sexta-feira, janeiro 14, 2005

Onde estava o critério editorial do Público neste dia?

De vez em quando o «animador de rádio» António Sala reaparece. A última vez que me lembro de o ter visto foi no consulado do condenado Vale e Azevedo naqueles idos tempos do «Benfica à Benfica». Depois foi um ar que se lhe deu. Até hoje. Até este dia em que assina um maravilhoso texto na edição de hoje do Público. Um texto da mais extraordinária eloquência que nos interroga sobre o paradeiro de Deus no dia em que «o mar vomitou as ondas da morte». Que nos diz que o inferno, «afinal não tem chamas, mas tem água». Que nos lembra que «a bocarra gigante do tsunami não é esquisita», que sapientemente nos fala dos «rugidos de morte» trazidos pelas «cólicas» do «ventre dos oceanos». Que nos choca com os «cruzamentos de morte» entre «a palidez dos suecos», «o tom negro das Áfricas e o pérola-escuro da Ásia». E que nos responde que, apesar de «naquele dia e naquela hora» não saber onde estava «Ele», sabe agora que «Ele acompanha gentes que voam meio mundo», «milhares de madres Teresas das Calcutás», «médicos que destruíram fronteiras» e, last but not the least, «moedas que saem de aparelhos de comunicação e das novas tecnologias e alimentam a vida», apenas para ajudar as vítimas do maremoto. Mas, infelizmente, a dúvida do famoso «animador de rádio» quanto ao paradouro do «Criador» naquele dia mantém-se, como o próprio diz, de «forma contraditória», pois, apesar da dúvida, Sala afirma que esta não o fez «perder a fé». Não nos aflijamos, porém, pois o António não nos deixa sem resposta. Afinal, o «Criador» é uma «presença constante» na «história humana», «como o foi por certo há dois mil anos, quando viu e ouviu o Seu Filho gritar na cruz: 'Meu Deus por que me abandonaste?'. Ou seja, nem mais nem menos do que «lá longe, milhares gritaram antes do silêncio total». Como se vê, tudo tem uma explicação. Bom. Quase tudo.