domingo, janeiro 30, 2005

Obsessão do dia

Chá de limão com mel.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Comutação dos factores

Um exemplo de como uma simples frase pode deturpar toda a realidade. Pacheco Pereira diz que «[s]eria mau para Portugal que Santana Lopes voltasse a ser Primeiro-ministro, mas seria péssimo que o PSD perdesse o seu papel único no sistema político português». Tá mal! Tá errado, Mestre Pereira! O que o caríssimo deveria dizer era: seria mau para Portugal que o PSD perdesse o seu papel único no sistema político português, mas seria péssimo que Santana Lopes voltasse a ser Primeiro-ministro. Isto sim é a realidade com que autor do Abrupto se deve angustiar, de acordo com a sua mui louvável preocupação com o interesse nacional. Porque como o próprio tem reiterado exaustivamente «nunca ninguém enterrou o PSD numa crise de credibilidade tão grande como Santana Lopes», nem nunca ninguém pôs tão em causa a «frase de Sá Carneiro sobre como o país deve estar à frente do partido». E o país, como o Pacheco Pereira decerto concordará, está pelas ruas da amargura, não só pela já gasta herança do guterrismo, mas também pelo barrosismo e, last but not the least, pelo inefável santanismo. Ora sendo relativamente fácil chegar a um acordo quanto à absoluta e irreversível impreparação do actual líder do PSD para a acção governativa, particularmente sensível quando o que está em causa é nem mais nem menos do que a liderança do governo, seria de esperar também alguma facilidade em reconhecer que votar contra o PSD actual é, neste momento, se quiser, um acto de patriotismo, embora eu acredite que, tal como eu, prefira chamar-lhe simplesmente um acto de responsabilidade. É que, dado o normal funcionamento da rotatividade do poder nos sistemas democráticos, é lícito esperar-se que um líder amplamente derrotado seja mais lestamente substituído que um líder que não é derrotado, ou cuja derrota não é muito evidente. E este é que é o busílis da questão, que o Pacheco Pereira tentou airosamente evitar com a comutação dos factores acima referidos. É que se o país está acima do partido, como é natural que esteja, é o interesse do primeiro que deve prevalecer, e não o do segundo. E o interesse do primeiro passa por afastar Santana Lopes da presidência do segundo tão rápido quanto possível, o que será decerto facilitado se a derrota do PSD nas próximas eleições adquirir o estatuto de histórica. E, em última análise, tal acabará por ser benéfico para o PSD. Porque sendo praticamente impossível fazer pior do que o actual governo fez, a verdade é que a próxima solução governativa do Engº Sócrates também terá o seu tempo de vida útil, o seu desgaste e o seu fim. E quando este chegar, é importante, para o PSD, mas principalmente para o país, que o seu partido tenha definitivamente enterrado o santanismo e tenha encontrado uma liderança séria e credível. Eu sei que não é fácil, mas o Pacheco Pereira, tendo habituado o país a reconhecê-lo como a voz mais independente e, muitas vezes, a mais sensata dentro do seu partido, deveria ser o primeiro a assumir que há uma travessia do deserto a fazer e que a mesma começa por não votar em Santana. Não tema, Mestre Pereira, o PSD não morrerá com uma derrota estrondosa a 20 de Fevereiro. Recuperará como o PS recuperou das derrotas sofridas ante Cavaco Silva. O importante agora é limpar a casa e, principalmente, o país.

Apagamento e apalhaçamento

A esquerda «fascista» apagava pessoas da fotografia. A sua congénere à direita é mais branda. Limita-se a apagar narizes.

A Pior Banda do Mundo

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Esta sim. A melhor banda desenhada de Portugal. De José Carlos Vasconcelos, cujo posicionamento político me é tão desconhecido quanto irrelevante...

Provavelmente a pior banda do mundo

Alguém conhece as tendências políticas dos elementos dos Delfins?

