sexta-feira, novembro 05, 2004

Anti anti-americanismo-primário primário. Percebem?

Um dos aspectos mais desagradáveis da política é a politiquice. E em abono da verdade, diga-se que ela existe em todo o espectro político. Por politiquice entendo a política menos séria que, ao visar sobretudo o desmerecimento dos adversários, acaba por se afastar do que deveria ser o objectivo da política em democracia: encontrar compromissos entre as diversas facções de modo a garantir o máximo bem-estar para todos.

Vem isto a propósito do artigo que Manuel Queiró escreveu para o Público de hoje (sem link). Diz o engenheiro civil do CDS-PP, comentando os resultados das eleições norte-americanas que «na Europa pura e simplesmente não se percebe o que se passa na América». Mas não são os únicos com dificuldade em perceberem. Queiró diz também que os americanos não percebem porque é que os europeus defendem que a culpa dos atentados de 11 de Setembro é deles próprios. Diz ainda que a solução que Kerry propunha «de voltar a procurar entendimentos com os aliados europeus renitentes, acabou por se voltar contra ele próprio porque o americano médio vê a Europa cada vez mais como um continente cínico, interesseiro e ingrato».

É evidente que Queiró não percebe (pelo menos) duas coisas.

Primeiro: não percebe que os europeus, em geral, estiveram solidários com os EUA na sequência do 11 de Setembro e que, inclusivamente, apoiaram a intervenção americana no Afeganistão com vista à captura de Bin Laden, sendo que apenas discordaram com a invasão do Iraque, por - 1) julgarem que tal guerra não se inscrevia numa lógica de combate à Al-Qaeda; e 2) por não verificarem a validade do argumento das armas de destruição maciça. E tinham razão. De facto, a Al-Qaeda continua activa e o seu líder, longe de ter sido capturado, dá-se ao luxo de se apresentar como agente político. De facto, as armas de destruição maciça nunca apareceram. Resumindo: os europeus não culparam os americanos dos atentados, antes se aliaram a eles para capturarem os terroristas. O facto de recusarem participar numa guerra com falsos pressupostos, cujo real interesse era o de favorecer a posição geo-estratégica e económica dos EUA no mundo não faz dos europeus inimigos da América.

Segundo: não percebe que, apesar de 59,5 milhões de americanos terem votado em Bush, houve outros 56 milhões que votaram contra ele. Por sinal, com maior incidência nas cidades mais desenvolvidas, incluindo a martirizada Nova Iorque, onde se deu o pior dos atentados do 11 de Setembro. Ou seja, quase metade dos votantes americanos, fazendo fé na própria argumentação de Queiró, queriam «entendimentos com os aliados europeus renitentes», pelo que será lícito concluir que não vêem a Europa como um «continente cínico, interesseiro e ingrato». Dizer, portanto, que «o americano médio» tem essa perspectiva da Europa é uma falácia própria de quem faz da politiquice o cerne da sua intervenção política.

Quando qualquer pessoa com dois dedos de testa concorda que os EUA estão profundamente divididos e que a grande tarefa interna de Bush é, precisamente, a de tentar unir os Estados desunidos, tirar ilações como as que Queiró tira é um exercício de desonestidade pura e que só não é gratuita, porque tem o objectivo de fazer politiquice. Isto é, de esgrimir argumentos vazios com a intenção de denegrir o campo político adversário. O que Queiró não percebe é que na obsessiva busca de obter vitórias politiqueiras, apenas consegue derrotar a Política.

É evidente que Queiró, como muitos outros, à esquerda e à direita, está a mais na política.