quinta-feira, março 10, 2005

Duas americanas em Lisboa

Trabalhar numa livraria na Graça é particularmente engraçado. Por muitas razões. Porque o bairro consegue ser simultaneamente cosmopolita e tradicional, porque as pessoas, regra geral, são afáveis e porque a área de actividade em si tende a atrair pessoas interessantes.
Hoje entrou-me uma americana de meia idade, não uma nem duas, mas três vezes, na livraria, a última das quais acompanhada de uma sua compatriota um pouco mais velha. Embora eu não tivesse o que ela procurava inicialmente (o Fernando que aparece estampado em t-shirts nas lojas de souvenirs, mas editado em livro e em edição inglesa - e que era, claro, o Fernando Pessoa), conversámos longamente sobre diversos assuntos. Falei-lhe de Lisboa, da Graça, da história do Botequim e ela revelou-me que Portugal está na moda nos States, enquanto destino turístico e que pensava seriamente na hipótese de viver em Portugal durante um ano (hipótese que, aparentemente, tinha apenas como contra-indicador a dificuldade da língua). Por fim, quando quase nos preparávamos para nos despedir, ela resolve-se a perguntar o que penso eu de Bush. Eu sorrio e pergunto-lhe se ela quer mesmo ouvir a resposta, ao que ela responde peremptoriamente que sim. Matreiramente, digo-lhe que lhe darei uma resposta diplomática: que preferia Kerry. Não era preciso. A amiga já me perguntava se eu achava o presidente norte-americano retarded. Enfim, a Veronika (nome da primeira americana) procura esclarecer-me que muitos americanos, incluindo elas, não tinham votado em Bush. Como que pedindo desculpa. Eu, evidentemente, libertei-as de imediato de qualquer responsabilidade. Poderia ter falado de Santana, mas não seria um bom exemplo, porque este não foi eleito. Limitei-me a dizer que conhecia os resultados das eleições e que sabia que há muitos americanos que não se reveêm de todo na Administração republicana. Mas, no fim, ficou-me uma pincelada de tristeza na alma. Não muita nem por muito. Apenas por ver duas cidadãs americanas com vergonha do seu país. Ou talvez não só por isso. Talvez, ainda mais que isso, por ver três cidadãos do mundo, eu incluído, com vergonha dele, do mundo.