quarta-feira, junho 29, 2005

Fim do espaço publicitário

Esteve por ali algum tempo. A intenção era, simplesmente, promover o que o ocupava. Mas a verdade é que já há algum tempo que me chateava ver aquilo por lá. Por isso, mandei-o embora.

É difícil

E às vezes apetece mandar tudo às urtigas. Mas quando a desistência é tanta que chega a ser consistente, percebe-se que nada mais há a fazer do que insistir.

Respirar

Em tempos em que os nossos ares nem sempre são respiráveis, é de realçar este segundo aniversário. Parabéns!

terça-feira, junho 28, 2005

Só para lembrar que

o desafio não está esquecido. Não tem havido é a disponibilidade (não o tempo que esse nunca há e sempre há).

O fogo de artifício

é sempre um espectáculo bonito de se ver. Mas nenhum fogo de artifício, por muito elaborado e dispendioso que seja, alguma vez há-de ultrapassar o que vi (em 1977? 1978?) nos céus de Manama. O espectáculo passava na televisão, mas fomos todos para o jardim, onde se via muito melhor...

segunda-feira, junho 27, 2005

O que é que tem o Barnabé

que já não é diferente dos outros?

Post escrito na esperança de que haja algum editor de algum semanário publicado ao Sábado e chamado Expresso que o leia e a seu propósito se lembre...

...de me contratar para assinar alguma das muitas colunas estéreis que maioritariamente o ocupam (é que há casos...)

Normalmente cria-se um blogue porque se pretende escrever nele e nele mostrar-se a outros o que se escreve. Ao fim de algum tempo, porém, esse acto, algures na fronteira entre o narcisismo e o altruísmo, transforma-se numa espécie de obrigação. Ao princípio não se tem consciência disso. Empolgamo-nos em escrever diariamente e diariamente pensamos no que poderemos escrever no blogue. Ao fim de algum tempo, se tivermos azar, vem então a consciência. A consciência de que já passámos a fase em que escreviamos no blogue e de que entrámos na fase em que actualizamos o blogue. Essa consciencialização, se for aguda, traz ainda inerente uma outra, a de que a febrilidade com que actualizamos o nosso blogue corresponde aos mecanismos mediáticos que, inadvertidamente, interiorizámos, ou seja, aos mecanismos que fazem com que a comunidade jornalística produza diariamente notícias (ou opiniões) que, sem esse impulso vertiginoso, dificilmente poderiam ser consideradas como notícias (ou opiniões) dignas de um mínimo de interesse. Significa isto que um blogue pode, por descuido, inépcia ou a mais completa inconsciência transformar-se numa cópia mal amanhada do pior dos pasquins (ou até do melhor - nos dias que correm as muitas promiscuidades do mundo têm resultado em alguns equívocos muito interessantes). E, sejamos honestos, não é nada difícil encontrar exemplos destes na blogosfera, tanto nos blogues mais obscuros quanto nos mais mediáticos. É claro que isto pode ser relativamente amenizado se os blogues forem colectivos. Nestes casos é muito mais fácil dosear a propensão para o disparate. Baste que o sujeito em dia disparatado se cale, dando o tempo de antena ao sujeito inspirado. Por outro lado, nos blogues colectivos a coisa pode também assumir uma gravidade muito maior. Sendo certo que todos somos capazes do sublime e do atroz, é também verdade que muitos de nós não sabem distinguir um do outro e que muito facilmente os confundimos. Na pior das hipóteses, é perfeitamente possível, e não tão improvável como se poderia pensar, que num mesmo dia todos os elementos de um blogue colectivo afinem pelo disparate. Ora, como é evidente, isto resulta numa elevação do disparate a uma potência de valores incalculáveis e, pior, é capaz de produzir efeitos proporcionalmente indesejáveis, o maior dos quais não será, decerto, uma irresistível vontade de entoar cânticos em modos gregorianos com o nariz enfiado dentro da retrete. Adiante. Tudo isto vem, na realidade, a propósito de muito pouco e esse muito pouco é a consciência absolutamente lúcida do autor deste blogue e deste post de que não tinha muito que dizer (e estou a ser complacente comigo mesmo, porque, no fundo no fundo, não fosse o meu cego narcisismo, poderia perfeitamente dizer que não tinha absolutamente nada para dizer) e de que não queria, apesar disso, deixar de actualizar o blogue. Fi-lo com algum altruísmo, é certo. Afinal, ainda há algumas almas que cá vêm diariamente. E se vêm é porque esperam encontrar novidades. Mas, porra... há que ser honesto. Também tenho alguma vaidade nisto... É que dessas poucas almas, algumas haverão que lerão este post até ao fim, mesmo que no fim percebam que foram enganadas e que, na realidade, ele não diz nada de verdadeiramente interessante... (pois é, pois é, lamento dizê-lo).

