sábado, outubro 08, 2005

Pedro e Inês

Uma e outra vez dou o benefício da dúvida a Moita Flores. Não falo do candidato a presidente da câmara de Santarém, mas do autor de séries de ficção para a televisão pública portuguesa. Pedro e Inês tinha tudo para ser um sucesso. Uma história mítica da nossa História, impressa no código genético dos portugueses e envolvendo simultaneamente um drama amoroso da alta sociedade e intrigas palacianas. Uma aposta forte da RTP, nomeadamente em termos orçamentais. Um bom leque de actores (apesar da Ana Burstoff, que, como já nos habituou, faz de... Ana Burstoff). Um bom guarda-roupa. Boa música. Acesso a bons décors. Mas... infelizmente, ficamos por aqui.

Visto o primeiro episódio, só me apraz dizer que, lamentavelmente, esta nova aposta da RTP representa, mais uma vez... mais do mesmo. Diálogos execráveis (quantas vezes confusos e difíceis de acompanhar - veja-se a primeira cena, um monólogo em off de alguém que nos pretende dar uma lição de história, sem perceber que a ficção televisiva não é propriamente uma sala de aula), num híbrido entre a linguagem coloquial contemporânea e o que se julga ter sido a linguagem coloquial medieval. O resultado traduz-se em conversas surrealistas em que as personagens, portuguesas ou castelhanas (ou mesmo sarracenas), falam todas o mesmo português, insistindo, todavia, em tratar-se sempre (ou quase sempre, escapa-se o rei) pela segunda pessoa do plural. Presunçoso e lamentável.

Depois há as cenas perfeitamente escusadas, tão típicas na ficção televisiva portuguesa - as chamadas cenas para encher chouriços. É o caso da cena em que o príncipe Pedro salva um frade do ataque de salteadores para depois se rir das queixas que o clérigo faz do rei e, enfim, partir na sua cavalgadura deixando o pobre homem à mercê de outros prováveis ataques. Para quê, pergunta-se. Em que é que isto contribuiu para o avanço da narrativa? Para caracterizar o espírito bondoso de Pedro? Mas, nesse caso, porque deixou o homem no meio do mato outra vez? Alguém percebe? Eu não.

Depois a realização. É verdade que sem um bom argumento, é difícil conseguir um bom resultado final. Mas, enfim, na rodagem e na sala de montagem, ainda se podia atenuar um pouco esse efeito. Mas não. O que acontece em Pedro e Inês é precisamente o inverso disso. O que acaba por ser coerente, na medida em que não destoa da base do projecto. A realização, diga-se, é má, muito má. Por alguma razão (eventualmente por provincianismo, para mostrar a «qualidade» da produção) o realizador opta por recusar planos aproximados dos actores, substituindo-os por planos mais afastados que mostrem este ou aquele pormenor do décor. Tal acontece em praticamente todas as cenas, o que retira intensidade dramática às cenas que a deveriam ter, bem como a necessária identificação com os protagonistas. O resultado é uma pastelice pegajosa em que o telespectador se vê obrigado a lutar contra o sono para acompanhar o desenvolvimento da acção, sem nenhum envolvimento emocional com as peripécias daquelas personagens.

Mais ainda (e isto é comum nas produções portuguesas, mas esperava-se que nesta não fosse), a pobreza franciscana da figuração. Não se arranjava mais gente para receber a noiva de Pedro, enviada por Castela? Era assim tão pobrezinha a corte portuguesa? Era assim tão pouco importante a recepção à noiva do herdeiro do trono de Portugal?

Para rematar. Há pouco falava de peripécias das personagens. Mas a verdade é que não as há. Neste primeiro episódio nada mais se passa do que a chegada da princesa castelhana prometida a Pedro, a qual vem acompanhada da sua aia, Inês de Castro. Entre esta e Pedro nada se passa, a não ser na penúltima cena, em que (julgo eu, confesso que nessa altura já quase dormitava) o princípe vê a aia no jardim (é possível que tenham trocado algumas palavras, empregando a segunda pessoa do plural, mas não posso ter a certeza) e esta foge para os seus aposentos para, aqui, já na última cena, mostrar-nos a sua excitação pelo contacto com Pedro. E depois, zás, avançam os créditos. Belo gancho, não há dúvida. Pergunto-me se alguém neste país terá ficado em pulgas para ver o segundo episódio. Quanto a mim, só estou em pulgas para que Moita Flores ganhe as eleições em Santarém. Seriam quatro anos de sossego para os nossos pequenos ecrãs.

2 Comments:

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1:07 da manhã  
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O Dom Pedro, na série referida, parece o vocalista de uma banda de heavy metal manhosa. :)

5:44 da tarde  

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