terça-feira, novembro 30, 2004

Enfim, eleições!

Sampaio reconheceu o erro cometido há quatro meses. Pelo caminho, hipotecou as hipóteses de Ferro Rodrigues ser o líder do governo. A bola está agora do lado de Sócrates. Veremos se consegue rodear-se das pessoas certas para voltar a credibilizar a política e iniciar um novo ciclo de estabilidade.

Uma coincidência insignificante, mas que fica sempre bem

A 30 de Novembro de 1935 morreu, em Lisboa, Fernando Pessoa.
A 30 de Novembro de 1971 nasceu, em Lisboa, o autor deste blogue.

O pessimismo português

Em números:

55 por cento dos inquiridos nesta sondagem consideram a actuação do governo "má" ou "muito má". Mais de 70 por cento dos inquiridos acham que a situação política está "má" ou "muito má". Até aqui não há novidade. O cheiro a podridão da actual conjuntura política há muito que nos dá naúseas a (quase) todos. O pior é que 43 por cento dos inquiridos continuam, no entanto, a pensar que ninguém faria melhor. Importa agora avaliar não só o que estes números dizem da classe política, mas também da população portuguesa em geral. Porque é que estamos (ou somos) tão deprimidos? Porque é que não acreditamos que somos capazes de fazer melhor?

Sem presunções científicas, eu aventuro uma explicação eventual. Acredito que somos um povo talentoso, que somos capazes de grandes feitos e que temos capacidade para nos superarmos perante as maiores contrariedades. O que não temos é grande capacidade organizativa e somos imensamente dependentes de lideranças fortes para conseguirmos aplicar todo o nosso potencial. Ora, precisamente o que não temos tido é lideranças fortes (e no momento presente essa realidade atingiu um extremo perfeitamente ridículo, tanto no Governo como na Presidência da República). Precisamos, como bem diz Cavaco Silva (há que reconhecer-lhe a razão), dos melhores à frente dos destinos do país. Precisamos de líderes simultaneamente carismáticos e extraordinariamente competentes. Alguém que nos mova a todos, não só no sentido da utopia, mas também no sentido da realidade concreta e concretizável num lapso de tempo visível. Precisamos de quem acredite em nós e de quem nos leve a acreditar em si. Não precisamos de slogans baratos como «Força, Portugal» ou «Geração Portugal». Não precisamos de timoneiros pré-fabricados pelo marketing político que nos impõem medidas avulsas e desconcertadas, mas que são incapazes de gerar um projecto global para o país. Como também não precisamos de gente arrogante. Precisamos de quem seja capaz de integrar a maioria de nós num projecto, não de quem nos obrigue a suportar um com o qual não nos identificamos. Será pedir muito?

segunda-feira, novembro 29, 2004

Semelhanças fonéticas

Na incubadora

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Humor com humor se paga

Mais proibições

Depois da anúncio das restrições ao fumo em vários locais públicos como restaurantes e bares, entre outros, tudo indica que o ministro da saúde, coerentemente, se prepara para impôr mais limites aos cidadãos que, pelos seus hábitos nefastos, prejudicam a saúde dos seus concidadãos. Assim, depois de saber que a poluição emitida pelos automóveis pode reduzir a esperança de vida em dois anos, Luís Filipe Pereira terá já na manga a proibição do uso de automóveis particulares, como medida de defesa para os inspiradores passivos de micropartículas nocivas para a saúde, ou seja, aqueles cidadãos que, não tendo carro, são constantemente sujeitos à emissão daquelas micropartículas devido ao mau comportamento social dos outros. Questionado sobre as esperadas resistências do lobby dos automobilistas à aplicação da medida, fonte próxima do ministro garantiu que «isso não será problema». A única questão que preocupa o ministro, segundo a mesma fonte, é não saber se para a semana estará no governo, ou sequer, se este governo ainda existe.

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Quem não parece preocupado com a eventual queda do governo é Carmona Rodrigues. O autarca lisboeta, quando confrontado com o facto de estar acorrentado à cadeira do seu gabinete na Praça do Município, explicou que «isso não tem nada a ver com a possibilidade de Santana querer reassumir o cargo depois de ser despedido por Sampaio. Até porque ao contrário do que um destacado autarca social-democrata [que Carmona não quis identificar, embora tivesse referido que era um indivíduo que não gostava de malta sulista, elitista e liberal nem do Rui Rio] tem dito, eu já tenho a minha eleição praticamente garantida em Marvila».

Questionado ainda sobre o efeito que a proibição da circulação automóvel pode ter sobre o projecto do túnel do Marquês, Carmona Rodrigues considerou que ela não só não o contraria, como ainda o favorece. É que «dada a inclinação do túnel, este pode servir para dar embalagem ao pessoal que vem de bicla desde Cascais, possibilitando a subida da Fontes Pereira de Melo com um esforço muito menor».

A pax americana

Através da Loja, cheguei a um blogue norte-americano, que mostra em imagens o horror da guerra em Fallujah. Não se trata de algo que eu tenha gosto em publicitar e, em consciência, devo dizer que tive algumas dúvidas antes de o fazer, principalmente devido ao risco sempre presente de que entrem crianças nesta página. Mas, porque a guerra é demasiado tenebrosa para ser ignorada e porque a ignorância só serve a passividade perante situações desta gravidade, decidi assumir o risco e deixar aqui também o respectivo link. Vejam se quiserem. À vossa responsabilidade.

domingo, novembro 28, 2004

Um mundo à parte

O financiamento aos partidos representados na Assembleia Legislativa da Madeira (ALM), concedido através das verbas atribuídas aos grupos parlamentares, sofre um aumento de 83,7 por cento no próximo ano. O que resulta em qualquer coisa como 5,7 milhões de euros, cerca de quatro vezes mais do que aquilo que é atribuído aos partidos com representação parlamentar na assembleia legislativa açoriana.

