sábado, novembro 13, 2004

Contaminação

Nos dias que correm, o mundo parece um local cada vez menos saudável para se viver. As posições extremam-se perigosamente, mesmo dentro do que a maioria de nós se habituou a considerar o «mundo livre». Enervam-se alguns com a ameaça exterior à liberdade, verberam outros contra a ameaça interna à mesma. Atire a primeira pedra quem nunca foi excessivo na defesa da sua causa. Eu não a atirarei, decerto. Sou demasiado humano para isso. Mas às vezes ponho-me a pensar se valerá a pena tanta gritaria, se será este o caminho mais razoável para encontrar as soluções nesta era de medo. E nestes momentos, creio que não. Não é assim que vamos lá. A violência gera violência. Podemos argumentar que é a deles que gera a nossa, mas, cedo ou tarde, a nossa volta a gerar a deles. E enquanto insistirmos em combater neste ciclo fechado, estaremos apenas a perpetuar a violência e o medo.

Não sendo cristão, tive uma educação cristã. Católica. Por opção própria. Ninguém me obrigou a ela, como ninguém me obrigou a continuá-la, no momento em que concluí que a religião institucional tende a suportar-se no obscurantismo e no seguidismo acrítico. Mas algumas lições muito positivas retirei dessa experiência. Nomeadamente, alguns valores cristãos que retive como a compaixão e o respeito pelo próximo ou a noção de igualdade entre todos os homens. E se me foi tão fácil descrer do cristianismo, isso em muito se deveu à gritante discrepância entre a teoria e a prática do mundo cristão. Cristo era um pacifista e, provavelmente, um «comunista». Os seus seguidores não.

Não sendo cristão, também não tenho grandes problemas em discordar e afastar-me de algumas das suas ideias doutrinárias. Não sou pessoa para dar a outra face. Quando me sinto agredido, sinto-me também no direito de me defender. Ripostando, se for caso disso, ou por outros meios se eles forem mais vantajosos. O que parece inaceitável é que quem a todo o momento se socorre dos valores cristãos para sustentar uma suposta «superioridade moral», se afaste tão grosseiramente de uma das sentenças mais paradigmáticas do cristianismo. Não me recordo de ler que Cristo tenha incitado os seus discíplos a matarem os que o não seguissem.

Não se trata, pois, da luta entre valores cristãos contra a falta de valores dos «infiéis» muçulmanos (os de fora) ou dos «infiéis» ateus (os de dentro), simplesmente porque os valores cristãos essenciais estão perfeitamente esquecidos pelos que se dizem seus defensores. E, curiosamente, esses mesmos valores são muitas vezes defendidos pelos que se mais distanciam da religião. Porque são eles que defendem a igualdade entre todos os homens, que procuram sistemas sociais mais justos para todos, que procuram a solução pacífica dos conflitos. E se assim é cá, talvez não seja de todo absurdo extrapolá-lo para lá.

Do islamismo sei muito pouco, infelizmente. Mas tenho ouvido alguns dos chamados «muçulmanos moderados» condenarem a cultura de violência do radicalismo islâmico, argumentando que ela não está de acordo com a doutrina corânica. Mesmo ignorando o texto, isto para mim chega-me para não diabolizar o islão. E para acreditar que pode haver diálogo entre as duas civilizações. Mas isso só acontecerá se nenhum dos lados se deixar dominar pelo religiosidade mais obscurantista. O problema é que ambos os lados já estão contaminados.

Cabe a quem não acredita na violência como forma primeira de resolução de conflitos, não se deixar também contaminar pelo ódio.