Postas de pescada

É extraordinária a quantidade de postas que estes senhores já dedicaram ao Ricardo Araújo Pereira depois de este último ter decidido apoiar o Bloco de Esquerda. Desde questionarem o seu direito a apoiar um partido político, por ser a principal referência imagética do Gato Fedorento, passando por darem-lhe lições sobre o que é o comunismo e chegando ao comentário maternalista em que se refere a certeza de que o RAP reagiria à provocação porque «é novinho» (oriundo do mais divertido dos elementos do Acidental, porque os outros até parecem ter um palminho de testa), tudo tem servido para demonstrarem a sua indignação por verem tão grande talento artístico associado à esquerda. Mas o que a mim verdadeiramente me espanta é o espanto deles. É que artistas talentosos que apoiam partidos de esquerda é relativamente comum. Já os que apoiam partidos de direita são mais escassos. A propósito de artistas (e deixo propositadamente cair o adjectivo), valha-nos Deus que nenhum blogueiro de esquerda se lembrou até hoje de zurzir contra a posição política de João Braga. Imagine-se a peixeirada...

quinta-feira, janeiro 27, 2005

O fim do Bloguítica?

Não sei quais são as razões, mas dada a forma abrupta como decorre, imagino que sejam muito fortes. A confirmar-se, é uma grande perda para a blogosfera.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

O duplo erro de Francisco Louçã

«Ninguém, e provavelmente ainda menos quem a vive, pode tolerar ser tratado com este desprezo infinito da acusação de homicídio pela sua opinião sobre uma lei».

Nesta frase, Francisco Louçã tenta emendar a mão, suavizando a polémica declaração que proferiu no debate com Paulo Portas . Nesta versão reflectida, já não se trata de alguém «não ter o direito» de falar do direito à vida por não ter filhos, mas de as pessoas que os têm serem passíveis de «provavelmente» reagirem com maior sensibilidade às acusações primárias (o adjectivo é meu) de pactuarem com o «homicídio» de fetos, provenientes da direita personificada pelo líder do PP.

Ora, apesar do cuidado que Louçã terá posto nesta frase, a verdade é que ela não satisfaz, e por uma razão muito simples, que passo a explicar com o meu próprio exemplo. Eu sou pai há quatro anos e defensor da mudança da lei da IVG há muitos mais. O facto de entretanto ter tido uma filha não me conferiu nenhuma autoridade moral especial para opinar sobre este assunto que não tivesse antes de ser pai. A minha posição é precisamente a mesma e radica, por um lado, na minha convicção de que compete à mulher decidir se quer ou não ser mãe (desde que essa decisão seja tomada num prazo clinicamente recomendável), e por outro na minha concepção do que é o direito à vida, o qual pressupõe por inerência o conceito de qualidade, ou se se preferir, dignidade dessa mesma vida. Da mesma forma, também a minha tolerância para ouvir os mais inimagináveis argumentos e insultos dessa direita evangélica não se alterou. Continuo, como então a considerá-los impróprios e hipócritas.

Portanto, se a primeira premissa estava errada, a sua justificação assenta numa segunda premissa que também está errada. O que significa que, contrariamente ao que então opinei, Louçã não só não se arrependeu do seu comentário infeliz, como ainda o reitera. Com a agravante de que agora já não se trata de um momentâneo impulso agressivo (e compreensível no calor da discussão), mas de uma convicção. Ou será que Louçã apenas não quis perder a face? É que se assim foi, está a faltar a verdade perante os eleitores, o que também é, obviamente, lamentável.

PS: Tendo sempre nutrido por Francisco Louçã uma admiração sem precedentes, quando comparada com o meu sentimento pela generalidade dos restantes actores políticos nacionais, é de facto com alguma desilusão que publico este post, mas como diria o Guterres... é a vida. É caso para dizer: no melhor pano cai... A Nódoa.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

A eterna vítima

Até o Rodrigo Guedes de Carvalho está metido na cabala. Pobre bebé que não pára de levar facadas...

Optimismo

Tudo indica que vou sobreviver ao pior dia do ano.

sábado, janeiro 22, 2005

The Gates of Delirium

Hoje estou revivalista.

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sexta-feira, janeiro 21, 2005

Ainda o combate de boxe de ontem

No Barnabé:
«Visto da esquerda, no entanto, o momento do debate foi outro – e um que entra para a divisão do "olhe que não, olhe que não" de Cunhal. Para evitar responder a uma acusação, Paulo Portas fez um longo intróito sobre a arrogância da esquerda. Instado a responder mais directamente pelos jornalistas, perdeu o fio da palavra enquanto dizia "depois desta... depois desta..." – "fuga", completou Louçã. Portas ficou calado uma eternidade televisiva, desbaratado como nunca o vi. Depois pôs o dedo em riste e disse, extraordinariamente, "não precisa de me esticar o dedo", ou algo assim. A incongruência daquela combinação simultânea do célebre dedo hirto de Paulo Portas enquanto acusava o seu adversário de lhe fazer exactamente isso, mas brilhantemente desmentido pela realização num écran dividido ao meio, foi de um efeito tremendo. Desopilante, sucinto, inesperado.»
Vale a pena ler o post completo.