O governo bebé

"Este é um Governo a quem ninguém deu quase o direito de existir antes dele nascer, e que, depois de nascer através de um parto difícil teve que ir para uma incubadora e vinham alguns irmãos mais velhos e davam-lhe uns estalos e uns pontapés."

(Santana Lopes, who else?)

Há quem diga que Portugal está bom para os humoristas. Eu acrescento: para os bons humoristas. Não é qualquer um que consegue pegar nesta realidade e torná-la ainda mais cómica. Para os comuns mortais sem tal talento para a comédia, de facto, só dá vontade de desatar ao tabefe....

sábado, novembro 27, 2004

Boa vida, a desta direita

A Direita é parecida com Portugal. O nosso país é mais ou menos assim: gosta muito pouco dele próprio. Tem medo de parecer português. "Sim, sim, temos sol quase todo o ano, as nossas praias são as mais bonitas da Europa, temos duas casas, dois carros, jantamos fora três vezes por semana, mas este País não vai a lado nenhum…"

(A Direita e Portugal, n' O Acidental)

Percebo, enfim, porque sou de esquerda. Falta-me uma casa (duas se as alugadas não contarem), um carro e três jantares fora de portas por semana. Jantares fora de portas... Não sei porquê, mas isto não me soa nada bem.

sexta-feira, novembro 26, 2004

Bagão, o pecador

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Bem pode Bagão Félix gesticular com os seus ares de homem sério e de firmes convicções cristãs. A verdade é que os equilíbrios entre o rigor orçamental, algumas promessas mais populares e os interesses estabelecidos não são facilmente compagináveis com a boa moral católica. Depois dos recuos face ao que prometera na tristemente célebre «conversa em família», mais uma vez algumas das intenções iniciais (ou que declarou como tal) no combate à evasão fiscal ficam pelo caminho. É o caso das condições em que pode ser levantado o sigilo bancário e é o caso da tributação da zona franca da Madeira, que afinal vai ficar na mesma. O que põe o ministro católico numa posição muito perversa. Ou Bagão manifestamente não tem força para fazer prevalecer as suas convicções no governo e, logo, não tem condições para ser o ministro das finanças que Portugal precisa num momento em que a economia nacional está ainda tão frágil, ou então mente descaradamente, o que não sendo nada de novo na política, não deixa de ser um pecado aos olhos do catolicismo, cujos preceitos assumidamente segue. É verdade que à luz da mesma religião o arrependimento perante Deus é suficiente para absolver o faltoso, mas não estará Bagão a fazer um aproveitamento indecente dessa circunstância? Talvez, mas de uma maneira ou doutra, Bagão estará sempre safo. Porquê? Porque, sabendo que a humildade é uma das características mais apreciadas pela sua religião, findo o seu ciclo governativo poderá sempre argumentar no recato do confessionário que, na verdade, deu o seu melhor, mas faltou-lhe a competência ou a força necessária para levar adiante as suas convicções. No fim, poderá ainda ser abençoado por tão estoicamente ter transportado essa cruz sem fraquejar. Até lá pode ir mentindo como qualquer político de baixos padrões morais.

quinta-feira, novembro 25, 2004

Mais um caso para José Sá Fernandes

Bom augúrio

Tenho a sorte de ter em frente à minha janela uma árvore, onde é comum poder apreciar os vulgares pardais e um ou outro melro. Também tenho o azar de ter sempre a varanda bombardeada por esses bichos imundos que são os pombos. Mas hoje fui particularmente bafejado pelos bons auspícios da natureza. É que hoje a «minha» árvore alberga um bando de papagaios, que esvoaçam livremente de ramo em ramo.

Cada vez mais dentro do mundo

Mais um livro saído da blogosfera. Depois do Pipi e do Fora do Mundo, é a vez do Barnabé. Os blogues aí estão para mudar o mundo da comunicação tal como o conhecemos. E ainda bem. Ah! E não esquecer o DVD do Gato Fedorento. Só é pena é que agora os rapazes já não dêem borlas ao pessoal. E ainda por cima prometeram que o fariam, quando o Santana subiu ao poleiro. Tá mal, gatos, tá mal... Depois não querem que eu fique chateado. Concerteza que fico chateado.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Não é uma remodelação, é uma reorganização

Remodelar: modelar de novo; transformar para melhor, dar nova organização a; modificar.
Reorganizar: organizar de novo, reformar, melhorar.

(Dicionário da Língua Portuguesa, 8ª Edição, Porto Editora)

Que fique para a posteridade que Santana Lopes não remodelou um governo ao fim de quatro meses de governação. E se houver algum senhor jornalista que diga o contrário é porque faz parte da cabala subjectiva. O que houve foi uma reorganização. Havia uma determinada organização antes e agora organizou-se de novo, o que é completamente diferente de dar nova organização à organização que havia antes, percebem? Vejam lá se deixam de pegar com o homem por tudo e por nada...

A bola comentada na RTP

Quando, num jogo de futebol disputado a uma temperatura ambiente na ordem dos -12ºC, um dos jogadores suplentes entra em substituição de outro, será lícito dizer que ele vem refrescar a equipa?

Caramba!

