domingo, dezembro 12, 2004

Promessas eleitorais

Ao fim de dois anos e meio de dificuldades, pergunto-me se os portugueses ainda ouvirão promessas como a de não cobrar portagens na Auto-Estrada da Beira Interior, feita por Sócrates, com bons ouvidos. É que por muito que haja a criticar ao actual governo, desde o orçamento mais relaxado no combate ao défice, passando pela incapacidade de reformar a administração pública, tornando-a mais eficiente e menos onerosa, ou as de melhorar a qualidade do ensino público, de incentivar a investigação científica e as práticas culturais, ou ainda a de ter políticas de incentivo ao emprego, à qualificação profissional e ao investimento, chegando às tentativas de controlo dos media e a todo o desnorte público e notório do executivo, deverão reconhecer-se como positivas algumas das medidas anunciadas e que não tiveram tempo de ser aplicadas. Entre elas está a Lei das Rendas, que se arriscava a mexer num mercado completamente desregulado, injusto e imoral e o fim das SCUT's que oneram gravemente o país num momento em que a situação económica claramente não o permite. Desconhecendo-se quais as intenções de Sócrates quanto à primeira, ficámos ontem a saber das suas ideias sobre a segunda medida. As SCUT's deverão continuar. Ou então continuam algumas e outras não, o que só vem distorcer ainda mais a situação. Quais são as auto-estradas que terão portagens e quais é que não as terão? Como se definem os critérios para distinguir umas de outras? A interioridade? Mas que interioridade? A da Covilhã? Ou a de Beja? Complicado, não?

O melhor talvez seja Sócrates não se deixar entusiasmar em demasia com os banhos de multidão, desatando emotivamente a soltar promessas eleitoralistas e irresponsáveis, e esperar pacientemente que Vitorino lhe prepare o programa de governo. É que impulsos destes podem sair muito caros ao líder do PS (e ao país). A Sócrates, depois do triste espectáculo que Santana ofereceu ao país, exige-se mais ponderação, mais seriedade, mais sentido de estado. Principalmente, porque a imagem do pântano guterrista está ainda muito presente na consciência dos portugueses. Se é verdade que o país está frustrado com a fuga de Barroso (depois de declarar o «estado de tanga» e arrasar com a auto-estima nacional) e o trágico-anedótico intermezzo santananista, não é menos verdade que a «herança» guterrista ainda não perdeu validade junto das pessoas comuns, ainda que o défice público real tenha aumentado durante a governação de Barroso e Santana. A ideia comum que ainda prevalece é a de que estamos a sofrer os custos derivados dos erros cometidos no passado e que, agora, «isto» só lá vai com políticas corajosas que corrijam a tendência de declínio da economia nacional. A mensagem não pode, portanto, ser a de desfazer tudo o que os governos da coligação fizeram, mas sim a de corrigir o que estava errado e melhorar o que era insuficiente, tendo em vista o desenvolvimento económico do país. E é, obviamente, assumir a ruptura clara com o pior do guterrismo e que não foi (longe disso) resolvido pelo barrosismo. O despesismo. Ou o eleitoralismo... A era agora é a de um novo ismo. O responsabilismo.

1 Comments:

Blogger JAM said...

Não sei se é o caso do Sócrates, mas eu sou daqueles que defendem que os políticos, nas suas deslocações pela Europa (ocidental) deveriam viajar de automóvel. Para além de poderem comparar o nosso país real aos dos outros, permite ter uma ideia também comparativa das infrastruturas viárias dos diferentes países.
Eu que tenho quase vinte anos de “rodagem” por estradas luxemburguesas, belgas e alemãs e que venho, pelo menos, duas vezes por ano a Portugal, de carro, defendo fervorosamente as autoestradas SCUT.
A Espanha construiu uma rede invejável de “autovias” e “autopistas” e, ao atravessá-la, de Irun a Fuentes de Oñoro, só faço (porque quero) 80 km de autoestrada a pagar. O resto, são vias rápidas gratuitas todas elas melhores que a nossa A1.
Esta rede espanhola foi construida com finaciamentos do FEDER europeu, tal como julgo foram construidas as nossas SCUTS. Se foi a UE quem as pagou (estão pagas, portanto) porquê então fazer pagar os portugueses para nelas circularem?
Não haverá outros meios de arranjar financiamentos para a crise?

12:48 da tarde  

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