Pois não havia

De facto há que dizê-lo como aqui se disse. Louçã nesses instantes esteve mal. No fundo sucumbiu à irritação que lhe deve dar (como dá a muita gente, eu incluído) ouvir Portas falar do direito à vida. Mas seja ou não irritante, o direito de falar do direito à vida é um direito que lhe assiste e não deve ser rebatido com insinuações quanto à sua orientação sexual, mas com razões de ordem ética e moral. Porque se há, para as pessoas que são contra a interrupção voluntária da gravidez, razões éticas e morais para o serem, também há razões da mesma ordem entre aqueles que propõem a sua despenalização. São precisamente essas razões que devem ser esgrimidas, e não outras. Mas quero acreditar que Louçã já estará arrependido dessa cedência ao preconceito no calor da discussão.

Humor

Depois de assistir ao debate Louçã-Portas, mudei para a SIC Radical para ver o Seinfeld. Nessa altura a minha mulher entrou na sala e disse-me:
- Ah, estás a ver o Seinfeld. Por isso é que deste aquela gargalhada há bocado...
Dei. Mas nessa altura ainda estava a ouvir o Paulo Portas...

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Francisco Louçã já ganha por 2-0

Corrijo. 3-0. José Sócrates perdeu por falta de comparência.

A mediocracia

Está quase tudo dito aqui, mas não é demais insistir.
É indecoroso, é vergonhoso e é criminoso o SAQUE que as elites políticas repetidamente fazem ao Estado. É inaceitável e inadmissível que se movam cruzadas contra o despesismo na administração pública, que se congelem os salários dos comuns funcionários públicos, que se corte no investimento público gerador de empregos ÚTEIS, que se asfixiem a economia, a ciência, a cultura, a educação ou a saúde com cortes orçamentais cegos, com o argumento de que é imperioso cumprir o PEC, para depois se desbaratar dinheiro público em empregos para os amigos.
E o que é mais chocante é que isto já se tornou um hábito, já é uma normalidade (para os próprios, claro, não para todos os outros), a que já nem a lei obsta. Já nem se tenta justificar o injustificável. Perante as acusações, apenas se argumenta que quem acusa fez o mesmo.
Mas não é verdade. Porque não é só o PS que acusa. Somos todos nós, que assistimos a este triste espectáculo, tão indignados quanto impotentes. E impotentes porque tudo se passa num plano diferente da nossa realidade (diria superior, mas francamente, esses senhores poderão ter mais dinheiro e mais poder que eu, mas não tenho dúvidas de que fico-lhes a ganhar em honorabilidade). Passa-se no plano dos partidos com vocação de poder, onde cada vez mais as regras de promoção dos indivíduos não se faz por critérios de mérito e competência políticos, técnicos e éticos, mas pelas suas capacidades de relacionamento com as pessoas certas e de intriguismo contra eventuais concorrentes.
A democracia está inquinada por esta gente sem valores morais, sem responsabilidade ética, sem sentido de Estado, gente que esqueceu ou nunca aprendeu que a política é uma actividade nobre, cujo objectivo deverá ser o de servir a coisa pública, não o de servir-se dela. A democracia transformou-se numa partidocracia, que é o mesmo que dizer-se mediocracia, porque quem manda nos partidos são os medíocres. Os outros, os que realmente têm uma estatura moral consentânea com as responsabilidades que se exigem aos detentores de cargos públicos, afastam-se da política por falta de oportunidades ou de estômago. E assim vamos caminhando, já não alegremente, porque já estamos todos por demais conscientes da gravidade da situação, mas pesarosamente para o abismo.
De facto, como diz o mais perfeito estereótipo da mediocracia, estamos a precisar de um «levantamento nacional», mas de sinal contrário ao que ele defende. Precisamos, isso sim, de dar um valente PONTAPÉ NO CÚ desta «geração» de políticos corruptos, incompetentes e indignos. Raios vos partam, abjectas criaturas!

