sexta-feira, dezembro 31, 2004

Quatro polícias para quatro lugares (ou como ser estupidamente optimista)

A Junta de Freguesia da Graça, Lisboa, tem reservados para si na via pública quatro lugares de estacionamento. Estes lugares, por norma, estão ocupados por veículos ligeiros sem qualquer dístico que os identifique como pertencentes à dita Junta. Alíás, em todo o Largo da Graça não é costume verem-se automóveis claramente identificados como pertencentes à Junta. O que, naturalmente, deixa a interrogação sobre a real utilidade daqueles lugares. Quem os usa? Os moradores da Graça? O Presidente da Junta e mais três excelsas personalidades que por lá laboram? Não sei. Mas que parece excessivo, parece. Mas, como um excesso nunca vem só, aqui vai mais outro.

Na tarde de ontem, estacionou num desses lugares um carro da PSP, do qual sairam quatro agentes que, de imediato, puseram os corpitos fardados fora do automóvel e armados de esferográfica se puseram a autuar os carros que por lá haviam estacionado. Ora, como só haviam três automóveis para multar e quatro agentes, logo me perguntei se um deles iria multar o veículo da PSP. Porque afinal, também este estava estacionado num lugar da Junta e havendo quatro agentes e quatro carros ilegalmente estacionados, lógico seria que cada um se ocupasse do seu. Claro está que depressa verifiquei a minha ingenuidade. Pelo menos, atendendo ao número e destino dos papelitos que vi a serem preenchidos e entalados no limpa-párabrisas dos carros, vi-me forçado a concluir que afinal só três dos agentes eram autuantes. O quarto seria decerto o motorista.

Perante esta evidência, devo dizer que comecei por experienciar alguma desilusão. Como cidadão preocupado com a manutenção da ordem pública e da legalidade, a verificação de que os efectivos policiais eram insuficientes para responder proporcionalmente às infracções cometidas deixou-me um amargo de boca. Mas depois, subitamente, vi a luz. Pensei: tenho que ver as coisas pelo lado positivo. Mesmo que não sejam suficientes, o facto de estarem aqui três agentes a autuar três automóveis e um quarto para os levar até ao local das infracções é, em si, já muito positivo. É sinal de que as promessas de desafectar pessoal do serviço de secretaria para os destinar aos serviços operacionais já está a surtir efeito. Por este andar, qualquer dia até já temos agentes da polícia a combater a pequena criminalidade. E um dia, quiçá, até os veremos a combater a grande criminalidade.

Os ricos que paguem a crise

Eu ainda sou do tempo em que se via esta frase pintada nas paredes de Lisboa. Os tempos mudaram. Já não se pintam paredes como dantes. E, a bem da estética urbana, satisfaz-me que assim seja. O que não me satisfaz é que aquela reivindicação permaneça tão actual como antes. Porque agora, como antes, quem paga a crise são os pobres ou, quando não estes, a classe média. Veja-se, como exemplos, o adiamento do pagamento aos desempregados do respectivo subsídio por questões contabilísticas ou o corte nos benefícios fiscais que a classe média conseguia através dos PPR's. Nos ricos, é claro, não se toca. Porque se os pobres pagam a crise, são os ricos que pagam quem a gere. E todo o cão sabe que não deve morder a mão que o alimenta.

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Com a casa às costas

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É como tenho andado nestes últimos dias, nestes últimos meses, neste último ano. Não tem sido fácil, mas o sorriso mantém-se. Porque, ainda que o futuro seja uma incógnita, continuo a acreditar nele. Chamar-lhe-ia fé se fosse religioso. Como não sou, chamo-lhe apenas optimismo.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

O meu top

Apesar de visitar pontualmente a blogosfera desde meados de 2003, só a partir de Agosto deste ano, quando resolvi criar o meu próprio blogue, é que comecei a seguir com regularidade diária o que se vai passando neste extraordinário mundo. E foi com espanto que me vi de repente viciado numa série de blogues, que passei a visitar várias vezes ao dia, sempre na ânsia de saber o que terão eles dito nas últimas duas horas. Simultaneamente fui descobrindo cada vez mais e mais blogues interessantes e alargando a minha coluna de links, a qual, devo dizer, tem já vários candidatos à espera que eu tenha tempo para lá os colocar. Tempo esse que, infelizmente, também vai faltando para visitá-los a todos com a frequência que desejaria ou mesmo para explorar os inúmeros blogues que ainda desconheço. Ainda assim, e correndo assumidamente o risco de cometer injustiças, deixo a seguir a lista das minhas preferências durante o segundo semestre (incompleto) de 2004:

Os melhores blogues

1. Xupacabras
2. Barnabé
3. O Jumento
4. Causa Nossa
5. Briteiros
6. Bloguítica
7. Fora do Mundo

Os melhores bloggers (identificados)

1. Rui Tavares
2. Vital Moreira
3. José A. Martins
4. Paulo Gorjão
5. Pedro Mexia

Finalmente, não posso deixar de fazer uma referência especial ao Gato Fedorento, que estando praticamente inactivo na blogoesfera onde se iniciou, alcançou um extraordinário e merecido sucesso fora dela. Como bem se sabe, nem sempre a qualidade é premiada com o sucesso comercial, mas às vezes acontece. No caso do Gato Fedorento aconteceu. Parabéns, Gatos!

domingo, dezembro 26, 2004

O ovo de Colombo comunista

sábado, dezembro 25, 2004

Citando

"O malfadado caso do "túnel do Marquês" é um verdadeiro manual de maus procedimentos a este respeito, e de desavergonhada sobreposição da teimosia individual de um político - e do seu pateticamente agrilhoado herdeiro na Câmara Municipal de Lisboa (CML) - sobre o parecer dos técnicos, os condicionalismos administrativos e, sobretudo, os imperativos ético-legais que definem o serviço público como prioridade absoluta dos decisores políticos.

A construção do túnel começou (e recomeçou) sem que tenha sido realizada uma avaliação dos riscos e dos impactes vários: hidrogeológicos, sísmicos, de segurança rodoviária, de tráfego, de desmoronamento do túnel do Metro, etc. O LNEC, o INETI e outras entidades não se pronunciaram sobre os seus riscos. Não foi feita qualquer auditoria de segurança rodoviária em fase de projecto. Não houve, até hoje, um engenheiro de transportes que, em consciência, tenha justificado a utilidade da obra. Até mesmo o próprio estudo de impacte ambiental, claramente submisso ao seu contratante, que é a CML, alerta para as paradoxais consequências da sua abertura ao público: irá induzir mais tráfego em toda a zona e provocar novos congestionamentos no Marquês. Em suma, ninguém, com qualificações técnicas e científicas, negou até hoje que o túnel seja perigoso, paradoxal, inútil e economicamente iníquo."


(Manuel João Ramos, presidente da Associação dos Cidadãos Auto-Mobilizados)

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Ho! Ho! Ho!

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Foto de Ian Britton

terça-feira, dezembro 21, 2004

Sempre a descer

Há uns anos atrás, na fase final do guterrismo, um amigo dizia-me:
- Isto nunca esteve tão mal.
O que ele não imaginava era o quanto isto ainda podia piorar.

Ridículo país

É inacreditável que, depois de todos os sacrifícios exigidos aos portugueses pelo governo de Durão Barroso com o argumento de que era necessário cumprir o valor estabelecido pelo PEC para o défice público, estejamos agora na situação tão caricata quanto preocupante de termos escassos dias para conseguir receitas extraordinárias que cumpram esse requisito e sejam aceites pelo Eurostat. É inacreditável e é inaceitável. Temos 150 mil desempregados e inúmeras empresas a abrir falência, mas isso não serviu para nada. Continuamos com um défice público excessivo e somos governados por um bando de idiotas sem rumo que não sabem o que fazer para evitar a falência do país, mas que, mesmo assim, ainda se queixam de serem postos na rua. É tão ridículo que parece ficção.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Seria algum equipamento novo do INEM?

Um tiro no pé

Longe de ser um entendido em questões ambientais, o que aqui se diz, somado à posição dos ecologistas sobre a co-incineração levanta-me muitas dúvidas sobre ser esta a melhor solução para o problema dos resíduos industriais perigosos. O facto de Sócrates insistir nessa solução em detrimento de quaisquer outras e acusando o actual governo de nada ter feito sobre o assunto, pondo-se assim a jeito do reparo do ministro Luís Nobre Guedes, ao mesmo tempo que faz ouvidos moucos à intolerância das populações de Souselas e Maceira sobre o assunto, parece-me um erro político grosseiro, tanto mais que a solução proposta pelo actual governo tem o mérito de contar com o apoio dos municípios onde serão implementados os Centros Integrados de Recuperação, Valorização e Eliminação de Resíduos Perigosos.