Disse o Presidente visivelmente agastado com a questão de Canas de Senhorim. Depois de anos a sofrer a ironia dos críticos relativamente ao seu discurso hermético, Sampaio parece enfim rendido ao léxico mais popular.

terça-feira, novembro 23, 2004

Pena

Olhando para a força que as gentes de Canas de Senhorim põem na sua luta, sinto pena. Pena de que o resto do país não tenha a mesma combatividade quando se trata de defender a sua democracia.

Poluição sonora à porta de casa, não obrigado

Carmona Rodrigues anunciou que a nova Feira Popular será na zona do Jardim do Tabaco. Dada a relativa proximidade da minha casa à zona em questão, começo a sentir-me como a população de Souselas. Aliás, devo dizer que não percebo porque é que a Feira Popular precisa de uma nova localização. Não estava bem em São Bento?

Cores quentes

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Na Ucrânia, contrariamente ao que estamos habituados, parece que a cor da democracia é a da laranja. Oxalá a coisa não acabe no vermelho sanguíneo, à boa maneira putinesca.

As causas do Presidente

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Jorge Sampaio recusa receber uma comissão representativa do movimento que luta pela elevação de Canas de Senhorim a concelho. Este é um assunto que, devo dizer, não me aquece nem me arrefece. Apenas acho lamentável que Sampaio não tenha tido a mesma atitude com os barranquenhos e os seus touros.

Coisas simples

Como se explica que uma velhinha na varanda, desatando um cordel que fizera as vezes de estendal, seja para mim uma imagem poética?

segunda-feira, novembro 22, 2004

Invulnerabilidade

Para quem como eu anda muito a pé em Lisboa, uma das situações mais frequentes e mais irritantes com que se depara é o estacionamento de automóveis em cima dos passeios obrigar os peões a caminharem pela faixa de rodagem. Isto poderá parecer banal, quando comparado com a carnificina que vai havendo por esses IP's, mas não deixa de ser sintomático da falta de comportamento cívico dos portugueses quando estão ao volante. E o que isto demonstra, para além, do desrespeito pelo código da estrada, é a falta de respeito pelas pessoas, por quaisquer pessoas. Porque quaisquer pessoas podem ser importunadas por essa situação.

Ora, sendo os condutores pessoas que se não movem unicamente de automóvel, mas também pelo seu próprio pé, o mais certo será já terem sido confrontadas com este incómodo. Se assim é, porque mantêm o mesmo comportamento? A sensação que me dá é que dentro do automóvel a pessoa se esquece da sua condição humana. A pessoa deixa de ser pessoa para ser um automobilista. E ser automobilista é ser como que uma extensão da máquina. É ser sobre-humano, porque com a máquina a pessoa consegue feitos que nunca conseguiria usando exclusivamente o humano corpo que tem. O que a faz sentir-se menos vulnerável. Não será decerto o único factor concorrente, mas é bem possível que essa sensação de invulnerabilidade ajude a explicar a conduta aparentemente inconsciente de tantas pessoas quando estão ao volante, pondo em perigo a sua própria vida, bem como a dos outros.
Infelizmente, são muitas as pessoas que, fruto dessa alienação da condição humana, se descobrem, de repente, muito mais vulneráveis do que alguma vez foram.

sexta-feira, novembro 19, 2004

Tenho pena de não ter um restaurante

Ou um bar, ou qualquer um desses sítios públicos onde o Governo quer impor a proibição de fumar. Porque se tivesse, havia de lhe colocar um cartaz bem visível:

FUME! AQUI NÃO SE CUMPRE A LEI !

(ao jeito dos saloons do velho oeste)

Até era capaz de começar a oferecer charutos aos clientes. Não tenho dúvidas de que, mesmo com as multas, teria retorno.

Já agora, o Sr. Ministro da Saúde não quereria alargar o apoio médico a quem quer deixar de fumar e, simultaneamente, comparticipar a medicação para esse efeito? Não desempenharia assim, verdadeiramente, o seu papel enquanto ministro da dita? Ou será que está mais interessado em ser Ministro dos Bons Costumes?

Excelente iniciativa

O PCP propôs a suspensão de todos os procedimentos criminais relacionados com a interrupção voluntária da gravidez, até 2006, data em que expira o acordo PSD/PP sobre a matéria. O PSD promete ponderar o assunto. Resta-nos esperar que, ao menos nisto, o PSD consiga demarcar-se do conservadorismo anacrónico do parceiro de coligação.

O meu amigo Público

À sexta-feira costumo comprar o Público e, normalmente, começo a leitura pelo Inimigo Público. É uma receita que recomendo, porque começar o dia com bom humor é meio caminho andado para um dia feliz. O problema é que, quando finalmente leio o Público propriamente dito, tenho alguma dificuldade em acreditar no que lá vem:

Líderes da CGTP descontentes com opção por Jerónimo de Sousa (aparentemente, porque não o conhecem «ao vivo»);
Governo e PSD contestam legitimidade da AACS (quando todo o processo foi desencadeado por um pedido do mesmo Governo à AACS que se pronunciasse sobre as crónicas de Marcelo);
Portugal à procura da sua identidade nos oceanos (a tão propalada unidade geo-morfológica);
Paulo Portas diz que «com o PS não há baixa no IRS» (e será que com o PP há baixa no IRC?);
Chirac e Blair querem cooperar (embora não se lhes vislumbrasse concordância em qualquer assunto);
Assalto a Falluja não é o fim da rebelião da cidade ou Afeganistão em perigo de ser Narco-Estado (embora haja evoluções na economia de mercado: em Falluja parece haver um «supermercado para terroristas», enquanto no Afeganistão a produção de ópio aumentou este ano 64%, relativamente a 2003);
Reforma da Lei das Rendas aprovada sem discussão no Parlamento (para quê discutir decisões consensuais?);
Iberdrola reforça posição na energia eólica em Portugal (sim, sim, mas Olivença é nossa!);
Protocolo de Quito em vigor a partir de 16 de Fevereiro (hahaha... Get out of here...);
Coreano que dava a volta ao mundo em bicicleta ficou «encalhado» em Lisboa (roubaram-lhe a mala de viagem na Estação de Santa Apolónia);
Brasileira meiguinha encantadora faz deslocações Telheiras (esta não percebo, faz deslocações Telheiras?);
Jaime Pacheco quer um «super» Boavista (a versão diesel usada em Alvalade terá sido definitivamente abandonada).