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Do sublime ao anedótico

Se Morrissey escreve versos geniais e universais, Eastwood vomita a demência de um meio povo. Mas, enfim... Todos temos o nosso lado mais obscuro.

Invisão

Aos poucos vou perdendo o pudor. Se o blogue serve tanto para comentar a situação política como para expressar alguns dos meus estados de alma, porque não utilizá-lo também para promover o meu livro? Seja. A partir de agora, na coluna da direita, aí está ele. É um romance, chama-se Invisão e foi publicado em Abril de 2003, pelas Edições Kual. É o meu primeiro e único até ao momento. O próximo virá a seu tempo.

O descrédito

Oito dias depois da denúncia feita pelo Random Precision do caso da aposentação psiquiátrica do director da PSP, contrariamente ao que seria normal num país normal, nada aconteceu. O director da PSP não se demitiu nem foi demitido, nem há conhecimento de que tenha sido iniciado qualquer processo de investigação à junta médica que o declarou inapto para exercer a actividade de magistrado.

Se vocês fizeram, nós também podemos

O Namoro II

«Soares está a dizer qualquer coisa como: socialistas descontentes, votem no BE». (Bloguítica)

Não concordo. Até porque eu, que sou um habitual eleitor do Bloco, estou apenas à espera que Sócrates me convença de que vale a pena votar no PS para, nestas eleições, mudar o sentido do meu voto. Fá-lo-ei (insisto, se Sócrates me convencer), pelo motivo que se convencionou designar por voto útil. Continuo a acreditar nas causas e a rever-me na utopia do BE. Mas, infelizmente, os tempos não estão para utopias. A gestão dos problemas a curto prazo é, neste momento, muito mais premente do que a demanda dos ideais no longo prazo. E acredito que essa será a opinião da maioria dos portugueses. Se essa maioria é ou não absoluta depende da capacidade de Sócrates em congregar à sua volta a confiança dos portugueses (e até agora não tem sido brilhante nessa tarefa). Não depende de Soares.

O Namoro

No Bloguítica lê-se que o aplauso dado por Mário Soares ao programa eleitoral do Bloco de Esquerda é uma manifestação de namoro irresponsável. Paulo Gorjão ironiza ainda com a possibilidade de um eventual casamento entre as partes em causa.
Eu, francamente, não vejo mal nenhum no namoro, embora me pareça óbvio que o casamento estará fora de questão (mas nunca se sabe para onde pende o coração dos outros). Nem me parece que Soares seja homem para precisar de ralhetes do Paulo Gorjão (com todo o respeito, apreço e, muitas vezes, concordância que tenho pelas suas opiniões e que já tive oportunidade de lhe manifestar) ou de quem quer que seja.
Soares, do alto dos seus 80 anos e de uma vida política intensa, na qual sobressaem grandes serviços prestados ao país, sabe que já não precisa nem deve mover-se por calculismo político, mas antes tem o dever, perante os seus concidadãos, mas principalmente perante si próprio, de ser fiel à sua utopia para Portugal e para o Mundo.
O que se espera e se deseja de Soares, agora que está retirado de responsabilidades políticas activas, não é que faça o jogo eleitoral do PS, mas que aproveite a fase final da sua vida (que se deseja longa), para nos legar algo de muito maior importância que o xadrez político conjuntural: a sua ideia de sociedade ou o seu ideal de sociedade. Neste sentido, é irrelevante que seja o BE ou outro partido a apresentar as ideias que Soares também preconiza. O importante é que elas estão aí e Soares não se coíbe de as reiterar. Para nosso bem.

Voltar a acreditar?

Não sei se lhe chame soberba, sobranceria ou cobardia, mas seja qual for o adjectivo que cada um opte para o classificar, é lamentável que José Sócrates se tenha recusado a participar nos debates entre líderes partidários organizados pela SIC Notícias. A democracia faz-se de escolhas e as escolhas fazem-se da confrontação de diferentes ideias. Recusar o confronto de ideias com outros candidatos é recusar as próprias regras da democracia. E seja qual for a razão subjacente a essa decisão, ela dá um péssimo sinal de quem a toma. Neste caso, a ideia que prevalece é que Sócrates não quer lutar por merecer o poder e que está só à espera que ele lhe caia no colo. Evidentemente, para que ele lhe caia no colo, vai ter que esperar sentado...

terça-feira, janeiro 18, 2005

Diga lá, excelência...!