Mas agora a sério... A única coisa que, no meio disto tudo, realmente me chateia, é que não me pagam para escrever disparates... E, no entanto, a avaliar por muito do que por aí se lê, eles até estão em alta. Sendo assim, o que é que me faltará para ser um disparador de disparates bem pago?

quinta-feira, junho 23, 2005

Um blogue depressivo com excesso de vírgulas

De vez em quando foge-nos a boca para a verdade. A mim aconteceu-me ontem. Alguém me disse que tinha vindo visitar A Nódoa. Eu, quase me desculpando, disse que isto era um blogue um bocado depressivo, um sítio onde eu venho descarregar as minhas mágoas contra o mundo. Disse-o impulsivamente. Nunca o tinha pensado antes. Mas agora que penso nisso, percebo que, inadvertidamente, consegui, enfim, identificar a substância do meu próprio blogue. E não só consegui isso, como ainda consegui perceber porque é que não o actualizo com uma frequência muito exaustiva. É que, apesar de tudo, não estou deprimido todos os dias. E isso é bom. A parte má é eu continuar com dúvidas sobre os locais em que devo colocar as vírgulas. Por exemplo: inadvertidamente vírgula consegui vírgula enfim vírgula; Não será demais? Qualquer dia começo a escrever sem vírgulas algumas...

sábado, junho 18, 2005

Quem ganhou? Quem ganhou?

Arrastão - 500
Manif Racista - 400

sexta-feira, junho 17, 2005

Portugal e os mouros

Para a grande História, aquela que vem nos livros, talvez fique o acto de dissolução do parlamento levado a efeito por Jorge Sampaio. Para a pequena história, aquela que nem sequer cabe nas notas de rodapé dos mesmo livros, ficará a visita que o chefe de Estado fará amanhâ à Cova da Moura. Nas circunstâncias actuais, podendo parecer um pequeno acto, é um grande acto. Um acto que, a fazer escola, pode ter mais repercussões positivas no nosso futuro colectivo que quaisquer medidas policiais. Assim seja...

quarta-feira, junho 15, 2005

A nódoa

Não gosto de viver num país, onde a inépcia e corruptabilidade da classe dirigente permite que se verifiquem fenómenos gritantes de injustiça social.
Não gosto de viver num país à beira da falência, mas em que os ricos mantêm todos os seus privilégios.
E não gosto de viver num país que se integra num continente dirigido por uma comissão presidida por um dos responsáveis pelo estado a que chegou este país.
Não gosto de viver num país (nem num continente) que em vez de envolver os cidadãos na sua construção, os explora e os rouba, em proveito de alguns poucos.
Não gosto de viver às ordens de uma suposta elite de iluminados que nos diz o que devemos fazer, como nos devemos comportar e a quem devemos pagar os nossos impostos, contribuições e multas.
Porque é este país, todo arrumadinho nas sua aparência bem comportada, que permite que centenas de miúdos assaltem e agridem outros cidadãos na praia.
E é este país, todo cheio de boas intenções, que permite que se convoquem manifestações fascistas contra os imigrantes.
Este país está doente. Muito doente. E, como parte integrante deste país, também a mim me dói.

terça-feira, junho 14, 2005

Ética

«MORREU EUGÉNIO DE ANDRADE
Quem ama a poesia sabe o quanto se perde com a morte de Eugénio de Andrade.
A homenagem da editora...»

Escuso-me a mencioná-la. Digo apenas que este texto foi enviado hoje numa newsletter de uma editora portuguesa, com sede no Porto. Uma editora que durante a recente feira do livro vendeu livros directamente ao consumidor, a preços mais baratos do que o faz aos próprios livreiros. Uma editora para a qual a ética parece não existir. Uma editora que, apesar de tudo, tem vergonha de ser como é, porque se não tivesse, assumia abertamente o quanto GANHA com a morte de Eugénio de Andrade.

segunda-feira, junho 13, 2005

Paradoxos

Festejo o Santo António, mas não gosto do seu catolicismo.
Admiro Cunhal, mas não gosto da sua política.
Respeito Andrade, mas não gosto da sua poesia.
A vida, toda ela, é feita de paradoxos. Não é difícil ver-nos cair neles. Nem é difícil apanhá-los nos outros. É por isso que, tantas vezes, as discussões acaloradas, em que cada um defende inapelavelmente a sua posição, são totalmente inúteis.

quarta-feira, junho 08, 2005

A ler

terça-feira, junho 07, 2005

A vergonha

perdida.

