domingo, outubro 31, 2004

Um dia soalheiro

Estou com os azeites. Tenho os olhos enevoados, o nariz em rotura e, pior, os cigarros não me sabem bem. Estou constipado. Como não gosto de ir ao médico, fui à farmácia. Um antigripe, pedi. A farmacêutica fez o papel de médico e fez-me levar vitaminas para tomar depois do almoço, gotas para o nariz e aspegic para tomar três vezes ao dia durante três dias. Passaram três dias. Continuo constipado. Mas não faz mal, porque agora tenho um problema muito maior. O disco rígido do meu computador morreu. O médico das máquinas (o meu amigo Marco) que veio cá ao domicílio, ainda tentou algumas terapias extremas, mas, no fim, mais não pôde fazer do que confirmar o óbito. Arranjou-me outro disco mais pequenito para me desenrascar e lamentou que eu tivesse perdido praticamente tudo o que tinha. Não fazes backups? Não. Raramente. Sou mesmo parvo. Paciência.

Quem me conhece bem sabe que eu me irrito muito com as pequenas coisas que não correm bem. Por exemplo, querer sair de casa num dia de sol e não encontrar os óculos escuros. E estas pequenas coisas são na minha vida muito comuns, pelo simples facto de eu não ser uma pessoa muito organizada com as pequenas coisas. Como é que eu hei-de saber onde pus os óculos se não descobri ainda onde está o sentido da vida? É uma questão de prioridades. Como é que eu consigo compreender os mecanismos que me levam a poisar os óculos num determinado local, se não compreendo os mecanismos que levam ao poder homens como o W. ou o «nosso» S.?

Ora, pensando assim não faz muito sentido que me irrite com as pequenas coisas. Afinal se não são elas que me ocupam o pensamento habitualmente, porque me hei-de irritar tanto quando elas correm mal? A resposta é simples. Irrito-me porque, no momento em que elas não estão asseguradas, passam a ocupar-me o pensamento. E a roubar-me parte da memória que devia estar ocupada com coisas realmente importantes. Os óculos escuros são um não-assunto para mim enquanto estão à mão. Só me apercebo da sua importância quando não os encontro. E irrito-me pela importância que, de repente, passam a ter.

Mas, se é verdade que as pequenas coisas me pôem os piores palavrões na boca, não é menos verdade que os acontecimentos mais graves me despertam reacções muito calmas. Um exemplo é o fim do meu disco rígido (quero dizer, o do meu computador). Pensando em tudo o que lá tinha (fotos, contactos, música, poesia, prosa poética, narrativa, guiões, um arremedo de teatro, outro de humor, textos jornalísticos, textos dispersos, o meu CV e algumas ideias a desenvolver, fora tudo o que não me lembro), a minha reacção poderia perfeitamente raiar o desespero. Mas não. Estranhamente reagi muito calmamente. Foi-se? Paciência.

Porquê? Não sei ao certo. Mas posso especular. Por um lado, porque se calhar estava mesmo a precisar de uma limpeza na minha vida. Perder uma série de ficheiros que julgava importantes, é um óptimo incentivo para recomeçar qualquer coisa que, aparentemente, estava a chegar a um beco sem saída. Por outro, porque o desafio de recomeçar quase do zero é muito mais estimulante do que encontrar os óculos escuros. E abre muitas possibilidades novas. Finalmente, porque, contrariamente às pequenas coisas, é com estas que vale a pena usar o tempo. Até porque têm o dom de nos despertar da dormência que as certezas imprimem ao cérebro. Uma prova disto é que hoje, embora constipado, embora com os azeites, me sinto mais lúcido do que antes. Outra é que consegui lembrar-me de onde tinha posto os óculos.