O próprio ficou espantado quando eu lhe atribuí o título, mas depois de uns dias de algum apagamento (que coincidiu, grosso modo, com as festividades de Natal e Ano Novo, o que parece demonstrar que no seu caso a intelectualidade não se coaduna com grandes comezainas e beberragens...), eis que ele volta em força às suas melhores prosas.

Pior que o tsunami

De 3,6 em 3,6 segundos alguém morre no mundo por falta de alimentos.
Não é a informação mais agradável para começar o dia, mas é algo em que não se pode deixar de reflectir. E é algo que põe a nú a hipocrisia de muita gente.


domingo, janeiro 16, 2005

Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente

No dia 5 de Junho de 2003, depois de uma sessão do É a Cultura, Estúpido, no Jardim de Inverno do Teatro São Luís, dedicada ao fenómeno dos blogues e depois de passar algumas horas a visitar blogues como o Gato Fedorento, o Blogue de Esquerda, O Meu Pipi, o Prazer Inculto ou a Coluna Infame, resolvi também eu criar um blogue. Chamava-se Esplendor do Caos e durou cinco dias. Afazeres vários, a perspectiva de uma mudança radical de vida para muito breve e alguma falta de imaginação levaram-me a abandonar o projecto no dia 10 do mesmo mês. O tempo passou e esqueci inclusivamente tanto o meu username como a minha password. Hoje, talvez por ser domingo, lembrei-me de o procurar. Encontrei-o e, curiosamente, voltar a vê-lo trouxe-me repentinamente à memória o username e a password esquecidos. De nada servem, porém, pois não tenciono reactivar o blogue. Mas não deixa de ser gratificante encontrar esse pequeno pedaço de passado. Olhar para o que fomos e escrevemos no passado ajuda-nos a perceber quem somos no presente. Principalmente se desde então, como aconteceu, a nossa vida parece ter-se metido por becos estreitos e ruelas sem sentido. Porque, apesar da referência que ali aparece à obra de Eduardo Lourenço, o que sucedeu desde então sugere-me muito mais a citação de Natália Correia em epígrafe.

Mais uma actualização (ou o direito à preguiça)

Hoje, talvez por ser domingo, resolvi usar algum tempo para acrescentar mais uma série de links à coluna da direita, que já conta com 70(!) blogues, o que me leva a pensar que está na altura de os organizar em secções que facilitem a procura. Mas, também por que hoje é domingo, fica para outro dia...

