sexta-feira, novembro 26, 2004

Bagão, o pecador

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Bem pode Bagão Félix gesticular com os seus ares de homem sério e de firmes convicções cristãs. A verdade é que os equilíbrios entre o rigor orçamental, algumas promessas mais populares e os interesses estabelecidos não são facilmente compagináveis com a boa moral católica. Depois dos recuos face ao que prometera na tristemente célebre «conversa em família», mais uma vez algumas das intenções iniciais (ou que declarou como tal) no combate à evasão fiscal ficam pelo caminho. É o caso das condições em que pode ser levantado o sigilo bancário e é o caso da tributação da zona franca da Madeira, que afinal vai ficar na mesma. O que põe o ministro católico numa posição muito perversa. Ou Bagão manifestamente não tem força para fazer prevalecer as suas convicções no governo e, logo, não tem condições para ser o ministro das finanças que Portugal precisa num momento em que a economia nacional está ainda tão frágil, ou então mente descaradamente, o que não sendo nada de novo na política, não deixa de ser um pecado aos olhos do catolicismo, cujos preceitos assumidamente segue. É verdade que à luz da mesma religião o arrependimento perante Deus é suficiente para absolver o faltoso, mas não estará Bagão a fazer um aproveitamento indecente dessa circunstância? Talvez, mas de uma maneira ou doutra, Bagão estará sempre safo. Porquê? Porque, sabendo que a humildade é uma das características mais apreciadas pela sua religião, findo o seu ciclo governativo poderá sempre argumentar no recato do confessionário que, na verdade, deu o seu melhor, mas faltou-lhe a competência ou a força necessária para levar adiante as suas convicções. No fim, poderá ainda ser abençoado por tão estoicamente ter transportado essa cruz sem fraquejar. Até lá pode ir mentindo como qualquer político de baixos padrões morais.