domingo, fevereiro 27, 2005

A oposição não dorme

Levemente esbatida vai a Nódoa. A culpa é destes heroísmos. Quem se vai aproveitando da inércia por estes lados, é a figura que sibilinamente vai partindo a loiça.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Actualização da paisagem

Portugal, país de poetas envergonhados?

«O erro dos Portugueses ao longo da história literária tem sido o de subjugarem a sua vocação romântica por um racionalismo de empréstimo que vão buscar além-Pirinéus.»

(Natália Correia)

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

As Aventuras de Celestino Ventura

Podia ser o Pequeno Herói, mas não é. Celestino Ventura é um outro herói e é o protagonista da peça musical escrita por um grupo de dez pessoas, entre as quais me incluo, no âmbito de um workshop de escrita aplicada promovido pelo Teatro da Trindade. Peça essa que está actualmente em processo de montagem, sob a direcção de Cláudio Hochmann, e que será estreada presumivelmente em Abril, com um elenco de jovens actores, seleccionados também eles a partir de outras acções de formação no referido teatro. A ver, mais logo, na 2:, às 23.30, no Magazine.

Louçã perde o monopólio da superioridade moral...

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Pequeno Herói

Image Hosted by ImageShack.us

Está quase.
E está, a partir de agora, aqui. Bem como ali ao lado, no segmento dedicado ao heroísmo.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Algumas notas sobre os resultados eleitorais

BE: Merece os parabéns pelo extraordinário crescimento, mas isso também lhe aumenta a responsabilidade. O Bloco não pode continuar a ser um partido anti-sistema, na medida em que já faz parte do sistema, por escolha dos portugueses. A maioria absoluta do PS adia-lhe mais uma vez a necessidade de assumir responsabilidades governativas, mas esse dia chegará e seria positivo que, à sua chegada, os bloquistas estivessem preparados para sujar as mãos.

PP: Derrota em toda a linha. O seu líder teve, aliás, a amabilidade de fazer uma análise perfeita a tudo o que perdeu, num discurso tão emotivo quanto táctico. Poderei estar enganado, mas a anunciada saída de Portas não me convence. O político das sete vidas sobreviverá a esta hecatombe eleitoral tão airosamente quanto sempre foi sobrevivendo a todas as contrariedades políticas que teve de enfrentar. Voltará, decerto, e erguido em ombros pelos seus. De qualquer modo representou muito bem o seu papel. Fica-lhe a nódoa de ter dito que não lhe agrada viver num país (as palavras não terão sido exactamente estas, mas o sentido era semelhante) onde a esquerda radical troskista está separada por apenas um ponto percentual da democracia-cristã. Esqueceu-se de dizer que a esquerda radical marxista-leninista ficou à sua frente e que esta em conjunto com aquela valem aproximadamente o dobro do seu partido. Ou será que Lenine é menos radical que Trostky? Seja como for, o Dr. Portas tem sempre a possibilidade de emigrar para o EUA...

CDU: Jerónimo com a sua afonia e a sua versão «humana» do comunismo conseguiu inverter o continuado declínio do seu partido. É um prémio merecido para o partido que fez a campanha mais esclarecida. E fez-nos o favor de roubar o terceiro lugar a Portas...

PSD: Comentar o PSD é comentar o seu inefável líder, uma espécie de D. Sebastião da Lapa que ameaça continuar a levar o partido para o abismo. Santana Lopes não é um mero político desastrado. Ele é um caso de egocentrismo psicossomático a quem decerto faria melhor deitar-se no divã de um psicanalista do que sentar-se em qualquer cadeira do poder. As hostes sociais-democratas já começaram a agitar-se e, a bem do seu próprio partido, seria importante que para além de Marques Mendes, também Pacheco Pereira, Marcelo, Cavaco, Ferreira Leite e outras figuras históricas do PSD contribuissem activamente para acabar com esta orgia narcísica auto-destrutiva. Mas isso é lá com eles...

