sábado, junho 04, 2005

Vocabulário: O Albertismo

Não sendo médico, julgo que posso dizer que um organismo doente manifesta a sua enfermidade, antes de mais, através de sintomas anómalos. Vem isto a propósito da doença de que Portugal padece e dessa tremenda anomalia que se chama Alberto João Jardim.
Durante alguns anos tive a infelicidade de trabalhar com um imbecil cuja leitura semanal era o Tal&Qual e que dizia muito divertido que o político a que mais achava graça... - uma pequena interrupção porque, muito a propósito, pousou uma varejeira no meu monitor, o que me fez andar por alguns momentos de chinelo na mão a tentar escorraçar o monstrengo pela janela fora - continuando, dizia o asno que o político que mais o divertia era o Alberto João, porque diz o que pensa (sic).
Bom. Vamos lá por partes. Dizer o que se pensa pode ser bom, embora por vezes nos seja mais útil calar determinados pensamentos. Mas o problema maior é quando o que se pensa nunca passa de um primarismo intelectual próximo da indigência cerebral. Ora, é precisamente esse o caso do Alberto. Ele, na intimidade, até pode ser bom moço (embora eu não apostasse nisso o meu chinelo justiceiro, comprado por alguns míseros cêntimos numa qualquer feira deste país), mas enquanto espécime de homo sapiens (no sentido de homem pensante) não passa de uma caricatura grotesca que muito dificilmente se poderia tornar num estudo de caso que, partindo do particular para o geral, permitisse uma interpretação fidedigna da inteligência humana.
Todavia, para os cientistas que com este tipo de matérias encontrem gozo intelectual, espiritual ou mesmo carnal, ele é um estupendo objecto de estudo. É que se Portugal aparenta indisfarçáveis sintomas de demência, o rapaz da Madeira é o mais duradouro e o que mais se evidencia de todos eles. No fundo, de alguma esquálida forma, Alberto é Portugal e Portugal é Alberto, no sentido em que ele é a face mais visível da imbecilidade que nos domina.
Um exemplo? Não sei se alguma vez viram um programa que passa na TVI chamado Fiel ou Infiel (se não é bem isto é qualquer coisa parecida). Se não viram, vejam. Vale a pena, quanto mais não seja para perceber que num qualquer José Eduardo Moniz está um potencial Alberto. O programa conta-se em meia dúzia de linhas: um dos elementos de um casal concorda em sujeitar o outro a um «teste de fidelidade». A produção do programa monta um esquema, normalmente, uma entrevista de emprego na qual é feita uma proposta financeira muito aliciante à cobaia (que não sabe nada do que se passa), por um elemento do sexo oposto particularmente atraente, que passa por patrão/patroa rico/a. O/A actor/actriz passa então rapidamente de uma conversa de trabalho para uma conversa de engate e, invariavelmente (pelo menos nos que vi) o/a sujeito/a cai no logro e envolve-se com a pessoa que o seduz. Naturalmente que tudo isto é filmado e mostrado ao outro elemento do casal, o qual não só é confrontado com a infelidade do parceiro (e é bem feito, digo eu, porque foi ele/a que o pediu), como tem ainda de sofrer com a gritaria de um público de Albertos/as presentes no estúdio, pagos para fazerem o papel dos atrasados mentais que são e com a converseta de um apresentador vindo do Brasil (onde parece que também não faltam Albertos), cujo nome me escapa, mas que poderia perfeitamente chamar-se também Alberto. No fim, o infiel entra em estúdio com um ramo de flores e a peixeirada instala-se (com algumas agressões minimizadas pelos gorilas de serviço).
Ora, isto é um programa de televisão. Um programa que passa numa estação de televisão em sinal aberto, um programa visto por famílias portuguesas. Isto, caríssimos, passa numa televisão portuguesa. Isto, caríssimos, é Portugal! (olé! olé!, que até ganhámos aos eslovacos). Como é Portugal haver o Alberto – o genuíno – que chama bastardos e filhos da puta aos jornalistas que fazem notícia do facto de ele acumular o salário de presidente do Governo Regional da Madeira com uma generosa pensão de reforma.
Isto, caríssimos, são sintomas indissimuláveis da demência que atinge o noso país. Portugal é um país suicidário em velocidade cruzeiro. E o albertismo mais não é do que um sintoma dessa obsessão mórbida. No fundo, o Alberto, o pobre Alberto – o verdadeiro – só por ser uma varejeira de proporções dantescas, acaba por se tornar no símbolo matricial da loucura, mas há que reconhecer que a loucura nacional há muito que ultrapassou o fenómento madeirense (e não estou a falar do Cristiano Ronaldo). A loucura é generalizada e o estado de saúde do país é atroz. Chamar albertismo a este estado é um abuso que se faz a um simples indivíduo que nem sequer terá pedido para nascer neste país. Diria mesmo que é uma injustiça. No fundo, ele não passa de um doente mental, tão carenciado de ajuda médica como qualquer pedófilo. Mas a verdade é que ninguém como ele é tão eloquente na demonstração da demência portuguesa. Por isso, à falta de melhor designação e para facilitar futuros entendimentos com os meus leitores, a partir de agora considerarei esta enfermidade que nos atinge como o albertismo ©.

PS: prova de que estou certo é o facto de a varejeira ainda continuar por aqui às voltas...