Gandas manganões estes rapazes do Público. Sempre a brincar...

PS: Para que conste, declaro que não compro o «Diário de Notícias» por razões de saúde. Pelo facto de ser fumador, fui prevenido pelo meu médico de que não devo expor-me a situações que possam provocar-me ataques de riso descontrolado, na medida em que estes podem desencadear um ataque de tosse capaz de me levar a vomitar os pulmões. Aliás, devo dizer que sei de fonte segura que, ao contrário do que se pensa, a legislação proibicionista que aí vem visa, não o aumento da qualidade da saúde pública, mas o das vendas do DN.

Ba(n)d Aid

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Acabei de ver o videoclip do remake da Band Aid na televisão. Primeiros apontamentos:

1) O anacronismo da canção, que nem uma nova roupagem, incluindo umas tiradas de rap, uma fusão de atmosferas diferentes e a amputação de parte da linha melódica do chorus, consegue disfarçar.
2) Bono canta exactamente o mesmo trecho que cantava há 20 anos, agora com mais idade e menos voz.
3) Não conheço a maior parte dos participantes.
4) George Michael não aparece.
5) Simon Le Bon e Paul Young também não.
6) Phil Collins também não toca bateria, embora esta entre exactamente no mesmo sítio.
7) Apesar de retirados os sininhos, a canção não melhorou.
8) Bob Geldof volta a conseguir que nos sintamos mal pela fome que assola o continente africano. Em primeiro lugar, porque ela existe. Em segundo, porque nos obriga a ouvir outra vez a mesma cançoneta.

Nota final: A intenção é meritória e merece aplauso, mas... não se podia arranjar outra canção? (imagino que só mesmo o bom coração de Thom Yorke o tenha levado a aceitar participar na coisa)

quinta-feira, novembro 18, 2004

Confesso que gostava de o ver morto

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Politicamente morto, entenda-se. É verdade que eu hoje estou azedo, mas não tanto...

Mas alguma coisa é fiável neste ordinário santanário?

"Não é fiável a sinceridade política de Santana Lopes ao avançar, com a voz embargada pela emoção, o nome do candidato presidencial quando - cinco horas depois e após saber da reacção distanciada e pouco entusiasmada de Cavaco - lhe passa a lançar remoques e indirectas, na acossada intervenção que não resistiu a fazer ao Congresso às duas horas de madrugada (uma intervenção em que, com os nervos à flor da pele, criticou tudo e todos: Marques Mendes pela incisiva e corajosa intervenção que fizera, Manuela Ferreira Leite por não se identificar com este Orçamento e com esta linha política, Cavaco pelo seu distanciamento, o anterior Governo de Durão Barroso pelo que deixara por fazer, o governador do Banco de Portugal pelos seus prudentes avisos à navegação, etc., etc.). Um verdadeiro «happenning» a altas horas da madrugada."

(convenhamos que à hora da sesta não dava muito jeito e, para além disso, é mais que certo que às duas da manhã ainda a noite é uma criança para um verdadeiro folião. Com quem se foram meter... ui! ui!)

A redenção nas palavras

O fariseísmo inspirado em Herculano ou a humilhação segundo Fernando Pessoa são alguns dos textos que hoje li aqui e que, em boa hora, me restituiram alguma da dignidade em ser português. Porque, se a mediocridade é uma linha quase permanente na vida pública nacional, também é verdade que, em maior ou menor obscuridade, sempre permanece a genialidade.

Boa pergunta

Esta:

«Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da UE, nos termos da Constituição para a Europa?»

Muito bem.

Agora, só me falta saber no que consiste a Carta dos Direitos Fundamentais, como e a que é que se aplica a regra das votações por maioria qualificada, e de que se trata o novo quadro institucional da UE, para encontrar a resposta certa.

Estou quase lá.

Baixo astral

Pois. A eternidade é um dia. Ou nem isso. Um momento, apenas. O meu humor, ou astral, ou o que lhe quiserem chamar, mudou. Lamento, mas não consigo rir disto, nem disto. Estou farto. Enjoado. Quero lá saber dos novos heróis do mar, da incredulidade do boxeur, ou das virilhas deste idiota. Este país é uma farsa. Trinta anos depois do 25 de Abril, Portugal está entregue à imbecilidade de ministros de bonezinho que se reunem na mais espantosa «unidade geo-morfológica» de que alguma vez se ouviu falar. Lamento, mas não consigo achar piada a um país suicidário.

Mensagem criptada

Breve, breve, a poética terá a sua graça.