Mesmo admitindo que a co-incineração é a melhor solução para o problema dos resíduos industriais perigosos, o que duvido, o anúncio das intenções de Sócrates é totalmente extemporâneo. É um problema do país e tem que ser resolvido, mas não é, de modo nenhum, o mais grave com que nos deparamos nem aquele para o qual exigimos respostas mais prementes. Assim, pô-lo em cima da mesa nesta altura, mais do que corresponder a uma necessidade do eleitorado parece-me que corresponde a uma necessidade do próprio José Sócrates: a necessidade de ser olhado como um político de convicções capaz de tomar medidas impopulares, mas nos melhores interesses do país. Sócrates quer assim apresentar-se como uma «boa moeda» mas, infelizmente, a ideia que fica é precisamente a contrária: a de que está a pôr-se em bicos dos pés para aparecer na fotografia como tal. A Sócrates neste momento pede-se, exige-se mais do que o choque tecnológico ou a co-incineração. Dele queremos um plano de recuperação económica para o país, mas como Vitorino ainda não o preparou, Sócrates ainda o não pode dar. Porque não sabe ainda o que vai fazer. É esta a ideia que prevalece. E é um péssimo sinal para quem pede uma maioria absoluta.

domingo, dezembro 19, 2004

O futuro está lá fora

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Hipocondria

Concordo com o Paulo Gorjão quando diz que o uso abusivo do equipamento do INEM por parte de Santana Lopes não deveria ser tema de capa de um jornal de referência como o Expresso. O que não compreendo é que, se se sabia o que se passava, se isso vinha referido num blogue (embora aí apenas houvesse referência a um ministro, não sendo o mesmo nomeado), se o assunto circulava «de boca em boca há muito mais tempo», não competiria à imprensa denunciar o abuso? O Paulo Gorjão entende ser de salientar o eventual ataque do Expresso a Santana. Eu entendo que é de salientar que desde Setembro houve conivência da imprensa para com o abuso do primeiro-ministro. Não houvesse essa conivência antes, não haveria agora este tema de capa do Expresso. O que é que silenciou os jornais? Essa é que é a questão... Quanto à vitimização de Santana, penso que está a ser-lhe dada demasiada importância. Julgo que Santana continua, fundamentalmente, a ser vítima de si mesmo. E duvido que a sua hipocondria política renda assim tantos votos como há quem tema.

sábado, dezembro 18, 2004

Porque é que eu não "bato" no Manuel Monteiro

Sendo comuns na blogoesfera os remoques humorísticos à figura de Manuel Monteiro e ao seu PND, dei por mim a pensar porque é que nunca me lembrei de mandar também uma gracinha a um dos fenómenos mais risíveis do espectro político nacional. Não precisei, felizmente, de pensar muito para chegar a algumas conclusões:

1º Porque a ideia do digaaomanel.com é, por si só, de uma comicidade praticamente inultrapassável;
2º Porque, não obstante os seus fatos impecáveis, não deixa de ter um ar de menino subnutrido;
3º Porque o seu esforço para parecer jovem, irreverente e actual é tão pândego que chega a ser comovedor;
4º Porque ele é uma espécie de cordeiro sacrificado à paixão de Paulo Portas pelo poder, o que faz dele uma vítima (e com as vítimas não se goza);
5º Porque ele é tão inócuo que não representa uma ameaça para nada nem ninguém;
6º Porque se alguma vez alguma destas condições se alterar, obrigando-me a reconsiderar a minha posição de "não agressão" ao fenómeno, posso sempre dizer ao Manel.

Vivam os portugas!

Desde a medalha de ouro de Francis Obikwelu que não sentia tanto orgulho numa acção levada a cabo por portugueses. As «Brigadas» que andam a fazer este serviço merecem as maiores honras.

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E merecem-nas tão simplesmente porque retiram aos portugueses o estigma de serem uns panhonhas que comem tudo o que lhes enfiam na goela sem abrirem o bico (esta imagem é um pouco paradoxal, mas eu gosto). Porque esclarecem os Carmonas e os Santanas e toda essa tribo de chupistas (tem tudo a ver, estão a ver? goela... bico... chupistas...) de que, afinal, os portugas não são um aglomerado de papalvos que se deixam comer (insisto) por (para rematar, algo completamente diferente) dá cá aquela palha.

PS: Pois é. Mas, entretanto já li um comentário no blogue onde esta imagem aparece, acusando-a de ser apenas uma fotomontagem. A ser verdade lá se vai a minha euforia...

sexta-feira, dezembro 17, 2004

Vizinhos

Imperdível. Não se esqueçam de ligar o som.

(link divulgado pelo Blogue de Esquerda).

