terça-feira, novembro 30, 2004

O pessimismo português

Em números:

55 por cento dos inquiridos nesta sondagem consideram a actuação do governo "má" ou "muito má". Mais de 70 por cento dos inquiridos acham que a situação política está "má" ou "muito má". Até aqui não há novidade. O cheiro a podridão da actual conjuntura política há muito que nos dá naúseas a (quase) todos. O pior é que 43 por cento dos inquiridos continuam, no entanto, a pensar que ninguém faria melhor. Importa agora avaliar não só o que estes números dizem da classe política, mas também da população portuguesa em geral. Porque é que estamos (ou somos) tão deprimidos? Porque é que não acreditamos que somos capazes de fazer melhor?

Sem presunções científicas, eu aventuro uma explicação eventual. Acredito que somos um povo talentoso, que somos capazes de grandes feitos e que temos capacidade para nos superarmos perante as maiores contrariedades. O que não temos é grande capacidade organizativa e somos imensamente dependentes de lideranças fortes para conseguirmos aplicar todo o nosso potencial. Ora, precisamente o que não temos tido é lideranças fortes (e no momento presente essa realidade atingiu um extremo perfeitamente ridículo, tanto no Governo como na Presidência da República). Precisamos, como bem diz Cavaco Silva (há que reconhecer-lhe a razão), dos melhores à frente dos destinos do país. Precisamos de líderes simultaneamente carismáticos e extraordinariamente competentes. Alguém que nos mova a todos, não só no sentido da utopia, mas também no sentido da realidade concreta e concretizável num lapso de tempo visível. Precisamos de quem acredite em nós e de quem nos leve a acreditar em si. Não precisamos de slogans baratos como «Força, Portugal» ou «Geração Portugal». Não precisamos de timoneiros pré-fabricados pelo marketing político que nos impõem medidas avulsas e desconcertadas, mas que são incapazes de gerar um projecto global para o país. Como também não precisamos de gente arrogante. Precisamos de quem seja capaz de integrar a maioria de nós num projecto, não de quem nos obrigue a suportar um com o qual não nos identificamos. Será pedir muito?