É só mais um começo

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Há filmes que nos fazem sair da sala de cinema com um olhar diferente sobre o mundo, que apagam tudo o que nos incomoda ou revolta. Que nos devolvem a capacidade de sonhar um mundo perfeito e olhar para as imperfeições do mundo real com um estranho distanciamento. Como se o mundo que normalmente percebemos como real se transformasse numa ficção sobre a qual planamos, subitamente livres. Porque o todo se reduz ao momento. Porque ir se torna mais importante que chegar. E porque tudo passa a ser possível, porque não interessa o que foi nem o que será, mas o que é. E o presente nunca morre, porque se renova a cada momento. Se inventa a cada momento.

terça-feira, novembro 16, 2004

O cabrão está a fingir que está morto

Disse o militar norte-americano, antes de balear na cabeça um iraquiano ferido e desarmado.
«Agora está mesmo morto», disse depois.

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Misteriosa incursão

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Julianne Moore é uma grande actriz. Foi brilhante em Magnolia, magnífica em Longe do Paraíso e excepcional em As Horas. Mas, em Misteriosa Obsessão é apenas um chamariz para um filme medíocre. Acontece aos melhores.

Ele há fenómenos curiosos

Pesquisando imagens de Santana Lopes através do Sapo, eis que me aparece isto:

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Concretamente, esta página (vale a pena ver), onde não encontrei qualquer referência ao indivíduo que se diz nosso primeiro-ministro.
Das duas uma: ou a fama de playboy já vai em Londres, ou o Santanás anda a fazer compras na internet para as santanetes (e parece que terá gostado particularmente destas botitas).

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Já a pesquisa por «Paulo Portas» deu nisto:

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Norma de Jesus PasseriI, uma mulher que queria preencher o vazio que existia dentro de si, começou a freqüentar aulas de yoga. Nessa procura de preencher seu vazio, começou a se envolver com o esoterismo, dando inicio a uma vida escravizada pelas mentiras do diabo.

Até que...

«Fui resgatada pelo Senhor Jesus das mãos de Satanás e faço parte de uma Igreja que tem cara de leão, que é ousada e que projeta coisas grandes para divulgar e cumprir as ordens do Senhor, as boas novas! Glória a Deus!»

Amen.

Um homem preocupado

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O homem preocupado, ao contrário do que a fotografia possa levar a pensar, sou eu. Sabendo como o presidente é homem de lágrima fácil, principalmente se estiverem envolvidos jogadores de futebol, temo que o post anterior transforme Belém num vale de lágrimas. E logo agora que está para inaugurar uma pista de gelo na zona. É que se antes ainda havia esperanças de o Governo patinar rapidamente, neste momento há sérios riscos de que a pluviosidade presidencial só sirva para aprofundar ainda mais o lodaçal.

O jogo da bola

O pior deste episódio é a sensação que dá de que estamos a ser governados por dois gaiatos que andam a brincar à política com o nosso país. Senão veja-se:

O dono da bola zanga-se com o vizinho, porque os amigos deste não dão ares de gostarem muito dele. Como a bola é dele, acaba-se já o jogo! O amigo, que até fora nomeado capitão de equipa e que tinha a sua grande oportunidade para mostrar às meninas da bancada quão jeitoso era de pés, logo manda o maninho mais novo com uns rebuçaditos para demover o puto birrento da sua decisão. O outro aceita o brinde e abstém-se de se ir embora, até porque também quer dar mais um pouco nas vistas. Recomeça o jogo, para gáudio da assistência, e tudo parece bem. Mas para os dois protagonistas já nada será como dantes. Um porque sabe que está nas mãos do outro, este porque sabe que àquele basta ter meios para comprar a sua própria bola, para lhe dar um chuto no rabo. Ambos se sabem aliados de circunstância. Ambos já só se vêem como rivais. Por isso, não será de espantar que, embora jogando na mesma equipa, cada um tente arrancar para si os maiores aplausos da assistência, em detrimento da manobra colectiva. Ora, não havendo na equipa nenhum craque que resolva por si só os problemas (afinal, nenhum deles é um génio da bola), o mais certo será a equipa jogar mal e perder o jogo. Mas isto não interessa nada aos dois meninos mimados. O que cada um quer é arrancar o máximo de aplausos para si. A equipa apenas lhes serve de meio para brilharem individualmente.

É evidente que a bola nesta metáfora representa a política, como o jogo pode representar as eleições legislativas de 2006 (ou de 2005). Mas, infelizmente, o jogo representa muito mais do que o futuro próximo dos dois partidos da direita. O jogo chama-se Portugal e a derrota desta equipa pode trazer também a derrota do país por inerência. Tudo depende dos estragos que fizerem durante o tempo de jogo que lhes resta. Ainda para mais, quando o árbitro, embora preocupado com a qualidade do jogo praticado, nomeadamente com as faltas graves cometidas nas suas barbas, se abstém de assinalar os respectivos livres ou de expulsar os jogadores cujo comportamento é manifestamente incorrecto.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Relatório Minoritário

Portas zangou-se com Santana. Gomes da Silva correu a acalmar o parceiro de coligação. A estabilidade governativa mantém-se por mais algum tempo. Quanto? Não se sabe. O que se sabe é que neste governo quem detém o poder é o partido minoritário. E que Santana sai enfraquecido do congresso. Não tanto por eventuais oposições internas à sua liderança, como pela pressão de Portas. A própria divulgação da notícia não é inocente. Sendo que o encontro entre Portas e Gomes da Silva terá ocorrido em casa de um militante do CDS-PP, as possibilidades de fugas de informação era muito diminutas. Gomes da Silva está posto de parte. Além de ser um indefectível de Santana, é politicamente tão inábil, que não teria quaisquer hipóteses de sobrevivência sem o seu génio, pelo que não terá nenhum interesse em divulgar uma informação prejudicial para Santana. O anfitrião só o terá sido por ser um homem de inteira confiança do seu líder de partido, o que o exclui de uma decisão hostil a Portas. Quem sobra?