Qualquer semelhança entre a ficção e a realidade yada yada yada

Imagine-se que, por exemplo, a Polícia Judiciária entendia que na casa do Zé havia armas escondidas. O Zé dizia que não. O tribunal, não encontrando provas suficientes que justificassem a emissão de um mandado de busca, recusava a invasão da casa do Zé pela Polícia. Mas a PJ não se deixava ficar, arrombava a porta da casa do Zé e escaqueirava tudo na busca das tais armas. Como não as encontrasse, começava a revolver os apartamentos dos vizinhos, pondo todo o prédio em estado de sítio, importunando toda a gente, eventualmente abatendo alguns habitantes mais resistentes e prendendo e torturando outros. Entretanto, a sensação de injustiça alastrava-se a todo o bairro. As forças da polícia começavam a ser atacadas por vizinhos do prédio em frente ou do lado e, como resposta, a Directoria da PJ, mandava reforços e destruia ainda mais prédios, arruinando a vida das pessoas que moravam no bairro, com o argumento de que provavelmente as armas até estariam escondidas nessas outras casas. Ao fim de dois anos de destruição e de inúmeras mortes, a PJ, enfim convencida de que afinal nem o Zé nem os seus vizinhos possuiam tais armas, decidia que não valia a pena continuar a procurá-las e começava a planear a retirada das suas forças. Infelizmente tal retirada era agora muito complicada, pois ao fim de dois anos de estado de sítio, já não havia lei nem ordem no bairro, não havia economia que se pudesse sustentar na insegurança permanente e o bairro transformara-se definitivamente num viveiro de criminosos dispostos a tudo para boicotar qualquer tentativa de repor a ordem, que tivesse origem directa ou indirecta nas autoridades do Estado. Decidia-se que era necessária a realização de eleições democráticas para a Junta de Freguesia e começava-se a trabalhar nesse sentido, apesar de as ruas estarem intransitáveis devido às permanentes trocas de tiros, emboscadas e atentados bombistas. Mas, do ponto de vista da Polícia, era a única solução. A situação escapara-lhe ao controlo e agora só queria afastar-se dali o mais depressa possível. Assim sendo, investiu nalguns moradores locais menos dados à violência como forma de resolução de problemas, entregou-lhes armas e dinheiro e deu-lhes o estatuto de autoridade interina até à realização das eleições que legitimassem a formação de um novo executivo local. Naturalmente que estes seriam muito mal recebidos pelos locais revoltosos que os acusavam de se estarem a vender ao inimigo e decidiam dar-lhes luta sem tréguas. A situação tornava-se insustentável, mas a polícia já só queria era ir-se dali embora o mais depressa possível e não fazia qualquer inversão de rumo, até porque não sabia que mais havia de fazer. O resto da cidade cansava-se de ouvir notícias de mortes e desinteressava-se do caso. As notícias nos telejornais tornavam-se mais ténues porque a tendência das pessoas era mudarem de canal quando elas passavam. Cada vez mais o assunto só tinha interesse para quem morava no bairro. E destes, os que nunca quiseram a violência a pouco e pouco iam virando-se para quem lhes pudesse garantir a segurança, sendo já irrelevante se este fosse algum criminoso local. O importante era continuar a viver.

sábado, janeiro 15, 2005

A fiscalidade criativa

Aqui (no post Sua nota é um show) está uma boa ideia para os nossos futuros governantes.

Quem vai ao mar, avia-se em terra, certo?

Moeda de troca

É extraordinário. Jorge Sampaio pediu à China que tivesse compreensão para com as dificuldades da indústria têxtil portuguesa em competir com a chinesa. Qualquer coisa como a 2 pedir à SIC para ter compreensão com a sua dificuldade em ter audiências, esperando porventura que esta estação passe a regular a sua programação em função das audiências do segundo canal da RTP, ou o Benfica pedir ao Sporting para não se esforçar tanto para ganhar o jogo do passado fim de semana. Agora se percebe porque Sampaio se revelou tão compreensivo com o desrespeito dos direitos humanos na China. O que são as vítimas do regime chinês comparado com os nossos empresários e trabalhadores do sector têxtil? Nada mais que uma moeda de troca.

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Onde estava o critério editorial do Público neste dia?

De vez em quando o «animador de rádio» António Sala reaparece. A última vez que me lembro de o ter visto foi no consulado do condenado Vale e Azevedo naqueles idos tempos do «Benfica à Benfica». Depois foi um ar que se lhe deu. Até hoje. Até este dia em que assina um maravilhoso texto na edição de hoje do Público. Um texto da mais extraordinária eloquência que nos interroga sobre o paradeiro de Deus no dia em que «o mar vomitou as ondas da morte». Que nos diz que o inferno, «afinal não tem chamas, mas tem água». Que nos lembra que «a bocarra gigante do tsunami não é esquisita», que sapientemente nos fala dos «rugidos de morte» trazidos pelas «cólicas» do «ventre dos oceanos». Que nos choca com os «cruzamentos de morte» entre «a palidez dos suecos», «o tom negro das Áfricas e o pérola-escuro da Ásia». E que nos responde que, apesar de «naquele dia e naquela hora» não saber onde estava «Ele», sabe agora que «Ele acompanha gentes que voam meio mundo», «milhares de madres Teresas das Calcutás», «médicos que destruíram fronteiras» e, last but not the least, «moedas que saem de aparelhos de comunicação e das novas tecnologias e alimentam a vida», apenas para ajudar as vítimas do maremoto. Mas, infelizmente, a dúvida do famoso «animador de rádio» quanto ao paradouro do «Criador» naquele dia mantém-se, como o próprio diz, de «forma contraditória», pois, apesar da dúvida, Sala afirma que esta não o fez «perder a fé». Não nos aflijamos, porém, pois o António não nos deixa sem resposta. Afinal, o «Criador» é uma «presença constante» na «história humana», «como o foi por certo há dois mil anos, quando viu e ouviu o Seu Filho gritar na cruz: 'Meu Deus por que me abandonaste?'. Ou seja, nem mais nem menos do que «lá longe, milhares gritaram antes do silêncio total». Como se vê, tudo tem uma explicação. Bom. Quase tudo.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Adivinha

domingo, janeiro 09, 2005

Vale a pena ler...

