domingo, outubro 31, 2004

Pequeno delírio sobre as diferenças entre a esquerda e a direita

Como sempre, chego atrasado à discussão. Para piorar as coisas, não faço qualquer esforço para dar uma imagem de rigor à minha análise, citando blogonautas ilustres com links para as afirmações que pretendo contestar. Até porque não pretendo contestar ninguém. Pelo contrário, apraz-me ler as mais diversas opiniões que se publicam na blogosfera, sem dúvida o espaço mais democrático de Portugal, e até as que se publicam nos jornais, com ou sem contraditório. De qualquer modo, mesmo que quisesse, não poderia nunca dotar a minha análise de fundamentos rigorosos, em primeiro lugar, porque ela não os tem e, em segundo lugar, porque ela não é uma análise. É apenas uma observação, um achismo delirante. Porque o que se passa é que eu acho que, grosso modo, a dicotomia esquerda/direita é a transposição para a idade adulta da dicotomia beto/dread dos liceus. Com as suas nuances e excepções, os betos tendem para a direita, os dreads para a esquerda. Pense-se nos irmãos Portas. Qual seria o beto e qual seria o dread? Qual é que gostava de ir para a rua fumar uns charros com o pessoal e qual é que gostava mais de ficar em casa a brincar (ou a conspirar, ou a transpirar) com amigos do mesmo género? Qual é que frequentava o Bairro Alto e qual é que gostava mais de ir para a 24 de Julho? Qual é que usava uns chanatos quaisquer e qual é que só calçava sapatos de marca? Está-se mesmo a ver. Porque é que a direita é dada ao autoritarismo? Porque nunca suportaram aqueles putos rebeldes que se portam mal nas aulas e depois conquistam as gajas mais giras. Porque é que a esquerda é dada ao colectivismo? Porque enquanto eles passam a juventude a descobrir a poesia da vida, os outros obtêm as melhores notas e as melhores colocações. A dicotomia está em que, chegados à vida adulta, continuam a não suportar-se mutuamente, mais ou menos pelas mesmas razões. A esquerda inveja a direita porque esta é mais rica. A direita inveja a esquerda porque esta tem mais pinta. O grande problema desta inovadora teoria política está em saber como é que educamos os nossos filhos, evitando os perigos de se transformarem em junkies pobretanas ou em fascizóides de sucesso como o Luís Delgado.

É evidente que há alguns estudos de caso que não encontram paralelo nesta teoria. Por exemplo, consta que Santana foi (é?) um grande conquistador. Para isso tenho uma outra teoria, que consiste no instinto de defesa da casta. Explicando melhor este conceito, o que se passa é que as pessoas dos grupos com um nível socio-económico mais elevado tendem a atrair-se por pessoas do mesmo grupo, como defesa à infiltração do grupo por membros da classe média. E quando a pressão exterior é demasiado forte, a tendência é para se apropriarem de determinados ícones das classes inferiores, de forma a desviarem as atenções das potenciais conquistas para si próprios. Um claro exemplo deste processo é o ar apalhaçado de Santana com aquele lenço na cabeça a fazer lembrar o guitarrista do Bruce Springsteen. Ao apropriar-se de uma imagem do universo contestatário do rock n'roll, Santana acaba por desviar para si a atenção das futuras tias, sem desvirtuar a sua proverbial betice (não me foi possível confirmar esta informação, mas desconfio que, por esses dias, Santana não dispensasse os paradigmáticos sapatos de vela). Outro sinal desta forma de defesa é o modo como Santana inclina a cabeça para um dos lados. Também este tique aparentemente inócuo é revelador de grande sageza por parte de Santana (sem dúvida, um primus inter pares da alta sociedade - a propósito de primus, sobre os efeitos da consanguinidade neste grupo social falarei mais tarde). Onde é que já se viu um verdadeiro dread de cabeça perfeitamente perpendicular aos ombros? O verdadeiro estiloso é aquele que inclina levemente a cabeça, ao jeito de um James Dean. Mas, o que é realmente extraordinário na postura física de Santana é o seu alcance. Com Santana, a apropriação de elementos imagéticos da esquerda não se esgota no efeito de conquista sobre o sexo oposto (e não, não me estou a referir à conquista sobre sujeitos do mesmo sexo). A grande jogada de Santana está em aplicar essa postura para efeitos políticos, nomeadamente o de tentar conquistar eleitorado ao centro e mesmo à esquerda. Estou mesmo certo de que o grande desafio de José Sócrates, enquanto líder do PS, está em convencer o eleitorado de que é mais dread (ou menos beto) do que Santana. O que, convenhamos, não é nada fácil.

É evidente que estas teorias deixam ainda muito por explicar. Nomeadamente, o rosto de raposa debochada de Paulo Portas, a aparência de dislexia funcional da ministra da educação, o ar aparvalhado de Santana ou o ar aparvalhado ao cubo de Gomes da Silva. Mas são esses o grande desafio e a única certeza da ciência. A certeza de que, por muitas teorias que se desenvolvam, muitos serão ainda os fenómenos por investigar. O desafio de no turbulento delírio de uma mera constipação, conseguir encontrar explicações lógicas para realidades tão esquizóides como a de viver num país governado por Santana.