sexta-feira, março 18, 2005

Lost in Translation

Há coisas que durante anos nos enervam, nos irritam, nos confrangem, nos levam ao desejo adolescente de fazer uma revolução que, de ontem para hoje, acabe com elas e com todas as outras que como essas nos eriçam o pêlo de susceptibilidade e de hiper-sensibilidade perante a ignomínia que se atenta contra a inteligência. E durante anos calamo-las, nem sabemos bem porquê. Talvez por esta indulgência de se ser português, esta passividade com que observamos a realidade que nos circunda, como se não nos pertencesse. Seja pelo que for, a verdade é que, muitas vezes, os anos vão passando e nós, de tão habituados a conviver com uma realidade gritantemente absurda, acabamos por aceitá-la, resmungando contra ela alguns grunhidos privados, mas não mais que isso. Quando a estupidez nos envolve e nos abraça, nós já nem nos damos ao trabalho de lhe mostrar a nossa repulsa, encolhemo-nos apenas e escapamo-nos sorrateiramente ao seu abraço com qualquer fútil pretexto que dela momentaneamente nos desvie a atenção. Até que um dia, alguém ousa dar um grito à nudez do rei e nos acorda deste tão longo entorpecimento, não da razão, mas da capacidade de a afirmar. Alguém que diz o que sempre pensámos com a maior das revoltas. Que quem quer que seja que traduz para português os títulos dos filmes estrangeiros exibidos no nosso país deve ser imediata, irreversivel e metaforicamente fuzilado! Amen!

2 Comments:

Blogger PF said...

Ora nem mais. Mas há casos em que o original, felizmente, sobrevive à "tradução". Haverá alguém que chame "A mulher que viveu duas vezes" ao "Vertigo" do mestre Hitch?

11:50 da manhã  
Blogger Rita said...

Ele há títulos verdadeiramente aberrantes... um deles, como já falámos, a versão portuguesa do, precisamente, Lost in Translation. :)

6:52 da tarde  

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