terça-feira, novembro 16, 2004

O jogo da bola

O pior deste episódio é a sensação que dá de que estamos a ser governados por dois gaiatos que andam a brincar à política com o nosso país. Senão veja-se:

O dono da bola zanga-se com o vizinho, porque os amigos deste não dão ares de gostarem muito dele. Como a bola é dele, acaba-se já o jogo! O amigo, que até fora nomeado capitão de equipa e que tinha a sua grande oportunidade para mostrar às meninas da bancada quão jeitoso era de pés, logo manda o maninho mais novo com uns rebuçaditos para demover o puto birrento da sua decisão. O outro aceita o brinde e abstém-se de se ir embora, até porque também quer dar mais um pouco nas vistas. Recomeça o jogo, para gáudio da assistência, e tudo parece bem. Mas para os dois protagonistas já nada será como dantes. Um porque sabe que está nas mãos do outro, este porque sabe que àquele basta ter meios para comprar a sua própria bola, para lhe dar um chuto no rabo. Ambos se sabem aliados de circunstância. Ambos já só se vêem como rivais. Por isso, não será de espantar que, embora jogando na mesma equipa, cada um tente arrancar para si os maiores aplausos da assistência, em detrimento da manobra colectiva. Ora, não havendo na equipa nenhum craque que resolva por si só os problemas (afinal, nenhum deles é um génio da bola), o mais certo será a equipa jogar mal e perder o jogo. Mas isto não interessa nada aos dois meninos mimados. O que cada um quer é arrancar o máximo de aplausos para si. A equipa apenas lhes serve de meio para brilharem individualmente.

É evidente que a bola nesta metáfora representa a política, como o jogo pode representar as eleições legislativas de 2006 (ou de 2005). Mas, infelizmente, o jogo representa muito mais do que o futuro próximo dos dois partidos da direita. O jogo chama-se Portugal e a derrota desta equipa pode trazer também a derrota do país por inerência. Tudo depende dos estragos que fizerem durante o tempo de jogo que lhes resta. Ainda para mais, quando o árbitro, embora preocupado com a qualidade do jogo praticado, nomeadamente com as faltas graves cometidas nas suas barbas, se abstém de assinalar os respectivos livres ou de expulsar os jogadores cujo comportamento é manifestamente incorrecto.