terça-feira, março 22, 2005

A hirta mola de Paulo Portas

A natureza própria é como uma mola. Podemos, com objectivos tácticos, dobrá-la, apertá-la ou distendê-la como um harmónio. Mas, tarde ou cedo, ela recuperará a sua posição original, a sua posição natural. Depois do inqualificável episódio da fotografia, se dúvidas restassem quanto ao idiota de tal façanha, foram desfeitas pelo soez ataque que Portas dirigiu a Freitas no Parlamento. Portas não é nem nunca poderia ser um estadista responsável, não por lhe faltarem dotes oratórios ou inteligência política, mas porque a sua natureza mantém-se inalterável desde os tempos em que dirigiu O Independente. O que o seu comportamento de então e o de agora revelam é que toda a sua manobra política no entremeio de ambas é meramente táctica, manifeste-se ela pelo boné das feiras ou pelos ares cinzentões da pose de estado. Afastado de objectivos políticos a curto prazo, Portas não resiste à blague, à baixa política, à ofensa pessoal para denegrir e vilipendiar os seus adversários. No fim de contas, Portas, como Santana, é uma fraude, divergindo deste apenas por ser mais inteligente, assim conseguindo manter-se à tona de água mesmo que à sua volta já só haja lodo. Mas a inteligência por si só não chega para ocultar o edipiano instinto de matar o pai. E é aqui que Portas revela toda a sua fraqueza. Toda a fragilidade da sua personalidade. Ou toda a força que mantém a sua mola esticada.