PS: Acabadinho de conquistar a primeira maioria absoluta da história do PS, Sócrates nem assim conseguiu empolgar alguém com o seu discurso. Chegou a ser risível a forma como os seus camaradas aproveitavam as pausas que fazia entre cada frase para lhe pontuarem o discurso com aplausos. Como se também eles estivessem programados para aplaudir, tal como Sócrates parece programado para dizer determinadas frases. Sem chama, de facto. Mas a verdade é que se Sócrates se revelar um bom primeiro-ministro isto não interessa nada. É só a embalagem. Não tarda que possamos, enfim, apreciar o conteúdo. Evidentemente, espera-se, deseja-se muito melhor.

Abstenção: Menor, portanto melhor, mas ainda assim muito alta. Mais de um terço dos eleitores continua a não encontrar razões para votar. É lamentável e seria bom que esta aparente inversão da tendência de subida da abstenção se consolidasse e evoluísse para valores ainda menores.

Jorge Sampaio: O povo deu-lhe razão. Argumentar, como fez Morais Sarmento, que a interrupção da legislatura a meio prejudicou o partido do poder, é falso e absurdo. Se houve interrupção ela coincidiu com a partida de Durão para Bruxelas e a responsabilidade deve ser assacada a este e não a Jorge Sampaio. Foi precisamente o desnorte de Santana, em oposição à relativa coerência da governação de Barroso, que desestabilizou a situação política e levou a que Sampaio fizesse a leitura que fez da mesma. Se o eleitorado sentisse que estava a ser levado pelo bom caminho, decerto que os resultados seriam outros. Quem não se lembra das condições em que emergiu o primeiro governo maioritário de Cavaco?

Eleitorado: De certo modo, a atribuição da maioria absoluta ao PS é um tiro no escuro. Sendo conhecidas e reconhecidas capacidades governativas a Sócrates, já as suas capacidades de liderança são uma incógnita. Assim, a escolha do eleitorado assemelha-se a uma aposta. Sem alternativas no centro-direita, devido ao processo auto-destrutivo em que o PSD se envolveu e ciente, por um lado, dos tempos difíceis que atravessamos do ponto de vista económico, e por outro, de como a instabilidade política contribuiu para a crise que se vive, a sua escolha pendeu naturalmente e julgo que inteligentemente para a única hipótese de estabilidade que se lhe oferecia. Se as coisas correrão bem ou não, só se avaliará mais à frente, mas que era esta a melhor solução para o chamado «centrão», era. Como se viu.

Populismo e catolicismo: Santana e Portas apelaram ao «português profundo» nesta campanha. Ao português que viveu oito séculos sob o jugo da igreja romana e, recentemente, cinquenta anos sob o jugo salazarista. Ao português que viveu quatro séculos com o sebastianismo impresso no seu código mental e até há bem pouco tempo com o mito do Império assombrando-lhe o inconsciente. A resposta que obtiveram foi a prova da emancipação dos portugueses face aos enganos com que tantas vezes se deixaram dominar. Agora ficam a saber, que quando nos quiserem conquistar terão que o fazer com os valores da modernidade. O Futebol é coisa de apito dourado, Fátima coisa da religião, não do Estado. E o Fado, felizmente, há muito que é livre...

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Três verdades

Sempre fui contra maiorias absolutas.
Nunca votei no PS em eleições legislativas.
Às vezes mudo de ideias.

Votar

Faltam dois dias para as eleições, nas quais eu, como sempre faço questão de fazer, vou participar. Embora haja um discurso mais ou menos corrente de que a elevada taxa de abstenção se deve à falta de qualidades da classe política e que o desinteresse da população é consequência directa desse facto, eu julgo que este argumento é relativamente falacioso. Relativamente, porque é indesmentível que o estado a que politicamente o país chegou é profundamente desmoralizador. Falacioso, porque remete toda a responsabilidade para a dita classe política e desresponsabiliza cidadãos adultos e conscientes que deveriam tomar o seu futuro nas mãos e assumir um papel activo, nem que fosse pelo voto em branco. Não votar é o pior que um cidadão pode fazer a si próprio. Porque equivale a assumir que o destino do país em que vive está nas mãos de uma minoria privilegiada à qual ele não pertence e que essa situação o satisfaz, ou se não o satisfaz, está pelo menos resignado a ela. Uma e outra hipótese são igualmente um sinal de derrotismo. E o derrotismo não augura nada de bom.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

