é, certamente, pior do que uma cabala não adjectivada), orquestrada pelos jornais Expresso e Público e por Marcelo Rebelo de Sousa, a qual, maleficamente, é desempenhada apenas ao fim de semana, momento em que, como se sabe, o povo está mais desocupado (com excepção dos 600 mil mandriões que não trabalham, aparentemente porque estão desempregados), e portanto mais disponível para ouvir aquilo que o presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira descreveria como os «disparates» da comunicação social de Lisboa. Posto o assunto em pratos limpos, surge então um segundo ministro (e parece que só não foi o primeiro-ministro porque, nesse momento, se encontrava a dormir uma merecida sesta), a defender que deve haver limites à independência dos operadores públicos de televisão. Por outras palavras, deve ser o governo a definir o modelo de programação e informação da televisão pública, alegadamente porque nas eleições serão os responsáveis políticos a responder perante o povo por aquilo que, durante o seu mandato, a televisão emitiu. E o melhor, portanto, é responder por, sei lá, inaugurações de troços de estrada, redução de impostos e aumento de pensões, do que, por exemplo, pelo agravamento do défice, o aumento do desemprego ou a corrupção na administração pública. Está bonito, está!

Mas há mais. Senão veja-se o seguinte. O escritor Possidónio Cachapa queixa-se de ter recebido um telefonema do jornal «O Crime» para o interrogarem a propósito de um relatório do SIS a que a dita publicação teve acesso, no qual ele era referido, a par de Thomas Mann e de André Gide, como um dos escritores que escreveram livros que "apresentam a pedofilia a uma luz favorável". O livro onde Cachapa terá cometido tal «crime» é o seu primeiro romance «A Materna Doçura». Isto, antes de mais nada, levanta-me uma questão: Ou os agentes do SIS não leram o livro ou leram-no e não o perceberam. Seja qual for a hipótese correcta, não há aqui grande espanto. Já os agentes da PIDE, parece que não eram de grandes leituras e ainda menos de grandes percepções literárias. Será, porventura, uma deformação de base desta classe profissional. O problema maior não é este, já que não se pode exigir a uma qualquer criatura da polícia que seja barra em estudos de literatura portuguesa. O problema está em eles, aparentemente, andarem a investigar os escritores por eventuais delitos de opinião (ou outros delitos, porque mesmo que, por hipótese, um autor decida escrever uma obra de ficção sobre um pedófilo, em que o ponto de vista apresentado é, exclusiva ou maioritariamente, o do protagonista, ainda que o autor discorde frontalmente da posição deste, não deixa de ser visto como um apologista do que descreve). E isto é estranho. O que é que virá a seguir? O escultor Cutileiro ser apontado como «um dos artistas que apresenta o órgão sexual masculino a uma luz favorável»? Será dado algum destaque à coincidência de uma das suas esculturas mais significativas estar colocada no alto do Parque Eduardo VII? Será o título «A Nódoa» alguma referência subliminar a manchas como a que conspurcou para a eternidade o vestido de Mónica Lewinsky? Será que aquele lencinho que o primeiro-ministro levava na cabeça para as festas quando era gaiato era um indício de algum apego à pirataria? Estará Santana Lopes envolvido nos negócios obscuros do download ilegal de audio-visuais? O que se esconderá debaixo do capachinho de Fernando Gomes? E porque é que o cabelo de Paulo Portas está sempre penteado da mesma maneira? Senhores inspectores do SIS, senhores jornalistas do Crime, por favor, esclareçam-nos estas dúvidas. Porque isto, de facto, anda tudo muito esquisito.