sexta-feira, dezembro 03, 2004

A má moeda e a moeda muito má

O PIB português já está 26 pontos percentuais abaixo da média europeia, sendo inclusivamente ultrapassado por países recém-chegados à UE, como a Eslovénia, Malta e Chipre. Pelo contrário, países que aderiram ao Mercado Único na mesma altura que Portugal revelam um desempenho económico muito superior ao nosso. É o caso da Irlanda, cujo PIB está acima da média europeia ou da Espanha, que está apenas dois pontos percentuais abaixo daquela média.

Estas diferenças, embora acentuadas nos últimos anos, não podem ser dissociadas daquele que terá sido o período crucial para Portugal se modernizar e se aproximar dos seus parceiros europeus, ou seja, dos anos do cavaquismo, quando o grosso dos fundos comunitários destinados ao desenvolvimento sócio-económico do país foram desbaratados em acções inconsequentes, algumas das quais fraudulentas (e que a Justiça não soube ou não pôde julgar atempadamente). Havia, decerto, e continua a haver, um problema de mentalidade. Contrariamente ao que é comum nos países do centro e do norte da Europa ou nos países cuja religião dominante segue a via protestante, não temos o culto do trabalho, nem nos habituámos a ver na iniciativa própria a chave para o sucesso económico. Mas é também verdade que a Irlanda é católica e que a Espanha, além de o ser, está geografica e historicamente ao nosso nível. O que só demonstra que tais teorias não chegam para justificar o nosso atraso. Se a Espanha e a Irlanda tiveram a capacidade de se adaptarem aos tempos actuais, nós não tivemos e estamos agora a pagar por isso. Estam0s agora a pagar pelos erros cometidos durante a última década. E a última década não é só a de Guterres, Barroso e Santana. É também a de Cavaco. E se é verdade que, gradualmente, a moeda portuguesa tem vindo a deteriorar-se cada vez mais, também é verdade que a moeda cavaquista não foi uma boa moeda.