segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Sem sombra de Cerejeira

Não sou católico, nem sequer sigo qualquer crença religiosa, pelo que a morte de Lúcia não me comove mais que a morte de qualquer pessoa comum. Admito, no entanto, que para quem seja crente e para quem acredita que as aparições em Fátima da mãe de Jesus Cristo aconteceram de facto, esta morte adquira um significado especial. Admito e aceito, evidentemente. Quem sou eu para questionar a fé dos outros? O que posso questionar é a (já habitual) orgia mediática que se desenvolveu à volta do acontecimento e o (menos habitual ou talvez não) aproveitamento político de alguns quadrantes partidários. Aliás, felizmente, neste último aspecto não estou sozinho, mas acompanhado por algumas importantes figuras da hierarquia católica nacional.

Sinal de que nestes trinta anos de democracia a Igreja portuguesa amadureceu mais do que a própria classe política? Talvez o mal não esteja todo num lado e o bem todo noutro (não será assim seguramente), mas que D. Manuel Martins e D. Januário deram uma lição de vida aos Drs. Portas e Lopes, isso deram. Já duvido é que estes infelizes a tenham apreendido. Quando a inteligência se concentra num único objectivo, é difícil libertá-la para outras compreensões. E as inteligências destes dois cavalheiros, por ora, não conhecerão decerto mais do que a obsessão do poder. E, quiçá, da glória. Da vã glória de mandar, como diria o Manoel de Oliveira. E para isso tudo vale: até invocar o nome de Deus em vão, ou senão Deste, pelo menos o de alguma beata ou santa (desculpem-me, mas não sei exactamente qual o estatuto da falecida na hierarquia canónica). Mas estes, e para continuar com exemplos do cristianismo, são os vendilhões do templo, os conspurcadores da palavra do Senhor. Deles não será o reino dos céus, nem sequer o da terra. Deles, a ser algum, será o reino dos infernos. Com algum azar, ainda nos encontraremos por lá...

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1 Comments:

Blogger PF said...

Reflexão madura. Gostei.

11:06 da tarde  

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