Instrumental

TENHO VONTADE DE ME EMBEBEDAR NA VERTIGEM DO MUNDO E DE CLAMAR TAMBÉM PELO FIM DA ORDEM DAS COISAS.
TENHO VONTADE DE MAIS NÃO TER QUE PENSAR, DE MAIS NÃO TER QUE SORRIR OU DE DIZER SIM.
APETECE-ME GRITAR BEM ALTO QUE SE FODA O MUNDO E AS SUAS CONCEPÇÕES SUBTERRÂNEAS.
ABRIR A PORTA E SAIR.
E NÃO VOLTAR.

Crise

Não tenho um modo perfeito de pôr as coisas. Não apenas por elas serem tão voláteis, mas também pela minha profunda incompetência para as resolver. Há anos que escrevo textos, alguns fugazes e dispersos, outros mais aprofundados e densos, mas por muito ou por muito pouco que escreva nunca deixo de ter a mesma angústia em frente ao monitor vazio. Nem deixo alguma vez de me questionar sobre a utilidade das palavras que uso. Nada de novo. O pior é quando me sento e, tentando escrever, percebo que já não o sei fazer de todo. Quando tenho que pensar várias vezes antes de colocar uma frase, para perceber se os elementos que a compõem fazem sentido. Quando já não sei onde pôr as vírgulas. Quando sinto que estou a reescrever pela milionésima vez a mesma oração. Quando me apercebo de que estou sempre a escrever em espiral e já não sei se me movo para dentro ou para fora.

Desfraldando a blogosfera

Sempre se vai sorrindo.

Democracia?

A democracia tem que ser mais do que colocar votos nas urnas de quatro em quatro anos.
A democracia tem que garantir a todos os cidadãos o acesso a uma educação de qualidade, a formação profissional adequada, ao pleno emprego, a bons serviços de saúde, a uma vida digna.
A democracia que temos não é uma verdadeira democracia. E não o é apenas por não cumprir qualquer dos requisitos acima enunciados.
Não o é também, porque o mais elementar dos preceitos - o voto - não tem qualquer substância. Porque as promessas eleitorais não têm qualquer validade. Porque são irrelevantes os programas eleitorais, na medida em que se tratam apenas de um isco para captar os eleitores. Porque o voto, cada vez mais, serve para escolhermos quem não queremos sob nenhum pretexto, e não para escolhermos quem de facto queremos.
Em suma, se hoje temos Sócrates, não o temos por o querermos. Temos Sócrates, porque não queriamos Santana.

Uma nação suicida

«Os acidentes de viação nas estradas portuguesas já provocaram 461 mortos, 1.347 feridos graves e 16.981 ligeiros entre 1 de Janeiro e 5 de Junho, um aumento de 13 mortes face a igual período em 2004».
E perante este comportamento a principal resposta das autoridades é o aumento das multas. Só não lhes é indiferente que os portugueses tenham vontade de se matar, na medida em que isso possa contribuir para aumentar as receitas do Estado. Se ao invés deste comportamento desviante, os portugueses optassem por se suicidarem de formas mais convencionais, não tardaria que o Estado se lembrasse de taxar as famílias dos suicidas. Basta pensar na atitude fiscal que o Estado tem para com esses lentos suicidas que são os fumadores, para se perceber o seu desprezo pelos cidadãos.

segunda-feira, junho 06, 2005

A essência

E sempre, esta sensação de que nunca mudei...

Lição de vida

A vantagem de se viver à beira do abismo é a relativização do mal. Perante a iminência da queda, toda a agressão que não nos derrube é inofensiva.

A cesta e os ovos

A conhecida teoria de que o eleitorado não põe os ovos na mesma cesta tem sido apontada como uma vantagem para Cavaco Silva na corrida a Belém. Ora, eu acho que essa mesma teoria pode constituir uma desvantagem para o dito. É que com Sócrates e Campos e Cunha no Governo, é muito possível que o eleitorado veja Cavaco como pertencente à mesma cesta. Já de uma cesta muito diferente viria Manuel Alegre. Seria bom que as gentes do PS percebessem isto. Até porque as nossas vidas andam tão prosaicas, que ter um poeta como presidente só nos pode fazer bem.

sábado, junho 04, 2005

Um livro para todos os dias

Amanhã, no Pequeno Herói, há um encontro especial. Confiram e venham. É para todas as idades.