Escatologia

Por muito ignorantes ou inconscientes que sejamos, há sempre momentos de lucidez. Fugazes, mas intensos. E, principalmente, são nossos. Só nossos. Vorazmente nossos. Imensamente. Nossos. E é neles que encontramos o nosso céu... ou o nosso inferno.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Deslealdade

Isto não tem nada a ver com o ex-ministro Chaves, nem sequer darei qualquer chave que permita a sua associação a qualquer dado concreto. Direi apenas que a lealdade entre parceiros em qualquer actividade é indispensável por todas as razões: éticas, morais e práticas. Essa é a base de toda a relação entre duas ou mais partes. Quando uma das partes se abstém de seguir essa regra, dando o dito por não dito e quebrando acordos expressos ou tácitos, está a ferir gravemente a relação e a condená-la unilateralmente ao seu fim. Nestas circunstâncias nada há a fazer, senão deixá-la a sós com a sua consciência.

Dançam?

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quarta-feira, dezembro 15, 2004

A paz podre

Por aqui se vê a corrosão que a coligação sofreu desde a partida de Barroso. O PSD diz que propôs a coligação e o CDS não quis. A direcção do PP diz que «a coligação falhou porque Santana nunca soube o que queria». Pelo meio, encomendaram-se sondagens para perceber qual das estratégias seria mais vantajosa. No fim, fica uma declaração conjunta em que ambos os partidos se comprometem a unir-se novamente depois das eleições. Algo me diz que o resultado das sondagens não foi muito animador...

Agora, como é evidente, cabe a cada partido lutar pelo seu espaço político próprio, o qual, em algumas franjas do eleitorado é comum, ou seja, implica combate político para o conquistar. E isto é principalmente relevante para o PP. Com o PSD inclinado para a direita, Portas não deixará de fazer o que for preciso para ganhar os votos de que precisa para não desaparecer num táxi. Nomeadamente, puxando os valores da «estabilidade» e da «competência» para o seu lado, e empurrando os seus antónimos para o lado do parceiro de coligação. Resta apenas saber com que grau de subtileza o fará. Por um lado, a eventual expectativa de voltar a constituir governo com o PSD poderá levar a que modere o ataque à instabilidade de Santana a um registo quase subliminar. Por outro, a mais natural expectativa de que seja o PS o partido mais votado, remetendo PSD e PP para a oposição, tirará a este qualquer interesse na estratégia de não hostilizar os sociais-democratas. Pelo contrário, levá-lo-á a querer assumir-se como o lado mais «responsável» do governo. Para saber qual das opções triunfará, só falta saber o que diziam as sondagens.
Santana que se cuide.

Autismo

Como é que os cinco líderes parlamentares podem estar uma hora e meia a debater ideias (?) na televisão, sem que se tenha mais do que cinco minutos (e estou a ser optimista) de discussão de assuntos que realmente interessem aos portugueses? Safa!

Honra lhe seja feita, Francisco Louçã, com a sua eloquente oratória foi o único que abordou alguns assuntos concretos, mas infelizmente fê-lo muito pela rama. Seria útil, por exemplo, perceber quais são em concreto as «políticas de emprego» que o BE propõe. É verdade que era difícil manter o nível da discussão com interlocutores tão brutescos quanto Guilherme Silva ou Nuno Melo, mas isso por si só não chega para explicar a falta de concretização das suas ideias. Quanto a António José Seguro pareceu mais apostado em manter uma postura imperturbável e um ar de serenidade responsável, porventura na expectativa de assim se demarcar da linha de instabilidade do actual governo, do que em apresentar uma dinâmica positiva assente em ideias e conteúdos programáticos claros. Ou seja, tudo parece indicar que, mais uma vez, a mudança de poder se fará com base, não no mérito das alternativas propostas pelo maior partido da oposição, mas pelo demérito de quem tem funções governativas. É triste.

Ah! E Bernardino Soares também lá esteve... a combater as «políticas de direita».

terça-feira, dezembro 14, 2004

O país da tanga

A célebre expressão que Durão Barroso utilizou quando chegou ao poder, para classificar a situação económica do país, assume hoje um foro completamente diferente. Com a confirmação de Vítor Constâncio (que, recorde-se, a seu tempo pôs a nú os erros da política orçamental do último governo socialista) de que nos últimos três anos, o défice orçamental, se se excluirem as receitas extraordinárias, andou sempre «na ordem dos cinco por cento» (quando no último ano de Guterres o mesmo défice rondava os quatro por cento), podemos enfim concluir o que muitos já suspeitavam. Mais do que vivermos num «país de tanga», vivemos num país da tanga, sendo que a tanga é a arma com que os responsáveis políticos capitalizam para si a opinião pública, denegrindo os seus adversários políticos.

