domingo, janeiro 16, 2005

Qualquer semelhança entre a ficção e a realidade yada yada yada

Imagine-se que, por exemplo, a Polícia Judiciária entendia que na casa do Zé havia armas escondidas. O Zé dizia que não. O tribunal, não encontrando provas suficientes que justificassem a emissão de um mandado de busca, recusava a invasão da casa do Zé pela Polícia. Mas a PJ não se deixava ficar, arrombava a porta da casa do Zé e escaqueirava tudo na busca das tais armas. Como não as encontrasse, começava a revolver os apartamentos dos vizinhos, pondo todo o prédio em estado de sítio, importunando toda a gente, eventualmente abatendo alguns habitantes mais resistentes e prendendo e torturando outros. Entretanto, a sensação de injustiça alastrava-se a todo o bairro. As forças da polícia começavam a ser atacadas por vizinhos do prédio em frente ou do lado e, como resposta, a Directoria da PJ, mandava reforços e destruia ainda mais prédios, arruinando a vida das pessoas que moravam no bairro, com o argumento de que provavelmente as armas até estariam escondidas nessas outras casas. Ao fim de dois anos de destruição e de inúmeras mortes, a PJ, enfim convencida de que afinal nem o Zé nem os seus vizinhos possuiam tais armas, decidia que não valia a pena continuar a procurá-las e começava a planear a retirada das suas forças. Infelizmente tal retirada era agora muito complicada, pois ao fim de dois anos de estado de sítio, já não havia lei nem ordem no bairro, não havia economia que se pudesse sustentar na insegurança permanente e o bairro transformara-se definitivamente num viveiro de criminosos dispostos a tudo para boicotar qualquer tentativa de repor a ordem, que tivesse origem directa ou indirecta nas autoridades do Estado. Decidia-se que era necessária a realização de eleições democráticas para a Junta de Freguesia e começava-se a trabalhar nesse sentido, apesar de as ruas estarem intransitáveis devido às permanentes trocas de tiros, emboscadas e atentados bombistas. Mas, do ponto de vista da Polícia, era a única solução. A situação escapara-lhe ao controlo e agora só queria afastar-se dali o mais depressa possível. Assim sendo, investiu nalguns moradores locais menos dados à violência como forma de resolução de problemas, entregou-lhes armas e dinheiro e deu-lhes o estatuto de autoridade interina até à realização das eleições que legitimassem a formação de um novo executivo local. Naturalmente que estes seriam muito mal recebidos pelos locais revoltosos que os acusavam de se estarem a vender ao inimigo e decidiam dar-lhes luta sem tréguas. A situação tornava-se insustentável, mas a polícia já só queria era ir-se dali embora o mais depressa possível e não fazia qualquer inversão de rumo, até porque não sabia que mais havia de fazer. O resto da cidade cansava-se de ouvir notícias de mortes e desinteressava-se do caso. As notícias nos telejornais tornavam-se mais ténues porque a tendência das pessoas era mudarem de canal quando elas passavam. Cada vez mais o assunto só tinha interesse para quem morava no bairro. E destes, os que nunca quiseram a violência a pouco e pouco iam virando-se para quem lhes pudesse garantir a segurança, sendo já irrelevante se este fosse algum criminoso local. O importante era continuar a viver.