O diferenciado valor das pessoas

A morte por causas naturais da Irmã Lúcia aos 97 anos de idade deu azo a que o PSD interrompesse por dois dias a sua campanha eleitoral. O homicídio de um agente da PSP de 33 anos vale um minuto de silêncio.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

O perfeito anormal

Parece mentira, mas quando confrontado com os números record do desemprego, Santana Lopes, para além de de ter classificado essa notícia como «menos boa» e, de alguma forma ter tentado desvalorizá-la com o «excelente comportamento» da inflação, ainda se deu ao trabalho de justificá-la com «a crise política que se instalou de facto há três, quatro meses». Ora, se estamos em meados de Fevereiro, pelas minhas contas, o intervalo de tempo a que se refere a criatura vai desde meados de Outubro a meados de Novembro. A decisão de Jorge Sampaio de dissolver o parlamento data de 30 de Novembro. I rest my case.

Se tu fosses um ovo kinder até te comia a prenda

Escrito no dia de S. Valentim por uma menina de doze anos num bilhetinho que pôs no cacifo de um menino com a mesma idade.

Farmacologia ou ervinhas?

Na dúvida entre a medicina convencional e as medicinas alternativas, depois de tomar o xarope para a tosse, fumo um cigarro. Meia hora depois começo a pensar que preciso de uma terceira via.

Outros textos

Os que não tinham cabimento aqui, passam a caber ali.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Cinema

Entre um deadline cada vez mais próximo e uma gripe que não há maneira de descolar, cada vez me sobra menos tempo para isto:

Image Hosted by ImageShack.us

Mas hei-de desforrar-me.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Ainda venho a tempo?

Image Hosted by ImageShack.us

Sem sombra de Cerejeira

Não sou católico, nem sequer sigo qualquer crença religiosa, pelo que a morte de Lúcia não me comove mais que a morte de qualquer pessoa comum. Admito, no entanto, que para quem seja crente e para quem acredita que as aparições em Fátima da mãe de Jesus Cristo aconteceram de facto, esta morte adquira um significado especial. Admito e aceito, evidentemente. Quem sou eu para questionar a fé dos outros? O que posso questionar é a (já habitual) orgia mediática que se desenvolveu à volta do acontecimento e o (menos habitual ou talvez não) aproveitamento político de alguns quadrantes partidários. Aliás, felizmente, neste último aspecto não estou sozinho, mas acompanhado por algumas importantes figuras da hierarquia católica nacional.

Sinal de que nestes trinta anos de democracia a Igreja portuguesa amadureceu mais do que a própria classe política? Talvez o mal não esteja todo num lado e o bem todo noutro (não será assim seguramente), mas que D. Manuel Martins e D. Januário deram uma lição de vida aos Drs. Portas e Lopes, isso deram. Já duvido é que estes infelizes a tenham apreendido. Quando a inteligência se concentra num único objectivo, é difícil libertá-la para outras compreensões. E as inteligências destes dois cavalheiros, por ora, não conhecerão decerto mais do que a obsessão do poder. E, quiçá, da glória. Da vã glória de mandar, como diria o Manoel de Oliveira. E para isso tudo vale: até invocar o nome de Deus em vão, ou senão Deste, pelo menos o de alguma beata ou santa (desculpem-me, mas não sei exactamente qual o estatuto da falecida na hierarquia canónica). Mas estes, e para continuar com exemplos do cristianismo, são os vendilhões do templo, os conspurcadores da palavra do Senhor. Deles não será o reino dos céus, nem sequer o da terra. Deles, a ser algum, será o reino dos infernos. Com algum azar, ainda nos encontraremos por lá...

Image Hosted by ImageShack.us

E se morresse o Papa? Ainda haveria campanha até sexta-feira?

Telmo Correia definiu Paulo Portas como «o melhor líder de todos os que concorrem às eleições». Parece que a concórdia entre populares e sociais-democratas já só se verifica nas questões religiosas.

domingo, fevereiro 13, 2005

Hoje

acordei assim.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

O melhor

No Fora do Mundo decorre um concurso para apurar as melhores 20 bandas portuguesas de sempre. Do concurso excluem-se os músicos a solo. Se estes fossem aceites, o meu nº 1 seria, sem dúvida, Rodrigo Leão. Se dúvidas existissem, este Cinema dissipou-as.