Ora, sendo hoje claro que a política de austeridade de Manuela Ferreira Leite não serviu o propósito anunciado de conter o défice e que, cumulativamente, asfixiou ainda mais a economia nacional, levando a um aumento exponencial do desemprego com o consequente agravamento das condições de vida de largos milhares de portugueses, é inteiramente legítimo e lógico considerar que os governos PSD/PP foram ainda mais prejudiciais para o país do que o governo de Guterres. O melhor que direita pode dizer sobre este assunto é que a conjuntura económica mundial deteriorou-se desde então, agravando as dificuldades que herdou do governo socialista, mas isso não invalida a sua incapacidade para racionalizar a despesa pública durante os mais de dois anos em que governou. Ou seja, a tanga já não cola.

Não serve, por isso, à sua estratégia eleitoral atacar a governação dos socialistas, porque a estes sobram os argumentos de contra-ataque. A estratégia terá então que passar pelo ataque a quem não os deixou fazer as reformas que queriam fazer, isto é, a Jorge Sampaio e aos «obscuros» interesses económicos. Mas aqui também encontram um problema. Se queriam fazer as reformas, porque não as fizeram durante o primeiro biénio de governação? A resposta é simples e Santana Lopes já a terá. Porque não era ele a chefiar o governo, mas Durão Barroso. Assim, o homem da tanga que, como Guterres, também fugiu, terá também que ser demonizado para que Santana apareça na fotografia como o homem que teve realmente a coragem de avançar com as reformas necessárias, e que só não concluiu porque não o deixaram. Está, pois, encontrada a tanga com que o PSD se apresentará a eleições.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Poker

Os sismos dão-me para cismar na imprevisibilidade da nossa existência. A consciência de que a qualquer momento tudo pode ruir acrescenta adrenalina à vida. Dá-lhe um sentido de jogo. É como estar a jogar poker com o mais perigoso jogador que existe: a natureza. O problema é que quando ela sobe a parada nunca sabemos se está só a fazer bluff, ou se está à beira de nos depenar com um Royal Flush. De qualquer modo, dado o que temos em jogo (a nossa própria vida), o melhor é arriscar sempre. Até porque no fim acabamos sempre por perder. Mas até lá sempre vamos fumando uns charutos e bebendo uns whiskys.

Ainda não foi desta

Não sendo fã de sismos, já é a segunda vez que um passa por mim sem que eu disso me aperceba. O primeiro foi há uns atrás, na ilha Terceira, durante a madrugada. Eu estava a dormir e a dormir continuei. Agora, em Lisboa, andava na rua e não dei por nada. Da primeira vez ainda posso dizer que vi o candeeiro a balouçar no tecto, depois de alguém me ter acordado em sobressalto, mas desta nem isso. É frustrante.

domingo, dezembro 12, 2004

Será por agora já não ser ele quem os escreve?

Júlio Isidro para Herman José: «Os teus textos agora são muito melhores do que eram em 1983».

Promessas eleitorais

Ao fim de dois anos e meio de dificuldades, pergunto-me se os portugueses ainda ouvirão promessas como a de não cobrar portagens na Auto-Estrada da Beira Interior, feita por Sócrates, com bons ouvidos. É que por muito que haja a criticar ao actual governo, desde o orçamento mais relaxado no combate ao défice, passando pela incapacidade de reformar a administração pública, tornando-a mais eficiente e menos onerosa, ou as de melhorar a qualidade do ensino público, de incentivar a investigação científica e as práticas culturais, ou ainda a de ter políticas de incentivo ao emprego, à qualificação profissional e ao investimento, chegando às tentativas de controlo dos media e a todo o desnorte público e notório do executivo, deverão reconhecer-se como positivas algumas das medidas anunciadas e que não tiveram tempo de ser aplicadas. Entre elas está a Lei das Rendas, que se arriscava a mexer num mercado completamente desregulado, injusto e imoral e o fim das SCUT's que oneram gravemente o país num momento em que a situação económica claramente não o permite. Desconhecendo-se quais as intenções de Sócrates quanto à primeira, ficámos ontem a saber das suas ideias sobre a segunda medida. As SCUT's deverão continuar. Ou então continuam algumas e outras não, o que só vem distorcer ainda mais a situação. Quais são as auto-estradas que terão portagens e quais é que não as terão? Como se definem os critérios para distinguir umas de outras? A interioridade? Mas que interioridade? A da Covilhã? Ou a de Beja? Complicado, não?