Demissões

Colin Powell sai da Administração americana, dois meses depois de se ter confessado enganado pelas «provas» da existência de armas de destruição maciça no Iraque.

José Rodrigues dos Santos sai da RTP, dias depois de Marcelo se ter disponibilizado para fazer comentários gratuitos na RTP, daqui por uns meses. A causalidade pode ser forçada, mas não deixa de ser curiosa a coincidência. Curioso também é que o «Expresso» tenha noticiado que, segundo fonte do Governo, se preparavam mexidas na Direcção de Informação da RTP.

PS: Como se sabe, não foi só Rodrigues dos Santos que se demitiu. Foi toda a direcção. Incluindo a esposa do amigo do chefe do governo. A expectativa é de que a tinta corra, sanguinolenta, nos próximos dias.

sábado, novembro 13, 2004

Paralelismos

Muito se tem escrito sobre a perspicácia americana para detectar perigos para a humanidade. Argumenta-se que tal como ontem os americanos defenderam a Europa do nazismo, são agora também eles que nos defendem do islamismo. Espanta-me que quem se dedica a este exercício, não se preocupe também em demonstrar outro paralelismo histórico: as condições socio-económicas na Alemanha entre as guerras e as que se vivem no mundo árabe. Logo à primeira, ocorre-me a imagem de dois povos humilhados e empobrecidos. Não seria mais útil centrarmo-nos nas causas, em vez de nos extasiarmos no apagar dos fogos? E, admitindo que eles já lavram e que têm que ser circunscritos, será apropriado regá-los com petróleo?

Contaminação

Nos dias que correm, o mundo parece um local cada vez menos saudável para se viver. As posições extremam-se perigosamente, mesmo dentro do que a maioria de nós se habituou a considerar o «mundo livre». Enervam-se alguns com a ameaça exterior à liberdade, verberam outros contra a ameaça interna à mesma. Atire a primeira pedra quem nunca foi excessivo na defesa da sua causa. Eu não a atirarei, decerto. Sou demasiado humano para isso. Mas às vezes ponho-me a pensar se valerá a pena tanta gritaria, se será este o caminho mais razoável para encontrar as soluções nesta era de medo. E nestes momentos, creio que não. Não é assim que vamos lá. A violência gera violência. Podemos argumentar que é a deles que gera a nossa, mas, cedo ou tarde, a nossa volta a gerar a deles. E enquanto insistirmos em combater neste ciclo fechado, estaremos apenas a perpetuar a violência e o medo.

Não sendo cristão, tive uma educação cristã. Católica. Por opção própria. Ninguém me obrigou a ela, como ninguém me obrigou a continuá-la, no momento em que concluí que a religião institucional tende a suportar-se no obscurantismo e no seguidismo acrítico. Mas algumas lições muito positivas retirei dessa experiência. Nomeadamente, alguns valores cristãos que retive como a compaixão e o respeito pelo próximo ou a noção de igualdade entre todos os homens. E se me foi tão fácil descrer do cristianismo, isso em muito se deveu à gritante discrepância entre a teoria e a prática do mundo cristão. Cristo era um pacifista e, provavelmente, um «comunista». Os seus seguidores não.

Não sendo cristão, também não tenho grandes problemas em discordar e afastar-me de algumas das suas ideias doutrinárias. Não sou pessoa para dar a outra face. Quando me sinto agredido, sinto-me também no direito de me defender. Ripostando, se for caso disso, ou por outros meios se eles forem mais vantajosos. O que parece inaceitável é que quem a todo o momento se socorre dos valores cristãos para sustentar uma suposta «superioridade moral», se afaste tão grosseiramente de uma das sentenças mais paradigmáticas do cristianismo. Não me recordo de ler que Cristo tenha incitado os seus discíplos a matarem os que o não seguissem.

Não se trata, pois, da luta entre valores cristãos contra a falta de valores dos «infiéis» muçulmanos (os de fora) ou dos «infiéis» ateus (os de dentro), simplesmente porque os valores cristãos essenciais estão perfeitamente esquecidos pelos que se dizem seus defensores. E, curiosamente, esses mesmos valores são muitas vezes defendidos pelos que se mais distanciam da religião. Porque são eles que defendem a igualdade entre todos os homens, que procuram sistemas sociais mais justos para todos, que procuram a solução pacífica dos conflitos. E se assim é cá, talvez não seja de todo absurdo extrapolá-lo para lá.

Do islamismo sei muito pouco, infelizmente. Mas tenho ouvido alguns dos chamados «muçulmanos moderados» condenarem a cultura de violência do radicalismo islâmico, argumentando que ela não está de acordo com a doutrina corânica. Mesmo ignorando o texto, isto para mim chega-me para não diabolizar o islão. E para acreditar que pode haver diálogo entre as duas civilizações. Mas isso só acontecerá se nenhum dos lados se deixar dominar pelo religiosidade mais obscurantista. O problema é que ambos os lados já estão contaminados.

Cabe a quem não acredita na violência como forma primeira de resolução de conflitos, não se deixar também contaminar pelo ódio.

quinta-feira, novembro 11, 2004

Hacker anti-fascista

Aqui.