Vocabulário: O Albertismo

Não sendo médico, julgo que posso dizer que um organismo doente manifesta a sua enfermidade, antes de mais, através de sintomas anómalos. Vem isto a propósito da doença de que Portugal padece e dessa tremenda anomalia que se chama Alberto João Jardim.
Durante alguns anos tive a infelicidade de trabalhar com um imbecil cuja leitura semanal era o Tal&Qual e que dizia muito divertido que o político a que mais achava graça... - uma pequena interrupção porque, muito a propósito, pousou uma varejeira no meu monitor, o que me fez andar por alguns momentos de chinelo na mão a tentar escorraçar o monstrengo pela janela fora - continuando, dizia o asno que o político que mais o divertia era o Alberto João, porque diz o que pensa (sic).
Bom. Vamos lá por partes. Dizer o que se pensa pode ser bom, embora por vezes nos seja mais útil calar determinados pensamentos. Mas o problema maior é quando o que se pensa nunca passa de um primarismo intelectual próximo da indigência cerebral. Ora, é precisamente esse o caso do Alberto. Ele, na intimidade, até pode ser bom moço (embora eu não apostasse nisso o meu chinelo justiceiro, comprado por alguns míseros cêntimos numa qualquer feira deste país), mas enquanto espécime de homo sapiens (no sentido de homem pensante) não passa de uma caricatura grotesca que muito dificilmente se poderia tornar num estudo de caso que, partindo do particular para o geral, permitisse uma interpretação fidedigna da inteligência humana.
Todavia, para os cientistas que com este tipo de matérias encontrem gozo intelectual, espiritual ou mesmo carnal, ele é um estupendo objecto de estudo. É que se Portugal aparenta indisfarçáveis sintomas de demência, o rapaz da Madeira é o mais duradouro e o que mais se evidencia de todos eles. No fundo, de alguma esquálida forma, Alberto é Portugal e Portugal é Alberto, no sentido em que ele é a face mais visível da imbecilidade que nos domina.
Um exemplo? Não sei se alguma vez viram um programa que passa na TVI chamado Fiel ou Infiel (se não é bem isto é qualquer coisa parecida). Se não viram, vejam. Vale a pena, quanto mais não seja para perceber que num qualquer José Eduardo Moniz está um potencial Alberto. O programa conta-se em meia dúzia de linhas: um dos elementos de um casal concorda em sujeitar o outro a um «teste de fidelidade». A produção do programa monta um esquema, normalmente, uma entrevista de emprego na qual é feita uma proposta financeira muito aliciante à cobaia (que não sabe nada do que se passa), por um elemento do sexo oposto particularmente atraente, que passa por patrão/patroa rico/a. O/A actor/actriz passa então rapidamente de uma conversa de trabalho para uma conversa de engate e, invariavelmente (pelo menos nos que vi) o/a sujeito/a cai no logro e envolve-se com a pessoa que o seduz. Naturalmente que tudo isto é filmado e mostrado ao outro elemento do casal, o qual não só é confrontado com a infelidade do parceiro (e é bem feito, digo eu, porque foi ele/a que o pediu), como tem ainda de sofrer com a gritaria de um público de Albertos/as presentes no estúdio, pagos para fazerem o papel dos atrasados mentais que são e com a converseta de um apresentador vindo do Brasil (onde parece que também não faltam Albertos), cujo nome me escapa, mas que poderia perfeitamente chamar-se também Alberto. No fim, o infiel entra em estúdio com um ramo de flores e a peixeirada instala-se (com algumas agressões minimizadas pelos gorilas de serviço).
Ora, isto é um programa de televisão. Um programa que passa numa estação de televisão em sinal aberto, um programa visto por famílias portuguesas. Isto, caríssimos, passa numa televisão portuguesa. Isto, caríssimos, é Portugal! (olé! olé!, que até ganhámos aos eslovacos). Como é Portugal haver o Alberto – o genuíno – que chama bastardos e filhos da puta aos jornalistas que fazem notícia do facto de ele acumular o salário de presidente do Governo Regional da Madeira com uma generosa pensão de reforma.
Isto, caríssimos, são sintomas indissimuláveis da demência que atinge o noso país. Portugal é um país suicidário em velocidade cruzeiro. E o albertismo mais não é do que um sintoma dessa obsessão mórbida. No fundo, o Alberto, o pobre Alberto – o verdadeiro – só por ser uma varejeira de proporções dantescas, acaba por se tornar no símbolo matricial da loucura, mas há que reconhecer que a loucura nacional há muito que ultrapassou o fenómento madeirense (e não estou a falar do Cristiano Ronaldo). A loucura é generalizada e o estado de saúde do país é atroz. Chamar albertismo a este estado é um abuso que se faz a um simples indivíduo que nem sequer terá pedido para nascer neste país. Diria mesmo que é uma injustiça. No fundo, ele não passa de um doente mental, tão carenciado de ajuda médica como qualquer pedófilo. Mas a verdade é que ninguém como ele é tão eloquente na demonstração da demência portuguesa. Por isso, à falta de melhor designação e para facilitar futuros entendimentos com os meus leitores, a partir de agora considerarei esta enfermidade que nos atinge como o albertismo ©.

