segunda-feira, novembro 22, 2004

Invulnerabilidade

Para quem como eu anda muito a pé em Lisboa, uma das situações mais frequentes e mais irritantes com que se depara é o estacionamento de automóveis em cima dos passeios obrigar os peões a caminharem pela faixa de rodagem. Isto poderá parecer banal, quando comparado com a carnificina que vai havendo por esses IP's, mas não deixa de ser sintomático da falta de comportamento cívico dos portugueses quando estão ao volante. E o que isto demonstra, para além, do desrespeito pelo código da estrada, é a falta de respeito pelas pessoas, por quaisquer pessoas. Porque quaisquer pessoas podem ser importunadas por essa situação.

Ora, sendo os condutores pessoas que se não movem unicamente de automóvel, mas também pelo seu próprio pé, o mais certo será já terem sido confrontadas com este incómodo. Se assim é, porque mantêm o mesmo comportamento? A sensação que me dá é que dentro do automóvel a pessoa se esquece da sua condição humana. A pessoa deixa de ser pessoa para ser um automobilista. E ser automobilista é ser como que uma extensão da máquina. É ser sobre-humano, porque com a máquina a pessoa consegue feitos que nunca conseguiria usando exclusivamente o humano corpo que tem. O que a faz sentir-se menos vulnerável. Não será decerto o único factor concorrente, mas é bem possível que essa sensação de invulnerabilidade ajude a explicar a conduta aparentemente inconsciente de tantas pessoas quando estão ao volante, pondo em perigo a sua própria vida, bem como a dos outros.
Infelizmente, são muitas as pessoas que, fruto dessa alienação da condição humana, se descobrem, de repente, muito mais vulneráveis do que alguma vez foram.