Este artigo de António Barreto sobre os malefícios do sistema eleitoral vigente e os riscos e benefícios da sua transformação num sistema de eleição uninominal. Aqui fica um excerto:
«Os sistemas fechados são assim. Impedem que os interesses gerais da população se possam exprimir. Perseguem os que têm veleidades individuais e procuram distinguir-se. Servem para proteger castas e monopólios. Recusam a competição. O sistema eleitoral português é exactamente isso. Os independentes não podem concorrer. Cerca de oito milhões de portugueses não têm o direito de se candidatarem e de serem eleitos. O nome, a experiência e a responsabilidade dos candidatos são absolutamente indiferentes, apenas interessam a lista colectiva e o chefe do partido. As bases dos partidos não escolhem nada, nem ninguém, sendo os futuros deputados seleccionados pelos chefes, seus acólitos e alguns senhores do aparelho. O eleitorado não escolhe entre candidatos, escolhe um partido. Os nomeados e os eleitos podem ser substituídos em qualquer altura, naquela que é uma das maiores perversões do sistema político português.»

sábado, janeiro 08, 2005

Limpezas

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Uma amiga minha gosta de ouvir a Madonna quando limpa a casa. Como eu não limpo a casa, deve ser por isso que não gosto de ouvir a Madonna. Ainda assim simpatizo com a moça. E com a minha amiga também.

Citando

Arriscar tem a ver com confiança. Uma pessoa sem confiança vai tentar repetir, fazer igual aos outros, não cometer erros, que é uma ideia muito valorizada. Mas o erro está ligado à descoberta. É fundamental não ter medo nenhum do erro.

(Gonçalo M. Tavares)

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Como Bush planeia acabar a guerra do Iraque 42 horas antes do previsto

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Declaração de desinteresse

Sirva esta declaração para que nenhum leitor volte a entrar desprevenido nesta minha Nódoa.

Não tenho bloggado muito neste novo ano. Apesar do que, à primeira vista, o título deste post possa indicar, não o tenho feito por desinteresse pela blogosfera. A razão para o meu afastamento relaciona-se, isso sim, com a sobrecarga de trabalho que tenho tido. O título do post tem, pois, a ver com outra realidade. Ou outras realidades, que passo a discriminar.

Em primeiro lugar, a cobertura mediática do tsunami (ou do marmouto como tenho tantas vezes ouvido na televisão e fora dela). Um evento destes é verdadeiramente impressionante e não é de estranhar a onda de choque que varreu o mundo e à qual eu não fiquei imune. Mas o que basta, basta. A orgia de estórias que as televisões desenrolam à volta do acontecimento é tão desnecessária quanto pornográfica. Desnecessária, porque ao fim de vários dias repletos dos mais variados testemunhos é irrelevante continuar a ouvir o relato de pessoas que viveram in loco o maremoto. Não trazem nada de novo, não são notícia. Servem apenas para fazer render o peixe mais um pouco. E fazer render o peixe siginifica tão só explorar a sensibilidade dos espectadores mais desprevenidos perante a enormidade do acontecimento. Pornográfica, porque não contribui em nada para minorar o sofrimento das pessoas atingidas pela catástrofe, apenas o desnuda. E o explora, na busca de maior audiência. É a morte do jornalismo (principalmente do televisivo) enquanto actividade séria e nobre.

Em segundo lugar, a política nacional. A elaboração das listas, as polémicas envolvendo os dois maiores partidos. Pôncio Monteiro, Cavaco Silva ou Margarida Rebelo Pinto num. Os cromos de Matosinhos, Paulo Pedroso e Helena Roseta no outro. Sobre os primeiros dispenso-me de fazer qualquer comentário. O ridículo também cansa. Sobre os segundos, só tenho a lamentar que a arquitecta não encontre neste PS motivos para com ele se envolver. Perde o PS, evidentemente. Quanto aos outros, já não há pachorra para o folclore.

