quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Psicanálise blogueira

Nos dez últimos posts que publiquei, oito faziam menção a Santana Lopes, o que me fez pensar que estaria provavelmente a desenvolver uma certa obsessão. Por isso parei para reflectir e decidi que o meu próximo post haveria de ser sobre qualquer outra coisa que não a política doméstica e o inefável primeiro-ministro que temos. Pensei inclusivamente em alguns assuntos e, durante a tarde, esbocei mentalmente um texto, imagine-se, sobre supermercados. Depois cheguei a casa e outras coisas se meteram e o dito texto lá ficou nalguma gaveta cerebral à espera de melhor sorte. Assisti às notícias, ignorando tanto quanto possível a verborreia do Alberto João, o dia de não-campanha de Santana e o de campanha dos outros, mas não pude deixar de ouvir os comentários de Miguel Sousa Tavares na TVI que, devo dizer, muito me fizeram sorrir, tal a inspiração com que metralhou a generalidade dos líderes de partidos com assento parlamentar (escapou-se Jerónimo - e bem, devo também dizer que o novo líder comunista se está a sair melhor do que eu esperava, embora também ele não se escuse a fazer alguma campanha negativa perfeitamente dispensável, nomeadamente contra o BE). Porém, o meu próprio divertimento com a forma como MST arrasou as principais figuras políticas da actualidade nacional fez-me também tomar consciência (mais uma vez) de quão ridículo vai o país político. Já chegámos ao ponto de substituir o comentário político esclarecido pela mais jocosa ironia ou, quando a repugnância é tanta que já nem nos apetece rir, por expressões de desagrado tão inequívocas como esta «ﺴﺦ#๛...!» do Paulo Gorjão. E até ao sereníssimo Pacheco Pereira já ninguém cala a revolta perante a «insídia» e «falta de dignidade e de sentido de estado». E perante tudo isto, penso: afinal não estou só e porventura não estou assim tão mal. Não se trata de um comportamento obsessivo desajustado ou de alguma descompensação emocional. Trata-se tão só de não ter mais estômago para aguentar este carnaval em silêncio. Trata-se de uma revolta legítima contra este nefasto processo de pseudo-berlusconização (aqui está uma palavra que se presta a trocadilhos curiosos) da vida política portuguesa, trata-se mesmo de algum medo. Medo de que o meu país não se encontre nos tempos mais próximos e que isso lhe seja fatal. E, dada a precaridade das minhas próprias condições de sustento, medo do futuro próximo da minha família.

PS: MST foi particularmente duro com Durão Barroso. Não me recordo exactamente do epíteto que lhe colocou, mas era qualquer coisa como «político banal» ou «fútil». De acordo, mas porque não acrescentar-lhe «inútil»? Porque, bem vistas as coisas, qual foi ou é a utilidade de Barroso para o país? Tomou-lhe as rédeas, após a (inesquecível!) fuga de Guterres, com promessas de um choque fiscal que assumiu a polaridade inversa à enunciada, estrangulou a economia para conter o défice (mas não reformou a Administração Pública nem estancou o aumento da despesa), assumiu um projecto para dez anos e ao fim de dois pôs-se também a andar, deixando-nos um incompetente no seu lugar e as contas públicas em descalabro. Se Santana representa uma página negra na história da nossa democracia, poderá pelo menos ter um mérito: o de nos prevenir contra «vendedores de automóveis em segunda mão», como lhe chamou MST, ou o de nos levar, enfim, a reagir contra a profunda degradação da política. Já Barroso não serviu para nada. Tal como Guterres, foi apenas mais um equívoco.

1 Comments:

Blogger Rita said...

Há coisas que me abstenho de comentar - suponho que já sabes quais são!

Fica a nota que te acho diferente: mais solto no que dizes, perdão, escreves.

Relativamente à psicanálise, não te preocupes, pois acho que estás bem.

Ri-me muito com este teu post. Obrigada! :)

Pena isso da precaridade.

Suponho ter ouvido falar de um projecto de uma livraria...

Espero que corra bem!

Até breve (é sempre um prazer)!

10:39 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home