segunda-feira, junho 27, 2005

Post escrito na esperança de que haja algum editor de algum semanário publicado ao Sábado e chamado Expresso que o leia e a seu propósito se lembre...

...de me contratar para assinar alguma das muitas colunas estéreis que maioritariamente o ocupam (é que há casos...)

Normalmente cria-se um blogue porque se pretende escrever nele e nele mostrar-se a outros o que se escreve. Ao fim de algum tempo, porém, esse acto, algures na fronteira entre o narcisismo e o altruísmo, transforma-se numa espécie de obrigação. Ao princípio não se tem consciência disso. Empolgamo-nos em escrever diariamente e diariamente pensamos no que poderemos escrever no blogue. Ao fim de algum tempo, se tivermos azar, vem então a consciência. A consciência de que já passámos a fase em que escreviamos no blogue e de que entrámos na fase em que actualizamos o blogue. Essa consciencialização, se for aguda, traz ainda inerente uma outra, a de que a febrilidade com que actualizamos o nosso blogue corresponde aos mecanismos mediáticos que, inadvertidamente, interiorizámos, ou seja, aos mecanismos que fazem com que a comunidade jornalística produza diariamente notícias (ou opiniões) que, sem esse impulso vertiginoso, dificilmente poderiam ser consideradas como notícias (ou opiniões) dignas de um mínimo de interesse. Significa isto que um blogue pode, por descuido, inépcia ou a mais completa inconsciência transformar-se numa cópia mal amanhada do pior dos pasquins (ou até do melhor - nos dias que correm as muitas promiscuidades do mundo têm resultado em alguns equívocos muito interessantes). E, sejamos honestos, não é nada difícil encontrar exemplos destes na blogosfera, tanto nos blogues mais obscuros quanto nos mais mediáticos. É claro que isto pode ser relativamente amenizado se os blogues forem colectivos. Nestes casos é muito mais fácil dosear a propensão para o disparate. Baste que o sujeito em dia disparatado se cale, dando o tempo de antena ao sujeito inspirado. Por outro lado, nos blogues colectivos a coisa pode também assumir uma gravidade muito maior. Sendo certo que todos somos capazes do sublime e do atroz, é também verdade que muitos de nós não sabem distinguir um do outro e que muito facilmente os confundimos. Na pior das hipóteses, é perfeitamente possível, e não tão improvável como se poderia pensar, que num mesmo dia todos os elementos de um blogue colectivo afinem pelo disparate. Ora, como é evidente, isto resulta numa elevação do disparate a uma potência de valores incalculáveis e, pior, é capaz de produzir efeitos proporcionalmente indesejáveis, o maior dos quais não será, decerto, uma irresistível vontade de entoar cânticos em modos gregorianos com o nariz enfiado dentro da retrete. Adiante. Tudo isto vem, na realidade, a propósito de muito pouco e esse muito pouco é a consciência absolutamente lúcida do autor deste blogue e deste post de que não tinha muito que dizer (e estou a ser complacente comigo mesmo, porque, no fundo no fundo, não fosse o meu cego narcisismo, poderia perfeitamente dizer que não tinha absolutamente nada para dizer) e de que não queria, apesar disso, deixar de actualizar o blogue. Fi-lo com algum altruísmo, é certo. Afinal, ainda há algumas almas que cá vêm diariamente. E se vêm é porque esperam encontrar novidades. Mas, porra... há que ser honesto. Também tenho alguma vaidade nisto... É que dessas poucas almas, algumas haverão que lerão este post até ao fim, mesmo que no fim percebam que foram enganadas e que, na realidade, ele não diz nada de verdadeiramente interessante... (pois é, pois é, lamento dizê-lo).

Mas agora a sério... A única coisa que, no meio disto tudo, realmente me chateia, é que não me pagam para escrever disparates... E, no entanto, a avaliar por muito do que por aí se lê, eles até estão em alta. Sendo assim, o que é que me faltará para ser um disparador de disparates bem pago?