O melhor talvez seja Sócrates não se deixar entusiasmar em demasia com os banhos de multidão, desatando emotivamente a soltar promessas eleitoralistas e irresponsáveis, e esperar pacientemente que Vitorino lhe prepare o programa de governo. É que impulsos destes podem sair muito caros ao líder do PS (e ao país). A Sócrates, depois do triste espectáculo que Santana ofereceu ao país, exige-se mais ponderação, mais seriedade, mais sentido de estado. Principalmente, porque a imagem do pântano guterrista está ainda muito presente na consciência dos portugueses. Se é verdade que o país está frustrado com a fuga de Barroso (depois de declarar o «estado de tanga» e arrasar com a auto-estima nacional) e o trágico-anedótico intermezzo santananista, não é menos verdade que a «herança» guterrista ainda não perdeu validade junto das pessoas comuns, ainda que o défice público real tenha aumentado durante a governação de Barroso e Santana. A ideia comum que ainda prevalece é a de que estamos a sofrer os custos derivados dos erros cometidos no passado e que, agora, «isto» só lá vai com políticas corajosas que corrijam a tendência de declínio da economia nacional. A mensagem não pode, portanto, ser a de desfazer tudo o que os governos da coligação fizeram, mas sim a de corrigir o que estava errado e melhorar o que era insuficiente, tendo em vista o desenvolvimento económico do país. E é, obviamente, assumir a ruptura clara com o pior do guterrismo e que não foi (longe disso) resolvido pelo barrosismo. O despesismo. Ou o eleitoralismo... A era agora é a de um novo ismo. O responsabilismo.

O eterno retorno

sábado, dezembro 11, 2004

Legítimo e bastardos

Não haverá nas hostes sociais-democratas e populares quem se lembre que o Presidente, para o bem e para o mal, também foi eleito pelos portugueses, por sinal, por uma maioria muito mais abrangente que a que elegeu este governo (esta que, por sua vez, foi fruto do somatório de duas opções distintas e, portanto, não necessariamente coincidentes)? É que uma coisa é ser-se inequivocamente eleito pela maioria absoluta dos portugueses, outra é ser fruto de uma relação de conveniência entre duas facções que se apresentaram separadas (e combatendo-se entre si) em eleições. Será assim tão difícil perceber que para além da legitimidade constitucional que assiste ao Presidente na sua decisão, há também uma legitimidade política? É que quer aqueles moços queiram quer não, Sampaio representa muito mais os portugueses do que eles.

O carnaval antecipado

É quando ouço falar de coisas como um «golpe de estado constitucional» que me lembro que a política é, antes de mais, e parafraseando o Ângelo Correia, um perfeito «disparate».

sexta-feira, dezembro 10, 2004

O avô e o bebé

Não consigo evitar um sorriso sempre que ouço algum dos gaiatos falar de imaturidade da democracia.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

A desorientação continua (2)

A desorientação continua

Depois de Santana ter dito que aceitaria a decisão do Presidente com o respeito que o chefe de estado merece, aproveitando para se distanciar de algumas reacções mais virulentas da esquerda quando, há quatro meses, Sampaio optou por conduzir o próprio Santana à chefia do governo, eis que aparece Sarmento a classificar o Presidente de caudilho. A esquerda, naturalmente, agradece.

quarta-feira, dezembro 08, 2004

Estúpidos!

Benni McCarthy, o avançado sul-africano e negro do FC Porto bem pode considerar-se o «herói» do momento no seu clube. Além de ser o melhor marcador da equipa, foi ainda o autor do golo que permitiu aos dragões o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões. Esta confortável posição não o impediu, contudo, de classificar de «estúpidos» os adeptos do clube que entoaram cânticos racistas dirigidos aos futebolistas negros ao serviço do Chelsea, afirmação esta que demonstra lucidez, rectidão e coragem, características que normalmente não abundam no mundo do futebol. Exemplo disso é o seu próprio presidente, Pinto da Costa que, ao ser convocado para depor no tribunal do qual acabaria por sair como arguido, compareceu sob escolta da claque portista, estando ainda por esclarecer por que motivo o fez. Terá sido para a sua própria protecção contra eventuais injúrias de populares ou contra a esperada avalanche de perguntas dos jornalistas? Ou terá sido para intimidar o tribunal? Seja qual for o motivo, a verdade é que comparecer a um tribunal escoltado por um bando de rapazes com fama de desordeiros, em nada abona a figura do presidente do FC Porto. Antes pelo contrário, associa-o à imagem de líder de um gang de delinquentes, o que, convenhamos, para quem é suspeito de corrupção, tráfico de influências e falsificação de documentos não vem nada a calhar. Ou seja, Pinto da Costa não só não é lúcido, não é recto, nem é corajoso, como ainda é... estúpido.

O Circo

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Santana, já se sabe, não é homem de grandes pudores na caça ao voto. Mas descerrar a placa comemorativa da inauguração de um parque de estacionamento em Lisboa, na qual se atribui o mesmo acto ao actual presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, é mais do que perverso, ridículo. Se ainda somarmos a esta peculiar circunstância o facto de o indivíduo que a ela se presta ser o primeiro-ministro (ainda em plenas funções) de Portugal, então temos consumada a política como actividade circense, ou melhor, como um específico número de circo. O número de palhaços.

