quarta-feira, janeiro 26, 2005

O duplo erro de Francisco Louçã

«Ninguém, e provavelmente ainda menos quem a vive, pode tolerar ser tratado com este desprezo infinito da acusação de homicídio pela sua opinião sobre uma lei».

Nesta frase, Francisco Louçã tenta emendar a mão, suavizando a polémica declaração que proferiu no debate com Paulo Portas . Nesta versão reflectida, já não se trata de alguém «não ter o direito» de falar do direito à vida por não ter filhos, mas de as pessoas que os têm serem passíveis de «provavelmente» reagirem com maior sensibilidade às acusações primárias (o adjectivo é meu) de pactuarem com o «homicídio» de fetos, provenientes da direita personificada pelo líder do PP.

Ora, apesar do cuidado que Louçã terá posto nesta frase, a verdade é que ela não satisfaz, e por uma razão muito simples, que passo a explicar com o meu próprio exemplo. Eu sou pai há quatro anos e defensor da mudança da lei da IVG há muitos mais. O facto de entretanto ter tido uma filha não me conferiu nenhuma autoridade moral especial para opinar sobre este assunto que não tivesse antes de ser pai. A minha posição é precisamente a mesma e radica, por um lado, na minha convicção de que compete à mulher decidir se quer ou não ser mãe (desde que essa decisão seja tomada num prazo clinicamente recomendável), e por outro na minha concepção do que é o direito à vida, o qual pressupõe por inerência o conceito de qualidade, ou se se preferir, dignidade dessa mesma vida. Da mesma forma, também a minha tolerância para ouvir os mais inimagináveis argumentos e insultos dessa direita evangélica não se alterou. Continuo, como então a considerá-los impróprios e hipócritas.

Portanto, se a primeira premissa estava errada, a sua justificação assenta numa segunda premissa que também está errada. O que significa que, contrariamente ao que então opinei, Louçã não só não se arrependeu do seu comentário infeliz, como ainda o reitera. Com a agravante de que agora já não se trata de um momentâneo impulso agressivo (e compreensível no calor da discussão), mas de uma convicção. Ou será que Louçã apenas não quis perder a face? É que se assim foi, está a faltar a verdade perante os eleitores, o que também é, obviamente, lamentável.

PS: Tendo sempre nutrido por Francisco Louçã uma admiração sem precedentes, quando comparada com o meu sentimento pela generalidade dos restantes actores políticos nacionais, é de facto com alguma desilusão que publico este post, mas como diria o Guterres... é a vida. É caso para dizer: no melhor pano cai... A Nódoa.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

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3:33 da tarde  

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