Image Hosted by ImageShack.us

Uma baixa de vulto

Parece que o xupacabras decidiu parar. Fico à espera que reconsidere e volte. Pode ser?

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Diz-me com quem andas

O protagonismo que Alberto João Jardim tem tido nestes primeiros dias de campanha é muito elucidativo, não acham?

Não nos metam em mais sarilhos

«Governo italiano compromete-se a cobrir o "buraco" de 180 milhões de euros no orçamento para os Jogos Olímpicos de Inverno de Turim’2006».
Que isto sirva de aviso aos «visionários» do PSD que andam a propor a candidatura de Lisboa para a organização dos Jogos Olímpicos.

Cuspir no chão

Há já alguns dias que ando para publicar isto. Sendo tão repugnante quanto ilegal o acto de cuspir no chão, é um facto que este é um daqueles costumes portugueses que de tão enraizados, dificilmente será erradicado. Que o diga aquele agente da PSP que, passando perto de mim numa viatura policial em plena cidade de Lisboa, e por certo sentindo que lhe urgia uma premente necessidade, abriu o vidro e zás, expeliu o seu indesejado escarro para a rua. A boa notícia é que não me acertou. A má notícia é que, embora ainda tivesse tentado não consegui observar a matrícula do veículo. Tivesse eu conseguido e já estaria aqui escarra...pachada.

Psicanálise blogueira

Nos dez últimos posts que publiquei, oito faziam menção a Santana Lopes, o que me fez pensar que estaria provavelmente a desenvolver uma certa obsessão. Por isso parei para reflectir e decidi que o meu próximo post haveria de ser sobre qualquer outra coisa que não a política doméstica e o inefável primeiro-ministro que temos. Pensei inclusivamente em alguns assuntos e, durante a tarde, esbocei mentalmente um texto, imagine-se, sobre supermercados. Depois cheguei a casa e outras coisas se meteram e o dito texto lá ficou nalguma gaveta cerebral à espera de melhor sorte. Assisti às notícias, ignorando tanto quanto possível a verborreia do Alberto João, o dia de não-campanha de Santana e o de campanha dos outros, mas não pude deixar de ouvir os comentários de Miguel Sousa Tavares na TVI que, devo dizer, muito me fizeram sorrir, tal a inspiração com que metralhou a generalidade dos líderes de partidos com assento parlamentar (escapou-se Jerónimo - e bem, devo também dizer que o novo líder comunista se está a sair melhor do que eu esperava, embora também ele não se escuse a fazer alguma campanha negativa perfeitamente dispensável, nomeadamente contra o BE). Porém, o meu próprio divertimento com a forma como MST arrasou as principais figuras políticas da actualidade nacional fez-me também tomar consciência (mais uma vez) de quão ridículo vai o país político. Já chegámos ao ponto de substituir o comentário político esclarecido pela mais jocosa ironia ou, quando a repugnância é tanta que já nem nos apetece rir, por expressões de desagrado tão inequívocas como esta «ﺴﺦ#๛...!» do Paulo Gorjão. E até ao sereníssimo Pacheco Pereira já ninguém cala a revolta perante a «insídia» e «falta de dignidade e de sentido de estado». E perante tudo isto, penso: afinal não estou só e porventura não estou assim tão mal. Não se trata de um comportamento obsessivo desajustado ou de alguma descompensação emocional. Trata-se tão só de não ter mais estômago para aguentar este carnaval em silêncio. Trata-se de uma revolta legítima contra este nefasto processo de pseudo-berlusconização (aqui está uma palavra que se presta a trocadilhos curiosos) da vida política portuguesa, trata-se mesmo de algum medo. Medo de que o meu país não se encontre nos tempos mais próximos e que isso lhe seja fatal. E, dada a precaridade das minhas próprias condições de sustento, medo do futuro próximo da minha família.