Ainda na politiquice nacional: o destaque dado pelas televisões à distribuição dos cabeças de lista por cada distrito. Mas isto interessa alguma coisa? Algum deputado eleito por um determinado distrito representa de facto esse distrito? Francamente, com a excepção do deputado limiano, nunca vi ninguém a lembrar-se do seu círculo eleitoral depois de eleito.

Em terceiro lugar, o futebol: depois de um curto período de férias, eis que volta em força, logo com um Sporting-Benfica. A televisão (não me lembro qual) entende fazer da chegada do jogador Liedson ao treino do Sporting uma notícia... (OK, já é uma situação normalizada, mas que querem? Tinha-me esquecido que era assim)

Quarto e último, por agora: estando na moda a apresentação de declarações de interesse antes de um qualquer comentário positivo sobre algo ou alguém, quero também deixar aqui bem marcada a minha posição, não no que concerne ao interesse, mas ao desinteresse. Eu abomino a generalidade das figuras do governo cessante e, muito particularmente, o primeiro-ministro, que considero um verdadeiro escroque sem a mínima competência para desempenhar qualquer, repito, qualquer cargo público. Considero mesmo que ele é a mais perfeita encarnação da mediocridade que grassa na vida política portuguesa. Mas não me fico por aqui. Devo também dizer que detesto o ex-boxeur Morais Sarmento. É-me indiferente o seu passado. O que me enoja é o seu presente. Representa para mim o político cão (pobres cães, desculpem-me a metáfora), que ladra para todo o lado, marcando a sua presença ora para indicar o caminho ao rebanho, ora para prevenir e afugentar eventuais ataques ao seu pastor. Onde a metáfora não se aplica bem é à costumeira fidelidade canina. Sarmento é ambicioso e não tardará a morder a mão do dono. Ascoroso. A ministra da educação (não recordo o nome nem acho que valha a pena o esforço): é visivelmente mal formada, arrogante, presunçosa e algo imbecil. Tivesse a humildade de reconhecer que não esteve à altura das suas responsabilidades e muito se atenuaria a má imagem que deixa. Errar é humano. Não assumir o erro é estúpido. Bagão Félix: se a sua colega é presunçosa, ele é o deus da presunção. Para a história ficará (se a história não cegar) como um mentiroso. Um exemplo da publicidade enganosa ao serviço da política. O homem honrado, católico, chefe de família (da grande família portuguesa) e benfiquista ou foi uma marioneta nas mãos de Portas e Santana (o que só o desmerece) ou é um intrujão. Paulo Portas, o gato da política ou o político das sete vidas. Sobrevive a tudo airosamente, sem uma beliscadura, mesmo quando a sua hipocrisia é tão evidente que até grita. É um fenómeno. Um rapaz tão inteligente quanto perverso. Um Mefistófeles com sonhos de grandeza. Barroso, Durão ou Zé Manel: tão petulante que apetece esbofeteá-lo. O exemplo perfeito de como a política serve mais os interesses próprios que os interesses colectivos. Cavaco Silva: a súmula da arrogância e do provincianismo. Se dúvidas houvesse de Portugal continuar a ser provinciano, aí está Cavaco para as dissipar. O mais incrível é que o nível nos últimos anos desceu tanto, que Cavaco até parece um janota. José Sócrates: ainda não me convenceu, nem sei se o conseguirá. Sei que é a única alternativa possível para ocupar o lugar de Santana Lopes. Para já dou-lhe algum crédito. Não tarda que me arrependa...

E chega, por agora. Mais havia, mas fica para outro dia. Arre, que já perdi demasiado tempo com isto.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Os esfaqueadores

Pôncio Monteiro, Cavaco Silva e Margarida Rebelo Pinto.

E o mais extraordinário é que o homem parece não ter consciência do ridículo. Definitivamente, o primeiro-ministro cessante é um caso psiquiátrico.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Como disse?

Estive a ver Os Imortais na RTP. Gostei. E tenho pena que o António Pedro Vasconcelos passe mais tempo a comentar futebol na televisão do que a fazer filmes. Mas suponho que tal não acontece por sua vontade. Tenho pena também que ainda ninguém se tenha lembrado de legendar as falas do Joaquim de Almeida.