quarta-feira, dezembro 08, 2004

O Circo

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Santana, já se sabe, não é homem de grandes pudores na caça ao voto. Mas descerrar a placa comemorativa da inauguração de um parque de estacionamento em Lisboa, na qual se atribui o mesmo acto ao actual presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, é mais do que perverso, ridículo. Se ainda somarmos a esta peculiar circunstância o facto de o indivíduo que a ela se presta ser o primeiro-ministro (ainda em plenas funções) de Portugal, então temos consumada a política como actividade circense, ou melhor, como um específico número de circo. O número de palhaços.

Resta agora saber como é que o eleitorado (ou o público) reage a estas manobras de entretenimento. Se, como seria lógico, rejeitando-as por as considerar deslocadas do contexto de seriedade em que deve estar envolvida a política, se alienadamente batendo palmas aos artistas. Ou seja, compete ao público distinguir entre seriedade e populismo, algo que muito preocupa parte da classe política e não só. E preocupa, precisamente, porque tem dúvidas de que o grande público tenha a faculdade de operar essa distinção. O que, por sua vez, nos remete para a questão da formação do público, ou seja para a Educação, a qual se constitui assim como um dos pilares fundamentais das sociedades democráticas, na medida em que, aumentando o grau de consciencialização dos cidadãos os torna mais exigentes perante o poder político, logo os obriga a maior competência.

Infelizmente, a Educação em Portugal é o que se sabe. Reformas e contra-reformas ao sabor das múltiplas e concorrentes perspectivas, lutas corporativas, instabilidade, incompetência, e, mais recentemente, tentativas de desresponsabilização por parte do Estado. Ou seja, é à própria classe política que devem ser assacadas as responsabilidades, porque, por facilitismo, incapacidade ou intencionalidade nunca conseguiu entender-se neste aspecto fundamental da governação do país, assumindo opções firmes de aposta num sistema educativo de qualidade.

Em suma, se se quer salvar um estado democrático em que a actividade política seja séria e contribua efectivamente para o desenvolvimento do país, é forçoso que seja a própria classe política «séria» a tomar a iniciativa de levar a «sério» a Educação. Por uma questão de interesse nacional, sobretudo, mas também por uma questão de luta pela sobrevivência política. Aos outros, aos «não sérios» é evidente que não interessa um público informado, pois isso retirar-lhes-ia o aplauso bestificado às palhaçadas que protagonizam.