Uma simples pergunta pode ser uma pergunta muito complexa

Como seria o mundo sem religião?

segunda-feira, novembro 08, 2004

Nooduitgang

Claro que nem tudo era mau. Por exemplo, num destes edifícios, aconteceram algumas situações engraçadas. Uma delas foi um ensaio dos Nooduitgang, banda de rock lá da zona que, à falta de local de ensaio próprio, costumava alugar uma sala de ensaios na Póvoa de Santo Adrião. Houve, porém, um fim-de-semana, em vésperas de concerto, em que a dita sala de ensaios estava ocupada. Drama. Onde é que vamos ensaiar pela trilionésima vez as mesmas seis músicas? Salvou-nos o baixista. A mãe fora passar o fim-de-semana fora. Tinha a casa livre. Consta que fomos ouvidos a cem metros de distância. Curiosamente, nem os vizinhos de cima nem os do lado reclamaram.

Those were the days

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Assim se promovia o novo bairro de Santo António dos Cavaleiros em 1971. Tanto espaço para viver! Uma certeza de felicidade. Sem fábricas, eléctricos, combóios. Longe dos ruídos e da multidão. E apenas a dois passos de Lisboa. Um local de sonho depressa ultrapassado pela realidade betuminosa e pela guettização suburbana. Afinal, certa certa, só a morte. Como a dos amigos e/ou conhecidos vitimados de overdose ou a de (pelo menos) três pessoas que saltaram de torres iguais a estas. Como é costume dizer-se, a realidade ultrapassa sempre a ficção. Desmente-a. Quando não é o contrário. Irónico é que a ICESA, empresa de construção civil que projectou, construiu e promoveu este bairro, em suma, que o INVENTOU, viria mais tarde a falir, deixando esqueletos de edifícios inacabados durante largos anos. Esqueletos onde tudo o que era proibido se fazia, onde a polícia tinha medo de entrar, onde o corpo de N. foi descoberto dias depois de uma injecção desproporcionada. É certo que a publicidade mente. Sempre mentiu. Mas se o faz, é porque o permitimos. Porque o queremos. Porque precisamos de acreditar em quimeras. Mesmo sabendo intimamente que a felicidade nunca é certa.

A propósito

Tell me why I don't like mondays.

sábado, novembro 06, 2004

Aplauso

"(...) não conseguia mais apoiar George Bush. Por estas quatro razões: as inexistentes ADM [armas de destruição maciça], os casos de Guantánamo e Abu Ghraib, o Patriot Act e a política iraquiana.
(...) E não é preciso «virar à esquerda» para tomar esta posição.
(...) Embora tenha sido sempre considerado um «bushista» pelos palermas do costume, não simpatizo de todo com a ala do partido Republicano que tem vindo a ganhar peso com este presidente. A direita religiosa e os neoconservadores messiânicos, nomeadamente.
(...) Mas falta acrescentar alguma coisa. A saber: a minha recusa de toda a presunção (ou coacção) no sentido do pavlovianismo ideológico. Sou assumidamente de direita (mais exactamente um conservador); mas isso não implica que apoie e defenda todos os políticos ou todas as políticas de direita. Conheço o espaço político em que me situo, mas considero-me totalmente independente. E livre de criticar ou discordar sempre que me pareça que é caso disso. Sob pena de ter que bater sempre palmas ao actual Governo, mesmo quando dá provas de incompetência. De fingir que não há nada de errado na situação monopolista de Berlusconi. De apoiar o desprezível Chirac apenas porque, ei, ele é de direita. Nem pensar nisso."

(Pedro Mexia)


A lucidez é sempre louvável. A coragem de a assumir no meio de um debate estupidificado ainda mais o é. É bom saber que no campo ideológico adverso ao meu, há ainda quem pense. É sinal de que há interlocutores no outro lado. De que podemos dialogar e encontrar entendimentos. De que há uma esperança para a Política, no reino da politiquice.

Mare nostrum mare nestum

sexta-feira, novembro 05, 2004

Anti anti-americanismo-primário primário. Percebem?

Um dos aspectos mais desagradáveis da política é a politiquice. E em abono da verdade, diga-se que ela existe em todo o espectro político. Por politiquice entendo a política menos séria que, ao visar sobretudo o desmerecimento dos adversários, acaba por se afastar do que deveria ser o objectivo da política em democracia: encontrar compromissos entre as diversas facções de modo a garantir o máximo bem-estar para todos.

Vem isto a propósito do artigo que Manuel Queiró escreveu para o Público de hoje (sem link). Diz o engenheiro civil do CDS-PP, comentando os resultados das eleições norte-americanas que «na Europa pura e simplesmente não se percebe o que se passa na América». Mas não são os únicos com dificuldade em perceberem. Queiró diz também que os americanos não percebem porque é que os europeus defendem que a culpa dos atentados de 11 de Setembro é deles próprios. Diz ainda que a solução que Kerry propunha «de voltar a procurar entendimentos com os aliados europeus renitentes, acabou por se voltar contra ele próprio porque o americano médio vê a Europa cada vez mais como um continente cínico, interesseiro e ingrato».

É evidente que Queiró não percebe (pelo menos) duas coisas.

Primeiro: não percebe que os europeus, em geral, estiveram solidários com os EUA na sequência do 11 de Setembro e que, inclusivamente, apoiaram a intervenção americana no Afeganistão com vista à captura de Bin Laden, sendo que apenas discordaram com a invasão do Iraque, por - 1) julgarem que tal guerra não se inscrevia numa lógica de combate à Al-Qaeda; e 2) por não verificarem a validade do argumento das armas de destruição maciça. E tinham razão. De facto, a Al-Qaeda continua activa e o seu líder, longe de ter sido capturado, dá-se ao luxo de se apresentar como agente político. De facto, as armas de destruição maciça nunca apareceram. Resumindo: os europeus não culparam os americanos dos atentados, antes se aliaram a eles para capturarem os terroristas. O facto de recusarem participar numa guerra com falsos pressupostos, cujo real interesse era o de favorecer a posição geo-estratégica e económica dos EUA no mundo não faz dos europeus inimigos da América.

