sexta-feira, junho 03, 2005

Portugal

É difícil exprimir o quanto o meu país me desgosta. Tenho 33 anos feitos de muitas ilusões e de muitos sonhos adiados, de muita vontade de conseguir não sei o quê não sei onde e ainda menos como. Tenho (ou quero ter), por natureza, um espírito optimista. Tenho força. Tenho vontade. Tenho um desejo imenso, irreprimível, insaciável. Tenho uma capacidade de resistência notável. Tenho um temperamento guerreiro. Sou sensível à arte. Sou tendente à guerra. Sou amante do prazer. Sou um desordeiro muito arrumadinho no meu caos íntimo. Sou um passageiro de mim mesmo numa linha desactivada. Sou um pedaço de absurdo no absurdo global onde me reconheço um lugar, porque sei que na desordem tudo cabe. Sou um espectador silencioso quanto baste, bem comportadinho, mas a um passo da marginalidade. Tenho ganas de me insurgir contra o poder e a consciência de não o poder. Tenho todos os dias uma equação para resolver, cujos factores comutam entre si e se intersectam num movimento perpétuo. Tenho um televisor por sintonizar dentro dos meus olhos. Tenho ruído branco nos ouvidos. Tenho uma caixa de ressonância maior que o meu corpo. Tenho um mundo inteiro fechado dentro de mim. Tenho um mundo só meu onde mundo outro que não esse não cabe. Sou narcisista. Nutro um profundo desprezo por mim próprio. Sou depressivo. Sou o rei de todas as coisas que conheço. Não conheço nada fora de mim. Não me sei outrar. Tenho uma dificuldade atroz em perceber o sentido das coisas, em captar a ordem do mundo. Não acredito na religião e a ciência faz-me rir. Sou um doce suicida na razão dos cigarros que fumo. Sou um amante do bom vinho quando posso, do sofrível quando para mais não há, de qualquer zurrapa martelada nos dias de desespero. Nos meus sonhos, sou um desesperado, um malfeitor, um desordeiro incorruptível. Sou um personagem fabricado, sou um produto desclassificado, sou descartável. Sou incontinente. Sou insular. Sou um dique a rebentar. Sou o fósforo que queima e queima e teima em queimar. Sou difícil de apagar. Sou um desequilibrado nato que insiste em fazer o número do arame. Sei linguas estrangeiras. Quando as não sei, invento-as. Gosto de inventar. No dia (que está próximo) em que me obrigarem a designar a minha utilidade no mundo, direi que sou inventor. Que invento asas de cêra. E que construo passadeiras para nenhum lugar. Sou preguiçoso. E de todas as coisas que não sei, uma há que desconheço com particular fervor. A que estabelece uma relação entre a descrença e a preguiça. Não sei o que as liga, não sei porque se ligam. Mas sei que dormem na mesma cama. O mundo é uma imensa orgia. O mundo é leviano e é nisso, só nisso, que o mundo é belo. O mundo pode ser estúpido, insano e absurdo, mas também é belo porque é imundo. O mundo é imundo. É um lodaçal imenso, uma chafurdice pegajosa. O mundo é um televisor com vista para a barbárie, é os passos que se dão em meia dúzia de ruas e outros tantos aeroportos e auto-estradas. O mundo é dizer que todos os outros condutores são atrasados mentais. É olhar para os dois lados antes de atravessar na passadeira. É dizer bom dia, boa tarde, é sorrir e olhar. É praguejar. É ver o outro, é ser o outro. O mundo é nunca se saber o que se é. É saber que se é um país que não se escolheu. É amá-lo até ao ódio. É uma imensa vontade de partir. É uma inexplicável atracção por ficar. E o centro do mundo, do meu mundo, é este odioso Portugal que me apetece dinamitar até que dele mais não exista que os mitos que o sustêm. Só então esse objecto a que chamo Portugal se encontraria com a sua perfeita representação. Portugal - entenda-se de uma vez por todas -, Portugal não é um país. Portugal é uma ideia. Uma ideia sem correspondência no real. Cumprir Portugal, cumprir a ideia de Portugal é destruí-lo, para que só a ideia subsista. Alegremo-nos, pois, que é isso mesmo que vimos fazendo.

3 Comments:

Blogger Rita said...

Olá Mário,

É um prazer! :)

Redobrado pela intensidade e multiplicidade vs. unidade (e tudo o mais que acabe em "ade") do teu post.

Se isto é o início de uma recuperação, então vamos longe!

Volto depois para o ler outra vez.

:) :) :)

Estou contente!

12:34 da manhã  
Blogger Pedro F. Ferreira said...

Hoje, um amigo pouco habituado a estas coisas da blogosfera estranhou este meu estranho vício dos blogues que se me entranhou desde Outubro do ano passado. Ele não percebia o valor de um blogue. Não me apeteceu argumentar, limitei-me a mostrar-lhe este teu post. Um grande abraço.

12:06 da manhã  
Blogger Roberto Iza Valdes said...

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1:15 da tarde  

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