PS: prova de que estou certo é o facto de a varejeira ainda continuar por aqui às voltas...

sexta-feira, junho 03, 2005

Portugal

É difícil exprimir o quanto o meu país me desgosta. Tenho 33 anos feitos de muitas ilusões e de muitos sonhos adiados, de muita vontade de conseguir não sei o quê não sei onde e ainda menos como. Tenho (ou quero ter), por natureza, um espírito optimista. Tenho força. Tenho vontade. Tenho um desejo imenso, irreprimível, insaciável. Tenho uma capacidade de resistência notável. Tenho um temperamento guerreiro. Sou sensível à arte. Sou tendente à guerra. Sou amante do prazer. Sou um desordeiro muito arrumadinho no meu caos íntimo. Sou um passageiro de mim mesmo numa linha desactivada. Sou um pedaço de absurdo no absurdo global onde me reconheço um lugar, porque sei que na desordem tudo cabe. Sou um espectador silencioso quanto baste, bem comportadinho, mas a um passo da marginalidade. Tenho ganas de me insurgir contra o poder e a consciência de não o poder. Tenho todos os dias uma equação para resolver, cujos factores comutam entre si e se intersectam num movimento perpétuo. Tenho um televisor por sintonizar dentro dos meus olhos. Tenho ruído branco nos ouvidos. Tenho uma caixa de ressonância maior que o meu corpo. Tenho um mundo inteiro fechado dentro de mim. Tenho um mundo só meu onde mundo outro que não esse não cabe. Sou narcisista. Nutro um profundo desprezo por mim próprio. Sou depressivo. Sou o rei de todas as coisas que conheço. Não conheço nada fora de mim. Não me sei outrar. Tenho uma dificuldade atroz em perceber o sentido das coisas, em captar a ordem do mundo. Não acredito na religião e a ciência faz-me rir. Sou um doce suicida na razão dos cigarros que fumo. Sou um amante do bom vinho quando posso, do sofrível quando para mais não há, de qualquer zurrapa martelada nos dias de desespero. Nos meus sonhos, sou um desesperado, um malfeitor, um desordeiro incorruptível. Sou um personagem fabricado, sou um produto desclassificado, sou descartável. Sou incontinente. Sou insular. Sou um dique a rebentar. Sou o fósforo que queima e queima e teima em queimar. Sou difícil de apagar. Sou um desequilibrado nato que insiste em fazer o número do arame. Sei linguas estrangeiras. Quando as não sei, invento-as. Gosto de inventar. No dia (que está próximo) em que me obrigarem a designar a minha utilidade no mundo, direi que sou inventor. Que invento asas de cêra. E que construo passadeiras para nenhum lugar. Sou preguiçoso. E de todas as coisas que não sei, uma há que desconheço com particular fervor. A que estabelece uma relação entre a descrença e a preguiça. Não sei o que as liga, não sei porque se ligam. Mas sei que dormem na mesma cama. O mundo é uma imensa orgia. O mundo é leviano e é nisso, só nisso, que o mundo é belo. O mundo pode ser estúpido, insano e absurdo, mas também é belo porque é imundo. O mundo é imundo. É um lodaçal imenso, uma chafurdice pegajosa. O mundo é um televisor com vista para a barbárie, é os passos que se dão em meia dúzia de ruas e outros tantos aeroportos e auto-estradas. O mundo é dizer que todos os outros condutores são atrasados mentais. É olhar para os dois lados antes de atravessar na passadeira. É dizer bom dia, boa tarde, é sorrir e olhar. É praguejar. É ver o outro, é ser o outro. O mundo é nunca se saber o que se é. É saber que se é um país que não se escolheu. É amá-lo até ao ódio. É uma imensa vontade de partir. É uma inexplicável atracção por ficar. E o centro do mundo, do meu mundo, é este odioso Portugal que me apetece dinamitar até que dele mais não exista que os mitos que o sustêm. Só então esse objecto a que chamo Portugal se encontraria com a sua perfeita representação. Portugal - entenda-se de uma vez por todas -, Portugal não é um país. Portugal é uma ideia. Uma ideia sem correspondência no real. Cumprir Portugal, cumprir a ideia de Portugal é destruí-lo, para que só a ideia subsista. Alegremo-nos, pois, que é isso mesmo que vimos fazendo.