Segundo: não percebe que, apesar de 59,5 milhões de americanos terem votado em Bush, houve outros 56 milhões que votaram contra ele. Por sinal, com maior incidência nas cidades mais desenvolvidas, incluindo a martirizada Nova Iorque, onde se deu o pior dos atentados do 11 de Setembro. Ou seja, quase metade dos votantes americanos, fazendo fé na própria argumentação de Queiró, queriam «entendimentos com os aliados europeus renitentes», pelo que será lícito concluir que não vêem a Europa como um «continente cínico, interesseiro e ingrato». Dizer, portanto, que «o americano médio» tem essa perspectiva da Europa é uma falácia própria de quem faz da politiquice o cerne da sua intervenção política.

Quando qualquer pessoa com dois dedos de testa concorda que os EUA estão profundamente divididos e que a grande tarefa interna de Bush é, precisamente, a de tentar unir os Estados desunidos, tirar ilações como as que Queiró tira é um exercício de desonestidade pura e que só não é gratuita, porque tem o objectivo de fazer politiquice. Isto é, de esgrimir argumentos vazios com a intenção de denegrir o campo político adversário. O que Queiró não percebe é que na obsessiva busca de obter vitórias politiqueiras, apenas consegue derrotar a Política.

É evidente que Queiró, como muitos outros, à esquerda e à direita, está a mais na política.

quinta-feira, novembro 04, 2004

Músculo e intelecto

51% do eleitorado americano votou Bush. 48% votou Kerry.
48% do eleitorado feminino americano votou Bush. 51% votou Kerry.

terça-feira, novembro 02, 2004

É a estupidez, gente

Ou a estupidez em forma de gente. Ou o agente da estupidez. É por estas e por outras que, decerto, haverá muito boa gente no Diário de Notícias muito envergonhada. Irra! Não é para menos...

segunda-feira, novembro 01, 2004

Insulto aberto a um «intelectual»

Por alguma razão de ordem informática, não estou a conseguir publicar um comentário a um post do Pedro Oliveira, comentário no qual pretendia insultar um senhor historiador e investigador que dá pelo nome de Rui Ramos, sujeito que desconheço totalmente, para além do artigo que publicou no jornal Público na sexta-feira passada, defendendo o voto americano em George W. Bush. Como não consigo publicá-lo lá, publico-o aqui. Cá vai:

Não compro a ideia de que Rui Ramos seja um intelectual. A doentia incapacidade de se outrar é reveladora de isso mesmo. RR assenta toda a sua ideologia num discurso dogmático, numa one way street, sem saídas, sem bifurcações, sem possibilidade de inversão de marcha e atropelando qualquer obstáculo que se lhe depare pela frente.

O extremismo das suas posições (e das dos falcões em geral) em nada fica a dever ao extremismo dos fundamentalistas islâmicos. São apenas as duas faces da mesma moeda. Alimentam-se de dogmas, sistemas de pensamento fechados e parcialmente cegos, na medida em que recusam a possibilidade da existência de realidade para além daquilo que conseguem ver. Vivem em «mundos perfeitos», onde os «seus» são infinitamente bons e os «outros» infinitamente maus. O que é estranho. Pois a ideia de infinitamente bom só se aplica à ideia de Deus e a de infinitamente mau à ideia do Diabo. E só numa visão altamente sectária do mundo e das pessoas se pode inferir que uns são a encarnação de Deus e outros do Diabo.

Consequentemente, RR arroga-se de compreender a realidade como se de um iluminado se tratasse, quando diz que «quem não compreendeu isto, nunca compreenderá nada».

Não discutirei aqui a (in)validade dos seus argumentos. Até porque é desnecessário fazê-lo. Por um lado, porque houve já quem o tenha feito. Por outro, porque, felizmente, para a maioria das pessoas é visível a olho nú o fanatismo e a cegueira de indivíduos como RR.

Apenas lhe digo que tivesse eu o espírito tão atrofiado por messianismos medievais como o seu parece estar, facilmente o colocaria no lote dos «maus». Porque a defesa da guerra, da usurpação, da intolerância e do domínio violento sobre os outros está para o meu código de valores claramente associada à ideia de «mal». Ou seja, eu seria um representante de Deus na Terra. RR seria a encarnação do Diabo. No fim, seria ainda capaz de dizer que RR é um filho da puta nazi e que «quem não compreendeu isto, nunca compreenderá nada».

Poupo-lhe, no entanto, esta visão redutora, porque acredito que, lá no fundo, o RR há-de ter um lado bonzinho e porque, conhecendo-me, sei que eu próprio nunca poderia estar no lado do «bem infinito».

O que me preocupa é que uma forma de pensamento tão linear tenha acesso a um jornal de prestígio como o Público. E ocorre-me algo que um antigo professor de História dos meus tempos de liceu me disse e que nunca mais esqueci. O processo mais lento da história é o da mutação das mentalidades. De facto, isto parece fazer todo o sentido quando, em pleno século XXI, ainda se publicam opiniões de supostos intelectuais defendendo ideologias com mais de mil anos.
Chegando à parte do insulto propriamente dito, aguarda-se a qualquer momento a publicação de um artigo de RR no Público defendendo o geocentrismo.