Resta agora saber como é que o eleitorado (ou o público) reage a estas manobras de entretenimento. Se, como seria lógico, rejeitando-as por as considerar deslocadas do contexto de seriedade em que deve estar envolvida a política, se alienadamente batendo palmas aos artistas. Ou seja, compete ao público distinguir entre seriedade e populismo, algo que muito preocupa parte da classe política e não só. E preocupa, precisamente, porque tem dúvidas de que o grande público tenha a faculdade de operar essa distinção. O que, por sua vez, nos remete para a questão da formação do público, ou seja para a Educação, a qual se constitui assim como um dos pilares fundamentais das sociedades democráticas, na medida em que, aumentando o grau de consciencialização dos cidadãos os torna mais exigentes perante o poder político, logo os obriga a maior competência.

Infelizmente, a Educação em Portugal é o que se sabe. Reformas e contra-reformas ao sabor das múltiplas e concorrentes perspectivas, lutas corporativas, instabilidade, incompetência, e, mais recentemente, tentativas de desresponsabilização por parte do Estado. Ou seja, é à própria classe política que devem ser assacadas as responsabilidades, porque, por facilitismo, incapacidade ou intencionalidade nunca conseguiu entender-se neste aspecto fundamental da governação do país, assumindo opções firmes de aposta num sistema educativo de qualidade.

Em suma, se se quer salvar um estado democrático em que a actividade política seja séria e contribua efectivamente para o desenvolvimento do país, é forçoso que seja a própria classe política «séria» a tomar a iniciativa de levar a «sério» a Educação. Por uma questão de interesse nacional, sobretudo, mas também por uma questão de luta pela sobrevivência política. Aos outros, aos «não sérios» é evidente que não interessa um público informado, pois isso retirar-lhes-ia o aplauso bestificado às palhaçadas que protagonizam.

terça-feira, dezembro 07, 2004

O árbitro é gatuno!

"O que esta aberrante situação configura é um manifesto abuso do exercício dos poderes presidenciais", disse o inenarrável líder parlamentar do PSD, dando mais um empurrãozinho ao processo de futebolização da política.

segunda-feira, dezembro 06, 2004

PPDPSDCDSPP (2)

Sampaio é que, depois de ver a maior árvore de Natal da Europa à porta de casa, não teve pelos ajustes. É que a sigla deveria ser muito maior. Qualquer coisa como:

PPDPSDCDSPPPTDDRTPDNLUSATVI

(e o mais que entretanto se conseguisse amealhar).

PPDPSDCDSPP

Não há dúvida. Os portugueses são uns fanáticos do Guiness.

A teoria da conspiração vende

Dirão uns que está tudo errado, outros que não passa de um livro comercial bem longe da «grande literatura», outros ainda que acaba por ser politicamente correcto. Talvez, talvez, talvez. Mas que agarra, agarra. E depois de ter passado a maior parte do dia de ontem agarrado a ele e de o ter terminado por volta das quatro da manhã, percebi afinal por que é O Código Da Vinci um best-seller. Porque além de obedecer disciplinadamente às regras de ouro da construção de argumentos para Hollywood, fá-lo sobre um dos temas centrais da nossa civilização. Como se isso não bastasse, introduz também sociedades secretas e teorias conspirativas. Afinal, quem é que não gosta de uma boa conspiração?

sábado, dezembro 04, 2004

A moeda miserável

Luís Filpe Menezes disse no congresso do PSD que não se recandidataria à Câmara de Gaia, sublinhando que, sendo favorável à limitação de mandatos nas autarquias, deveria agir de acordo com a sua convicção. O que não disse foi quão volúveis são as suas convicções.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

A má moeda e a moeda muito má

O PIB português já está 26 pontos percentuais abaixo da média europeia, sendo inclusivamente ultrapassado por países recém-chegados à UE, como a Eslovénia, Malta e Chipre. Pelo contrário, países que aderiram ao Mercado Único na mesma altura que Portugal revelam um desempenho económico muito superior ao nosso. É o caso da Irlanda, cujo PIB está acima da média europeia ou da Espanha, que está apenas dois pontos percentuais abaixo daquela média.

