terça-feira, dezembro 14, 2004

O país da tanga

A célebre expressão que Durão Barroso utilizou quando chegou ao poder, para classificar a situação económica do país, assume hoje um foro completamente diferente. Com a confirmação de Vítor Constâncio (que, recorde-se, a seu tempo pôs a nú os erros da política orçamental do último governo socialista) de que nos últimos três anos, o défice orçamental, se se excluirem as receitas extraordinárias, andou sempre «na ordem dos cinco por cento» (quando no último ano de Guterres o mesmo défice rondava os quatro por cento), podemos enfim concluir o que muitos já suspeitavam. Mais do que vivermos num «país de tanga», vivemos num país da tanga, sendo que a tanga é a arma com que os responsáveis políticos capitalizam para si a opinião pública, denegrindo os seus adversários políticos.

Ora, sendo hoje claro que a política de austeridade de Manuela Ferreira Leite não serviu o propósito anunciado de conter o défice e que, cumulativamente, asfixiou ainda mais a economia nacional, levando a um aumento exponencial do desemprego com o consequente agravamento das condições de vida de largos milhares de portugueses, é inteiramente legítimo e lógico considerar que os governos PSD/PP foram ainda mais prejudiciais para o país do que o governo de Guterres. O melhor que direita pode dizer sobre este assunto é que a conjuntura económica mundial deteriorou-se desde então, agravando as dificuldades que herdou do governo socialista, mas isso não invalida a sua incapacidade para racionalizar a despesa pública durante os mais de dois anos em que governou. Ou seja, a tanga já não cola.

Não serve, por isso, à sua estratégia eleitoral atacar a governação dos socialistas, porque a estes sobram os argumentos de contra-ataque. A estratégia terá então que passar pelo ataque a quem não os deixou fazer as reformas que queriam fazer, isto é, a Jorge Sampaio e aos «obscuros» interesses económicos. Mas aqui também encontram um problema. Se queriam fazer as reformas, porque não as fizeram durante o primeiro biénio de governação? A resposta é simples e Santana Lopes já a terá. Porque não era ele a chefiar o governo, mas Durão Barroso. Assim, o homem da tanga que, como Guterres, também fugiu, terá também que ser demonizado para que Santana apareça na fotografia como o homem que teve realmente a coragem de avançar com as reformas necessárias, e que só não concluiu porque não o deixaram. Está, pois, encontrada a tanga com que o PSD se apresentará a eleições.