PS: MST foi particularmente duro com Durão Barroso. Não me recordo exactamente do epíteto que lhe colocou, mas era qualquer coisa como «político banal» ou «fútil». De acordo, mas porque não acrescentar-lhe «inútil»? Porque, bem vistas as coisas, qual foi ou é a utilidade de Barroso para o país? Tomou-lhe as rédeas, após a (inesquecível!) fuga de Guterres, com promessas de um choque fiscal que assumiu a polaridade inversa à enunciada, estrangulou a economia para conter o défice (mas não reformou a Administração Pública nem estancou o aumento da despesa), assumiu um projecto para dez anos e ao fim de dois pôs-se também a andar, deixando-nos um incompetente no seu lugar e as contas públicas em descalabro. Se Santana representa uma página negra na história da nossa democracia, poderá pelo menos ter um mérito: o de nos prevenir contra «vendedores de automóveis em segunda mão», como lhe chamou MST, ou o de nos levar, enfim, a reagir contra a profunda degradação da política. Já Barroso não serviu para nada. Tal como Guterres, foi apenas mais um equívoco.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

As moscas

Não sei se é do jornalismo que pega no que não interessa, ou se o mal radica, de facto, nos políticos, mas a verdade é que a campanha eleitoral que ainda agora começou não augura nada de bom. Sendo óbvio que urge dar a Santana uma coça eleitoral que o erradique definitivamente de qualquer cargo público, não é nada óbvio que a única alternativa para o substituir seja realmente uma boa opção. Pior não será, evidentemente. Aliás, só pode ser melhor. Mas será suficientemente melhor? É que nivelando a campanha por baixo (pelo nível de Santana), o PS, longe de se afigurar como uma alternativa credível, leva-me a temer o pior. Que, mais uma vez, assistamos apenas a uma mudança de moscas.

sábado, fevereiro 05, 2005

Quando é que isto acaba?

Como lembra o Possidónio, de facto, já enjooa andar sempre a rebater os mesmos assuntos. Já sinto falta de alguma normalidade.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

A certeza e a dúvida

Não restam dúvidas. Santana é um político suicidário. Já não falo da questão do boato, onde só quem não quer não vê a intencionalidade do dirigente do PSD em colar a Sócrates a imagem de homossexual e de, por oposição, arvorar-se em modelo masculino «superior», com o rídiculo a que assim se expõe. Falo dos cartazes. Do sabermos quem é este e não sabermos quem é aquele. Até aí, Santana dispara sobre si mesmo. Porque é precisamente por sabermos quem ele é que não o queremos. E é por não conhecermos bem Sócrates que lhe podemos dar o benefício da dúvida. Enquanto Santana já provou que não presta para primeiro-ministro, de Sócrates ainda não o sabemos, o que, se exclui o primeiro do leque de opções, não exclui o segundo.

O carnaval mais longo das nossas vidas

Não tendo do debate assistido a muito mais que as declarações finais de cada um dos oponentes, não só não votei (bom, a verdade é que não o faria em qualquer circunstância) na dita consulta da SIC, como não posso, por razões óbvias, ter qualquer veredicto sobre o combate. Exceptuando as citadas declarações (em que Sócrates me pareceu muito mais forte que Santana), fiquei-me então pelos comentários do painel da SIC Notícias, onde para além do ignóbil (*) Delgado, não houve mais ninguém que se pronunciasse pela vitória do ainda (mas só faltam 16 dias) primeiro-ministro. Até prova em contrário, valem-me pois estas opiniões.

Quanto ao resto do que vi, a coisa parece-me quase inacreditável. Desde a flash-interview na sala de (des)caracterização à entrevista no exterior a um senhor que não percebi quem era, mas que comentou a performance televisiva de Santana como não tendo sido uma das suas melhores, tudo se assemelhou fielmente às insuportáveis coberturas televisivas de um qualquer Sporting-Benfica ou Benfica-Porto ou qualquer outro evento futebolístico de mediatismo equivalente. Melhor que isto só mesmo a entrevista que o ex-ex-futebolista Jorge Cadete deu à saída do curral da Venda do Pinheiro. Perante uma multidão de desempregados mentais de longa duração vítima de um ataque de histeria sincronizada, e em resposta à pergunta do rapazola que por lá andava de microfone na mão sobre o que pensava ele daquilo (da reacção ululante da multidão à sua saída), Cadete considerou que tal se devia à sua boa prestação dentro da casa...