Estas diferenças, embora acentuadas nos últimos anos, não podem ser dissociadas daquele que terá sido o período crucial para Portugal se modernizar e se aproximar dos seus parceiros europeus, ou seja, dos anos do cavaquismo, quando o grosso dos fundos comunitários destinados ao desenvolvimento sócio-económico do país foram desbaratados em acções inconsequentes, algumas das quais fraudulentas (e que a Justiça não soube ou não pôde julgar atempadamente). Havia, decerto, e continua a haver, um problema de mentalidade. Contrariamente ao que é comum nos países do centro e do norte da Europa ou nos países cuja religião dominante segue a via protestante, não temos o culto do trabalho, nem nos habituámos a ver na iniciativa própria a chave para o sucesso económico. Mas é também verdade que a Irlanda é católica e que a Espanha, além de o ser, está geografica e historicamente ao nosso nível. O que só demonstra que tais teorias não chegam para justificar o nosso atraso. Se a Espanha e a Irlanda tiveram a capacidade de se adaptarem aos tempos actuais, nós não tivemos e estamos agora a pagar por isso. Estam0s agora a pagar pelos erros cometidos durante a última década. E a última década não é só a de Guterres, Barroso e Santana. É também a de Cavaco. E se é verdade que, gradualmente, a moeda portuguesa tem vindo a deteriorar-se cada vez mais, também é verdade que a moeda cavaquista não foi uma boa moeda.


O cerco

António Borges, o homem de quem há anos se espera que compre um carro novo e decida fazer a respectiva rodagem a caminho de um congresso do PSD, acusa Santana de "falhar redondamente" como primeiro-ministro e diz-se disponível para "renovar o PSD", lamentando que já não haja tempo para o PSD ter outro líder antes das eleições. O economista é ainda da opinião de que o Orçamento de Estado para 2005 não deve ser aprovado pela Assembleia da República, situação que no seu entendimento não terá grande impacto na economia portuguesa, na medida em que "este orçamento não se estava a revelar estabilizador, tranquilizador".

Afinal a gota de água era outra

Há em Lisboa quem se assuste com a entrada de madeirenses em funções na República", disse Alberto João Jardim. Para o presidente do governo regional da Madeira, a decisão de Sampaio de dissolver a Assembleia da República, foi um acto de "discriminação" contra os madeirenses. "Não se quis aceitar um ministro vindo da Madeira", porque "todos sabem que nós a irmos para lá é para meter tudo na ordem", disse ainda Jardim que, ao que consta, estará a considerar uma proposta milionária das Produções Fictícias para dirigir o Inimigo Público, por considerar ser este jornal o único órgão da comunicação social lisboeta que mantém ainda alguma credibilidade. O único entrave à assinatura do contrato parece estar na exigência de Jardim de que, contrariamente ao que agora acontece, o Público passe a sair às sextas-feiras como suplemento humorístico do Inimigo Público. A Nódoa sabe ainda que à hora do fecho desta posta, Alberto João Jardim, Nuno Artur Silva, José Manuel Fernandes e Belmiro de Azevedo estavam reunidos em local desconhecido para os lados de Picoas, tentando chegar a um acordo que viabilize a contratação.

Avança, leão!

quinta-feira, dezembro 02, 2004

Músicas cá de casa

Da Finlândia...

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E da Galiza...

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Cavaco na bruma

Para Pacheco Pereira é preciso que Cavaco volte, mas qual Cavaco? O Cavaco do tabu? O Cavaco de "deixem-nos trabalhar"? O Cavaco da dr.ª Ferreira Leite como Ministra da Educação? O Cavaco das leis e despachos e circulares com efeitos retroactivos, conforme convinha? O Cavaco dos milhões da Europa? O Cavaco do "bodo aos pobres" ou "BMW aos ricos" dos fundos comunitários, que nos deviam fazer avançar estruturalmente mas só nos deixaram estradas, algumas bem más, por sinal? O Cavaco do "eu nunca me engano"? O Cavaco do "são todos parvos menos eu"? O Cavaco dos fundos que não se sabe para onde foram. O Cavaco da reforma do ensino que encheu gabinetes de "técnicos" mas deixou a nossa rede escolar primária exactamente como nos tinha sido legada pelo salazarismo? Afinal de que Cavaquismo é que o Dr. JPP tem saudades? O Cavaquismo da exclusão do nosso prémio Nobel exilado para Espanha? O Cavaquismo do Dr. Santana Lopes na Cultura?

O sebastianismo social-democrata de Pacheco Pereira, no Briteiros.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Estamos muito felizes II

Locais de trabalho houveram onde se festejou a decisão de Sampaio, como em 74 se festejara a revolução.

Estamos muito felizes

Foi a frase que, de todas as que se disseram na televisão, guardei como emblemática do dia de ontem. Dita, imagine-se, por Jerónimo de Sousa. Mas não é de admirar. Afinal, Jerónimo é o único líder partidário que já provou que sabe dançar quando a ocasião o pede.