sexta-feira, julho 01, 2005

Elogio a um Barnabé

Em Portugal é difícil dizer-se bem de alguém. Quando dizemos bem de alguém, é porque lhe estamos a dar graxa ou, pior, porque somos uns aduladores sem personalidade própria. O mais curioso é que, muitas vezes, os próprios visados pelos elogios ficam tão inchados por os receberem que, eles próprios, se sentem superiores a quem lhes atribui os encómios. Ou então ficam desconfiados, interrogando-se de sobrolho carregado sobre que água esconderá o bico que proferiu o elogio.

Claro que isto pode ser diferente se elogiador e elogiado forem partes integrantes de um mesmo sistema, digamos, uma universidade, um partido político, uma empresa, uma classe profissional, ou o conjunto dos escritores «reconhecidos» inter pares. Nesse caso, o elogio funciona mesmo como uma norma, até porque ao elogiar o outro, estamos a elogiarmo-nos a nós próprios, na medida em que fazemos parte do mesmo grupo. E nestes casos também, um elogio nunca vem só. Há sempre um contra-elogio que riposta ao primeiro, justificando-o.

Bom, mas quando um elogio não obedece às regras supra citadas, quando aparentemente não há sequer regras que os justifiquem, aí temos o caldo entornado. Aí, estamos decerto ou perante um espécime humano sem escrúpulos, que recorre sem vergonha à palavra fácil e simpática para se fazer notar, ou perante um idiota, um nerd.

Simplesmente, julgo eu com toda a modéstia, porque o elogio fora dos cânones ditos aceitáveis, não se conjuga com a inveja, esse sentimento que tanto cultivamos neste nosso cantinho de sol e amargura. A inveja não permite a admiração pelos outros, logo não permite o elogio. A não ser, claro está, que nesse elogio, esteja implícito um auto-elogio - o tal elogio de classe.

Pois é pois é. Mas eu tenho que confessar que, infelizmente, dou-me mal com alguns hábitos portugueses e um deles é precisamente os pré-requisitos para se proferirem elogios ao talento dos outros. É uma coisa que eu tenho, eu sei, que é muito pouco portuguesa. Sou incapaz de gostar muito de um livro de autor português (porque a questão a que me tenho referido passa-se entre portugueses e não entre estes e estrangeiros - aí já é outra conversa...) sem dizer maravilhas do autor (pelo menos enquanto autor desse livro) e, pior ainda, se acontecer cruzar-me com ele, sou bem capaz de me dirigir-lhe para lhe dizer, sem qualquer espécie de vergonha, imagine-se!: Gostei muito do seu livro! Pois é pois é, pensarão vocês agora, este gajo ou é graxista (ou mesmo brochista) ou é um palhaço...

Pois é pois é. Mas não, não é. Não, não sou. Apenas me parece útil e justo dar o mérito a quem o merece. (Progressões automáticas na carreira, uma ova!) E acredito mesmo que uma das razões, psicanalíticas se quiserem, para o atraso português está precisamente na generalizada incapacidade dos portugueses para reconhecerem o mérito dos outros. Mesmo quando isso não significa demérito próprio. A questão está em que a valorização dos outros aparece-nos quase sempre como uma desvalorização própria. Até porque Portugal não é um país cujo modelo de organização (ai, a paixão pela educação...) permita a ascensão de uma massa intelectual alargada, logo é um país onde, esporadicamente, aparecem alguns génios (ou alguns estrangeirados que tiveram a oportunidade e a sorte de o serem). E se reconhecemos qualidade aos outros, estamos, de forma tortuosa, a relegarmo-nos para o zona cinzenta dos medianos, dos sem-brilho.

E é pena. Se fossemos mais unidos, decerto teriamos mais sucesso... Mas, enfim. Não tenho pretensões de estar aqui a locomover montanhas. Senti apenas necessidade de fazer esta longa introdução, porque tenho um elogio a fazer e quis, antes de mais, mandar às urtigas todos os tremores nervosos que ele possa provocar e prevenir tanto o elogiado quanto todos os outros revoltados com o elogio, de que me estou nas tintas para a portuguesa inveja e os hábitos que lhe estão associados.

Dito isto, espero que o Rui (que não conheço, nem sei o que faz na vida para além de blogar, e muito menos estou a pensar em lhe pedir algum favor ou emprego) volte um dia destes noutro qualquer endereço.