Pois. É mais ou menos a mesma coisa. Os protagonistas é que não são tão broncos. Ups... Sem querer, acabei de fazer, pela primeira vez na vida, um elogio a Santana Lopes. Mas, pronto. Siga. As verdades são para se dizer. Repita-se, para que não restem dúvidas. Santana Lopes não é tão bronco quanto Jorge Cadete. É menos bronco que Jorge Cadete. Digamos que Jorge Cadete é muito bronco, enquanto Santana é apenas bronco. Pronto. Está dito.

Bom. E com isto perdi-me no meu raciocínio. Onde é que eu ia? Estava a falar de caracterização? Ou de descaracterização? De política ou de circo? De debate ou de arraial? Bolas. Já não me lembro...

Maldita folia que nos come o pensamento...

(*) Eu sei que é feio, desagradável e pouco ético insultar os outros desta forma, mas este adjectivo e o nome próprio que se lhe segue são foneticamente tão compatíveis que não o consegui evitar. Além disso, está perfeitamente em conssonância com o estilo da época.

Foi você que falou em mega-fraude?

A SIC decidiu perguntar aos telespectadores quem, na opinião deles, terá vencido o debate Sócrates-Santana. A participação é simples. Basta fazer uma chamada com o custo de 60 cêntimos. A última informação a esta hora, depois de recebidas cerca de 34 mil chamadas é a de que Santana vai à frente com 71% das preferências. Mais palavras para quê? Aqui está uma sondagem que para os lados da Lapa, terá decerto o rigor científico que faltava às que a antecederam.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Eufemismo do dia

«O papa já não é exactamente muito jovem».
(Teresa Canto Noronha, SIC)

Em terra de cegos

É extraordinário, mas é verdade. Quando comparado com Santana, até Portas parece um grande estadista.

Santana strikes back

O Monstro

Sem ponta de ironia, devo dizer que lastimo a posição em que se encontram muitos sociais-democratas, militantes ou simples eleitores do PSD. Mas também aqui há que não escamotear responsabilidades. Não vale a pena sacudir a água para cima do capote de Barroso, porque não é este o único culpado. O que agora sucede no PSD é fruto de um continuado erro de avaliação das reais capacidades de Santana. Este não é um Frankenstein subitamente fabricado pelas cúpulas do partido, mas produto de um continuado trabalho do próprio de conquista de espaço político, que culminou com a sua ascensão a número dois do partido. A saída de Barroso para Bruxelas apenas despoletou uma situação que seria previsível mais tarde ou mais cedo. O monstro foi criado pelo partido. Não vale a pena agora carpir as mágoas em artigos sobre a crise de representação que os atinge se tal não for acompanhado por acções concretas. Construiram o monstro? Destruam-no.

Assumir a responsabilidade

Nestes estranhos dias que vivemos, há uma dúvida que quaisquer ouvidos atentos podem captar nas conversas de rua. Consiste ela na anunciada derrota de Santana. E quem a manifesta, normalmente fá-lo com alguma preocupação, com o real receio de que, afinal, o homem até consiga evitar o que parece inevitável. Será o nosso eterno fatalismo, a tendência que temos para nos sentirmos talhados para todas as grandes desgraças que levará a que esta dúvida ainda subsista? Talvez, mas não só. Parece-me que há aqui também uma grande dose de falta de auto-confiança. E de auto-estima. Continuamos a ter dúvidas sobre a nossa capacidade de tomarmos o nosso destino nas mãos e sobre a capacidade de tomarmos as decisões certas. Continuamos a não confiar em nós próprios ainda que disfarcemos essa desconfiança atribuindo-a aos outros. Mas quem são os outros senão o prolongamento de nós? Atribuir a responsabilidade de uma eventual vitória de Santana a 20 de Fevereiro aos outros não passa de uma desresponsabilização de nós próprios. Porque todos somos responsáveis e é absolutamente imperioso que assumamos essa responsabilidade. Votando e persuadindo os que nos são próprios a votarem também. Independentemente do sentido do voto de cada um. Quanto a mim, julgo que isso basta para que Santana no dia 20 perceba o que todos já percebemos. Que o seu futuro político não existe. E que o seu passado político ficará na história, sim, mas na secção do anedotário.